POLÍTICA

Deve ter algo errado

Roberto Lameirinhas
Author
Roberto Lameirinhas
Deve ter algo errado

Por Roberto Lameirinhas

Sei lá, não sou especialista em nada, mas deve ter alguma coisa errada quando um ministro do Supremo Tribunal Federal oferece um jantarzinho para celebrar o aniversário de um político suspeito de ter recebido milhões em doações irregulares de empresa investigada por pagar bilhões em propinas e subornos. E deve ter algo de errado quando esse mesmo ministro passa a defender a tese de que alguns crimes - como o de operar caixa 2, por exemplo - não são, assim, “criiiimes”, mas só “delitozinhos”, coisa de nada.

 E acho que deve ter alguma coisa errada no fato deste mesmo ministro, que acumula a presidência do Tribunal Superior Eleitoral, é recebido e depois recebe - tudo na base da “camaradagem” - um presidente da República que pode se tornar réu de crime eleitoral. Não sei por que, mas nada me tira da cabeça que dessa promiscuidade entre réus, acusados, acusadores e juízes pode sair algum conchavo que “livre a cara” dos amigos e faça com que a mão da Justiça pese mais forte contra os inimigos.

  Não sei por que, coisa minha, meio purista, mas acho que esse negócio de juiz “com lado” cheira mal. Pior ainda quando juiz “costura” com acusados acordos que levem a reformas políticas que permitam mudar a Constituição e favorecer um grupo partidário. Deve ter algo errado.

 Deve ter algo errado em decisões que impõem tarjas para ocultar alguns nomes em processos judiciais. Deve ter algo errado quando tentam mudar as regras do jogo no meio do jogo.

 Quando um candidato a ministro do Supremo se fecha em um barco no meio de um lago com um punhado de réus em potencial, acredito que deva ter alguma coisa errada. Não consigo imaginar um juiz da Suprema Corte dos EUA, por exemplo, fazendo algo parecido. Relações tão estreitas entre réus e juízes, investigadores e investigados, eram comuns na Chicago dos anos 30, na Sicília da Cosa Nostra e na Nova York de Vito Corleone. Mas é possível que seja só impressão minha.