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Diferenças bem marcadas

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Por Roberto Lameirinhas

Barack Obama é um craque da retórica. O último discurso do período de oito anos em que se manteve na Casa Branca cumpre duas funções: deve se tornar um documento histórico sobre as realizações de sua administração e marcar claramente a diferença entre ele e o sucessor, Donald Trump.

Diferenças bem marcadas

 O democrata foi elegante e profundo na tarefa de distinguir-se do bilionário - eleito com uma plataforma voltada a conquistar grupos antiglobalização, anti-imigração, anti-establishment e defensores do uso da força para a manutenção da hegemonia dos EUA. Para isso, paralelamente ao balanço de realizações de seu governo, listou fatos e valores que construíram o que se costuma qualificar de “excepcionalidade americana”.

 “Por 240 anos, nossa nação tem conclamado os cidadãos a dar trabalho e esperança para cada nova geração”, discursou Obama. “Foi isso que atraiu imigrantes e refugiados através dos oceanos e do Rio Grande, levou as mulheres a alcançar o direito ao voto e impulsionou trabalhadores a se organizarem. Foi por isso que nossos soldados deram suas vidas em Omaha (uma das praia do desembarque do Dia D, na 2.ª Guerra) e Iwo Jima (ilha japonesa onde se deu uma das mais sangrentas batalhas da Guerra do Pacífico); Iraque e Afeganistão - e pelo que homens e mulheres de Selma (referência à luta contra a segregação racial) e Stonewall (marco da conquista dos direitos dos homossexuais) estiveram dispostos a dar as suas.”

 Após lembrar ter assumido o país no auge de uma grande recessão, Obama afirmou ter liderado o maior programa de recriação de postos de trabalho da história do país - justamente um dos principais cavalos de batalha da agenda de Trump -  e ter promovido o renascimento da indústria automobilística americana, então superada pela concorrência dos asiáticos.

 “Se eu tivesse dito (oito anos atrás) que nós escreveríamos um novo capítulo para o povo cubano, que encerraríamos o programa de armas nucleares do Irã sem dar um único tiro, que capturaríamos o grande mentor dos atentados do 11 de Setembro… Se eu tivesse dito que asseguraríamos o casamento igualitário  e o direito ao acesso à assistência médica para 20 milhões de nossos compatriotas, vocês talvez considerassem que nossas metas eram muito ambiciosas. Mas foi isso que fizemos”, prosseguiu, remarcando, sem citar o nome dele, as diferenças com Trump. Fazem parte das promessas de campanha do presidente eleito reverter, no âmbito externo, as políticas para Cuba e Irã, e, internamente, o programa de saúde gratuita abrangente instituído no chamado Obamacare.

 Obama ressaltou ainda suas ações que visam a combater as mudanças climáticas, incluindo o acordo de redução de emissão de carbono, que Trump também promete reverter. O democrata sublinhou ainda que estereótipos que recaem hoje sobre a população negra e latina já tiveram como objeto a imigração irlandesa, italiana ou polonesa e essas comunidades sofreram para superá-los.

 “A tarefa da democracia tem sido sempre pesada, contenciosa e algumas vezes sangrenta. Para cada dois passos adiante, damos um passo atrás”, disse Obama. “Mas a longa jornada adiante da América foi desenhada em sua fundação para ser uma conquista para todos, e não apenas para alguns.”

 “Entendemos que a democracia não requer uniformidade”, prosseguiu. “Nossos fundadores discutiram e se comprometeram, e esperaram que fizéssemos o mesmo. Eles sabiam que democracia requer um senso básico de solidariedade - a ideia de que acima de nossas diferenças, estaremos todos juntos; que avançaremos ou tombaremos como um só.