POLÍTICA

Guardado por Deus, contando vil metal...

Roberto Lameirinhas
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Roberto Lameirinhas

Sócio da JBS diz ter gravações de Temer e Aécio pedindo propina e aprofunda crise política que parece não ter fim

Guardado por Deus, contando vil metal...

No momento em que escrevo este texto, completam-se apenas cinco horas da divulgação do teor da delação do sócio da JBS Joesley Batista. Segundo jornal “O Globo”, há gravações de áudio e vídeo, feitas pelo próprio Batista e pela Polícia Federal, que comprovariam recebimento de propina paga pela JBS a Michel Temer e a  Aécio Neves - é muito provável que surjam mais nomes conhecidos no âmbito dessa denúncia.

 Os próximos dias prometem trazer emoções fortes e, a julgar por situações anteriores da Operação Lava Jato, não se descarta a cassação dos políticos envolvidos, incluindo o que ocupa a cadeira da presidência no Palácio do Planalto. A profundidade da nova etapa da crise política contínua que se arrasta desde 2014 só vai ser definida com os próximos movimentos das peças no Executivo federal, no Congresso e nas instâncias do Judiciário que tratam da Lava Jato. Mas já há consequências claras do escândalo desde suas primeiras horas.

 A primeira é que tanto Temer quanto Aécio emitiram notas pífias e genéricas em resposta às acusações. Ambos admitem encontros com Joesley Batista, mas negam que tenham cometido qualquer ato ilícito. A situação política de Aécio vai ainda embaralhar as cartas de seu partido, o PSDB, em relação às próximas eleições.

 As denúncias também devem causar impacto devastador sobre as reformas promovidas pelo governo Temer, principalmente a da Previdência, que, em razão da impopularidade, já enfrentava brutal resistência na Câmara e no Senado. Ainda que consiga se sustentar no poder, o presidente deve assistir ao derretimento rápido de sua base aliada. Na primeira reação importante à divulgação das acusações, Ronaldo Caiado, líder do DEM, um dos principais partidos que apoiam o governo, fez declarações pedindo a renúncia imediata do presidente e emenda à Constituição para a convocação de eleições.

 Outro efeito do escândalo deve ser uma nova freada no movimento de recuperação da economia, causada pelo ambiente de instabilidade política e pela percepção generalizada de que esquemas de corrupção infectaram todos os níveis das instituições do País.

 A provável homologação da delação premiada pelo STF levantará o sigilo das gravações cujo teor foi transcrito pelo jornal carioca e a divulgação da voz dos envolvidos certamente causará nova onda de turbulência.

 As possibilidades de combinações de cenários políticos e econômicos - levando-se em conta ainda que a Lava Jato segue em seu movimento - ainda são incontáveis, mas a certeza de o fim do túnel ainda está distante.