POLÍTICA

Instituições funcionando

Roberto Lameirinhas
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Roberto Lameirinhas

Por Roberto Lameirinhas

“Planalto apela à verba de publicidade para aprovar reforma da Previdência”, diz a manchete do site do “Estado de S. Paulo” da segunda-feira (10).  A “linha fina”, como se define o subtítulo que complementa a manchete, explica: “Os veículos de comunicação que aderirem à campanha a favor do projeto terão direito à publicidade federal”. Entende-se, por consequência, que os veículos que não aderirem à campanha do governo ficam sem nenhuma parte dessa verba.  

 Gostaria que a notícia toda estivesse equivocada, mas conheço demais o compromisso das duas autoras - as excelentes Vera Rosa e Tânia Monteiro - com a precisão jornalística para manter essa hipótese otimista. Em resumo e utilizando uma linguagem um pouco mais compreensível ao público em geral: caro cidadão, o governo vai usar o dinheiro dos seus impostos para enganar você.

Instituições funcionando

Deputados Artur Maia e Carlos Marun defendem reforma da Previdência

 Mais claro ainda: aquelas análises que você ouve, assiste e lê nas suas emissoras de rádio e TV e nos seus jornais favoritos mostrando como a reforma da Previdência é positiva não são produto de apuração jornalística isenta e independente, mas peças de propaganda compradas pela verba de publicidade do Planalto. Essas análises chegam como se fossem notícias, mas são apenas matérias pagas, algo que os departamentos comerciais das empresas jornalísticas chamam hoje de “infomercial”, mas neste caso você não é avisado disso.

 “A estratégia do Palácio do Planalto para afastar as resistência à reforma é fazer com que locutores e apresentadores populares, principalmente no Nordeste, expliquem as mudanças sob um ponto de vista positivo. Os veículos de comunicação que aderirem à campanha terão direito à publicidade federal”, diz a reportagem do “Estadão”, que relata a institucionalização do suborno à mídia. “De olho na eleição de 2018, os parlamentares sabem que, ao conseguir recursos para rádios, TVs e até jornais do interior, ganham espaço para aparecer nesses meios de comunicação. O combinado é que, sendo contemplados, votem a favor das alterações na aposentadoria”, prossegue a matéria. “O plano para conquistar emissoras de grande audiência, na tentativa de virar o jogo, foi definido pelo ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Moreira Franco. Nas palavras de um auxiliar do presidente Michel Temer, a tática ‘mata dois coelhos com uma só cajadada’.”

 Há sempre alguém disposto a comprar aqueles que querem se vender e as regras para a veiculação de publicidade oficial não são claras. Relações entre veículos de comunicação e verbas publicitárias de governo e estatais - assim como as de financiamento público, como o do BNDES - sempre foram promíscuas e opacas, mas raras vezes desceram a um nível tão rasteiro. É de se imaginar a revolta dos editorialistas do que se convencionou chamar de grande imprensa, caso uma iniciativa parecida com a noticiada pelo site do “Estadão” tivesse surgido durante os governos de Lula ou Dilma Rousseff. Mas panelas e sinos não costumam dobrar em protestos contra o regime atual, ao qual a mídia tem dedicado tanta docilidade - paga ou gratuita.