POLÍTICA

Isenção em dúvida? Qual dúvida?

Yazar

Por Roberto Lameirinhas

Reportagem publicada no começo da semana pelo site brasileiro da BBC informa que, de acordo com respeitados juristas do País, o vínculo de amizade entre Michel Temer e o ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes põe em dúvida a isenção do julgamento no Tribunal Superior Eleitoral - do qual Mendes é presidente - que, em tese, poderia remover Temer do Palácio do Planalto. Mas quem conhece minimamente os antecedentes de Mendes sabe que não há nenhuma “dúvida” quanto a esse tema.

Isenção em dúvida? Qual dúvida?

 Exceto por alguma hecatombe política de última hora, o julgamento da chapa Dilma Rousseff-Michel Temer no TSE está fadado a se converter na montanha que deve parir um rato. Em último caso, se transformará num espetáculo midiático que terá Gilmar Mendes como um dos protagonistas e se tornará uma sequência interminável de dilações e ilações - até que 2018 chegue e faça qualquer sentença inócua, na prática.

 Duas ações de caráter eminentemente político deixaram isso muito claro nos últimos dias.

 Na primeira delas, o autor da acusação de abuso de poder econômico na eleição de 2014, o PSDB, indicou qual deve ser a diretriz da denúncia: separar a candidatura de Dilma à presidência da de Temer à vice-presidência. Com essa estratégia, a ideia é conseguir no TSE a declaração de inelegibilidade da primeira e a absolvição do segundo. O argumento é de que Dilma tinha consciência das doações milionárias feitas à sua campanha por empreiteiras investigadas na operação Lava-Jato, mas Temer, não.

 A segunda ação indicadora da “operação abafa” emergiu nas declarações do próprio Gilmar Mendes e de caciques do PSDB como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso sobre os efeitos negativos para a estabilidade política e econômica do País de uma nova mudança de poder - causada por uma eventual cassação de Temer.

 Defensor e avalista do processo que levou Dilma ao impeachment em 2016, Mendes agora tem declarado que os efeitos do julgamento no TSE sobre a governabilidade do País serão levados em conta na sentença do tribunal. Ou seja, Temer pode dormir tranquilo.