Isso é Brasil
1BB34097-F786-44E7-9A1A-E8A05C0914DB
Burger
Isso é Brasil
1BB34097-F786-44E7-9A1A-E8A05C0914DB
Burger
Isso é Brasil
ic-spinner
Todo mundo tem uma história para contar
Encontre as melhores histórias para ler e autores para seguir. Inspire-se e comece a escrever grandes histórias sozinho(a) ou com seus amigos. Compartilhe e deixe o mundo conhecê-las.

Só há uma certeza: vai piorar

Por Roberto Lameirinhas

Nada tem sido muito claro no cenário político nacional dos últimos anos, mas a fumaça negra que a delação premiada do ex-vice-presidente de Relações Institucionais da Odebrecht Cláudio Melo Filho lança sobre o futuro de Brasília tem densidade e espessura sem precedente.  Entre os apelidos jocosos e os detalhes assombrosos das relações entre interesses públicos e privados, as revelações dos últimos dias não comprometem só os atuais ocupantes do Planalto, dos edifícios da Esplanada dos Ministérios e das sedes legislativas, mas principalmente embaralham as cartas para a disputa de 2018.

Colaborar com amigos em assuntos que você ama
Pedir coautoria ▸
Só há uma certeza: vai piorar

O que mais aterroriza, porém, é que se trata apenas da primeira das 77 delações que executivos da empreiteira devem fazer nos próximos meses aos investigadores da Operação Lava-Jato. Havia meses, assessores, jornalistas e lobistas já especulavam sobre os nomes que surgiriam em meio às delações. 

A presença de Michel Temer entre os supostos beneficiários de subornos pagos pela Odebrecht já vinha sendo mencionada desde os primeiros meses de 2016. O que não se esperava era que a delação viesse por meio de um relato tão minucioso, com o qual Melo Filho descreve, por exemplo, o jantar no Palácio do Jaburu, de 2014, durante o qual foi persuadido pelo então vice-presidente a doar R$ 10 milhões para candidatos do PMDB, do qual Temer era o líder máximo.

O presidente Temer, por meio da assessoria, nega irregularidade e diz que todas as doações estão incluídas nas prestações de conta das respectivas campanhas do PMDB. Mas a questão centrar não é essa - ao menos na visão da Odebrecht e de boa parte da cidadania. 

Declarada ou não, doação de empresa privada a agente público implica contrapartida relacionada a negócios com o poder público. Difícil acreditar que empreiteiras desse porte efetivem doações eleitorais motivadas pelo fervor ideológico - levando-se em conta que o PMDB ou qualquer outro grande partido que atue no Brasil tenha algum. 

Só há uma certeza: vai piorar

Quase ao mesmo tempo em que as delações de Melo Filho vêm à tona, se reforçam os indícios de que outros possíveis candidatos ao Planalto em 2018 estão para engrossar significativamente a lista de envolvidos em doações suspeitas. Pela primeira vez a sombra da ilegalidade ameaça o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, cujo caixa de campanha também teria sido irrigado pela construtora, de acordo com reportagem da Folha de S. Paulo. Alckmin é - ao lado de Aécio Neves e José Serra, ambos também acusados de receber propina - um dos principais nomes do PSDB para a eleição presidencial de 2018.

Com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva convertido em réu em pelo menos quatro investigações de corrupção, praticamente exclui-se da campanha quase todos os nomes mais cotados para o Planalto. Como consequência natural, fica aberto o caminho para aventureiros que sejam identificados com o discurso da negação da política tradicional - uma tendência que se verificou nas eleições municipais de 2016.

O drama político nacional, contudo, pode ganhar proporções ainda mais catastróficas nas próximas semanas, com a homologação da delação premiada do herdeiro da construtora, Marcelo Odebrecht. Há um certo clichê estabelecido nos últimos meses na grande mídia, segundo o qual a expectativa de uma delação de Marcelo Odebrecht estava causando o desabastecimento de calmantes nas drogarias de Brasília. O problema, para quem vive no Brasil, é que essa imagem está longe de ser exagerada.

Renan e a ‘rebananização’

TudoExplicado
há 10 meses1 visualizações

Por Roberto Lameirinhas

Ele é polêmico e está longe de ser uma unanimidade nacional, mas o ex-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) Joaquim Barbosa foi supremamente feliz ao descrever os recentes fatos políticos nacionais como parte de um “processo de rebananização” do País. “Os países centrais olham para as instituições brasileiras com suspeição. Os países em desenvolvimento, se não hostilizam, querem certa distância. O Brasil se tornou um anão político na sua região, onde deveria exercer liderança”, disse Barbosa no começo do mês à Folha.

Colaborar com amigos em assuntos que você ama
Pedir coautoria ▸

O ex-ministro se referia, principalmente, à forma e ao conteúdo do processo de impeachment que resultou no afastamento da presidente Dilma Rousseff. Mas não só a isso. Perdidos em meio a interesses pessoais, partidários, econômicos e corporativos, os poderes da República batem cabeça para contornar as regras do jogo. O abismo se tornou evidente no episódio que marcou a cassação e a “descassação” de Renan Calheiros da presidência do Senado por parte justamente do STF.

Renan e a ‘rebananização’

Lembremos o contexto: 1. Renan se torna réu num processo por desvio de dinheiro público. 2. Renan se torna o catalisador e principal alvo da revolta da multidão que sai às ruas no domingo seguinte e, sob a liderança dos “cidadãos de bem”, exige o fim da corrupção. 3. Renan é parte ativa na intentona de aprovar medidas que impõem limites a juízes e procuradores que investigam políticos. 4. Renan costuma mostrar força política desqualificando desafetos como “juizecos”, “lorenzetis” e outros insultos. 5. Renan dá a entender que conhece mais do que demonstra publicamente sobre os bastidores de Brasília. 6. Renan é aliado-chave do atual governo para a aprovação de medidas que o grupo que detém o poder considera essenciais. 7. Todos os etceteras possíveis.

Agora, aos fatos: 1. Um ministro do STF acata liminar que afasta Renan da presidência do Senado - levando em conta que um réu não pode estar na linha sucessória direta da Presidência da República. 2. Outro ministro do STF ataca publicamente e pede o impeachment do colega. 3. Renan diz que não aceita a ordem do afastamento. 4. Um senador do PT, partido contrário às medidas que o governo pretende aprovar na Casa, é o vice de Renan. 5. O plenário do STF faz vista grossa à desobediência à ordem judicial e decide que Renan pode, sim, continuar na presidência do Senado, embora a condição de réu o impeça de se manter na linha sucessória do Planalto. 6. Renan comemora seu triunfo no desafio ao Judiciário.

Na prática, a decisão do STF se constitui num golpe. O Artigo 80 da Constituição de 1988 não deixa dúvida sobre a quem corresponde sucessivamente substituir o presidente da República. A prerrogativa é do cargo exercido por esses substitutos eventuais: o de vice-presidente, de presidente da Câmara, de presidente do Senado, de presidente do Supremo.

Renan e a ‘rebananização’

É neste ponto que o temor do ex-ministro Barbosa sobre a imagem “bananeira” que essas decisões projetam do País ganha força.

Em 2009, acompanhei de perto a dificuldade dos líderes de Honduras de tentar convencer o mundo de que o que se passara ali não tinha sido um golpe - apesar da imagem de um militar apontando um fuzil para a cabeça do presidente, de pijamas, na madrugada, e acompanhando-o até um avião para retirá-lo do país. Assim como no Paraguai, em 2012. Como no Peru, de Alberto Fujimori, em várias ocasiões. Ou na Venezuela de Hugo Chávez em episódios nos quais constituições foram interpretadas de maneira enviesada, de acordo com a conveniência e o interesse da força preponderante de turno.

No caso brasileiro, ao final de um processo de impeachment questionado e questionável, já se havia decidido que a presidente Dilma seria afastada do cargo, mas poupada da penalidade de tornar-se inelegível por 10 anos - uma aberração constitucional. A decisão sobre Renan o reconhece inabilitado para presidir a República, mas apto para presidir o Senado.

“Os caras do Supremo mal conseguem interpretar um gibi do Chico Bento e você quer que eles interpretem Constituição”, pondera um amigo jornalista num post no Facebook.

Você leu a pasta de história
Story cover
escrita por
Writer avatar
tudoexplicado
Política, direitos humanos, feminismo, economia, mundo