Mapa Mundi
1BB34097-F786-44E7-9A1A-E8A05C0914DB
Burger
Mapa Mundi
1BB34097-F786-44E7-9A1A-E8A05C0914DB
Burger
Mapa Mundi
ic-spinner
Todo mundo tem uma história para contar
Encontre as melhores histórias para ler e autores para seguir. Inspire-se e comece a escrever grandes histórias sozinho(a) ou com seus amigos. Compartilhe e deixe o mundo conhecê-las.

O voto do medo

Roberto Lameirinhas
há 6 meses1.6m visualizações

Por Roberto Lameirinhas

E, como se prognosticava, o confuso ataque do período pré-eleitoral - no qual um cidadão francês de origem muçulmana abriu fogo em Paris, matando um policial e ferindo outro - deu o fôlego necessário para que a extrema direita representada por Marine Le Pen chegasse ao segundo turno da eleição presidencial francesa. Pesquisas indicam que ela não deve chegar ao Palácio do Eliseu, uma vez que o centrista Emmanuel Macron chega à disputa final com maior capacidade de arregimentar o voto de eleitores do restante do espectro político. Mas a votação francesa demonstra, mais uma vez, que ao menos uma parcela significativa da população acredita que estará mais segura com o reforço da vigilância, o fechamento das fronteiras e a acentuação do caráter policial da sociedade.

Colaborar com amigos em assuntos que você ama
Pedir coautoria ▸
O voto do medo

 Marine Le Pen politizou, como seu pai já o fizera por décadas, a questão da imigração e a defesa radical da xenofobia. Não são poucos os franceses que atribuem a maior parte de suas mazelas - não só econômicas, mas também de segurança - à integração com a União Europeia e ao viés multiculturalista predominante principalmente nas grandes cidades francesas.

 A novidade, desta vez, é que os dois maiores partidos - o gaullista (ou republicano) e o socialista - estão fora do páreo. Seus líderes mal esperaram a divulgação dos números do primeiro turno para correr para o colo de Macron, um jovem economista que se apresenta como um outsider que agrega elementos da centro-direita à agenda europeísta e moderada em relação às questões de imigração da esquerda.

 O ressentimento dos franceses com os imigrantes e seus descendentes cresceu exponencialmente desde janeiro de 2015 quando uma dupla de jihadistas agindo em nome do Estado Islâmico invadiu a redação do semanário satírico “Charlie-Hebdo”, em Paris, e matou 12 pessoas - cartunistas da publicação, na maioria. Seguiram-se ataques de menor intensidade até novembro daquele ano, quando um comando terrorista deixou mais 130 corpos em ações simultâneas na capital francesa, incluindo na casa de shows Bataclan. No ano seguinte, em pleno 14 de Julho, a data nacional, em Nice, um caminhão atropelou e causou a morte de outras 80 pessoas.

 Apesar de o pai de Marine, Jean-Marie Le Pen, ter chegado ao segundo turno de uma eleição presidencial, em 2002, o radicalismo xenófobo de seu movimento causava grande rejeição entre os eleitores franceses. Principalmente em razão do antissemitismo explícito e da retórica de negacionismo do Holocausto. Ambos, pai e filha, defendem a tese de que o regime de Vichy não exerceu nenhum papel no extermínio de judeus durante a 2.ª Guerra.

 Quando voltaram suas baterias contra a imigração árabe e muçulmana, porém, viram a repulsa às suas posições se reduzir substancialmente. Não ainda a ponto de converter Marine Le Pen em favorita para assumir a presidência francesa, embora Donald Trump e a votação do Brexit, no ano passado, tenha demonstrado que o voto envergonhado, aquele que as pesquisas não registram, nunca deve ser subestimado.

Das platitudes de cada dia

Roberto Lameirinhas
há 6 meses135.7k visualizações

Por Roberto Lameirinhas

Certo, certo. Às vezes é difícil mesmo preencher as linhas que faltam para deixar no tamanho aquele texto de jornal ou apresentar alguma consideração para completar aqueles intermináveis segundos de comentários em programas de rádio e TV. Mas o volume de platitudes pronunciadas no Brasil e fora dele pelos chamados “analistas internacionais” se ampliou de forma dramática nos últimos dias, com o ataque de mísseis dos EUA a uma base das forças pró-governo da Síria.

Colaborar com amigos em assuntos que você ama
Pedir coautoria ▸
Das platitudes de cada dia

Base síria atacada pelos EUA em imagem do Departamento de Defesa 

Não é culpa apenas dos acadêmicos e dos “jornalistas especializados”. Leitores, ouvintes e espectadores já não se satisfazem somente com os fatos e anseiam pelo “jogar para a frente”, pelo “o que virá depois”, pelos “cenários possíveis”. E aí vem a enxurrada de “é um ataque de consequências imprevisíveis” e “só o tempo dirá quem ganha e quem perde”. Li outro dia a conclusão de que “a Síria é a Síria e a Coreia do Norte é a Coreia do Norte”. 

 Ok, amigo, isso eu já sabia. Exceto por algumas coisas - como o aumento do meu imposto a pagar e a virada do tempo quando chego à praia -, o futuro tem mesmo essa tendência a ser incerto.

 E não há modelos - históricos, matemáticos ou astrofísicos - que possam ser aplicados de forma a produzir uma sequência lógica de eventos. Aí surgem as “revelações” por parte dos “especialistas”, principalmente os que povoam os programas jornalísticos da TV americana: “(Bashar) Assad pertence à seita alauita do Islã”; “Rússia e Síria são aliados históricos”; “Israel acompanha com preocupação a escalada da tensão”. Há uma tentativa de convencer o interlocutor de que ter conhecimento dessas informações confere erudição incontestável do analista - que o torna algo que uma amiga minha chama de “especialista nesses paranauê aí”. Mas são fatos que se constituem no contexto do evento, e não fenômenos capazes de alterar suas consequências.    

 Fiquemos no exemplo citado de intervenções americanas. É lugar comum dizer que a ação liderada pelos EUA no Afeganistão “criou um vácuo de poder” após a queda do regime do Taleban, o que teria aberto uma luta sangrenta entre os comandantes mujahedin locais. Mas o fim do reinado do Taleban não criou nada: as estimadas 1.500 facções que historicamente disputam o poder no país - inclusive durante a era do Taleban - seguem fazendo isso. Dizer que haveria luta pelo domínio do território não era uma previsão, era apenas a constatação da continuidade de uma situação de séculos. É algo que em jornalismo se convencionou chamar de “notícia”, de “factual”, não de análise.

 No caso Síria-Assad/EUA-Trump/Rússia-Putin, o tom dos “analistas” ganhou certa gravidade, como se realmente Washington e Moscou estivessem dispostos a lançar mão de seus códigos nucleares para assegurar a manutenção de suas respectivas influências na região do Eufrates.

Você leu a pasta de história
Story cover
escrita por
Writer avatar
tudoexplicado
Política, direitos humanos, feminismo, economia, mundo