POLÍTICA

O inimigo eu já conheço

Roberto Lameirinhas
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Roberto Lameirinhas

Sergio Moro vem a público para rejeitar o papel de oponente no primeiro depoimento de Lula em Curitiba

Ainda que com algum atraso, o juiz Sergio Moro decidiu vir a público nesta terça-feira (9) para esclarecer que não deve ser considerado um “oponente” do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na audiência marcada para o dia seguinte em Curitiba. Faz bem em deixar as coisas claras. Até então, parecia confortável no papel de antagonista de Lula ao qual foi alçado principalmente por uma parte da mídia. E juiz que se contrapõe previamente ao réu abre mão de seu papel de magistrado e compromete o processo.

O inimigo eu já conheço

 “Usando aquelas metáforas futebolísticas: é melhor que seja jogo de torcida única". "Digo isso com tranquilidade porque não sou um dos times em campo, sou um juiz", afirmou numa palestra em Curitiba. Dias antes, tinha pedido a apoiadores da Operação Lava Jato para que não fizessem manifestações no dia do depoimento de Lula para evitar confrontos com militantes petistas. Soou como o pedido de um líder a seus seguidores antes do embate apocalíptico do bem contra o mal propalado nas páginas de jornais e revistas.

 Questionamentos sobre uma suposta parcialidade de Moro são justificáveis. Há vazamentos, decisões de encaminhamento e conduções de interrogatórios que indicam, ao menos, uma certa má vontade com a defesa do petista. Mas as declarações de Moro rejeitando ser parte do processo garantem um mínimo de decoro formal ao julgamento.

 Outro aspecto importante a ser considerado é que este primeiro depoimento de Lula se refere ao caso do tríplex do Guarujá, talvez a acusação mais frágil dos procuradores da Lava Jato contra o ex-presidente. Deve haver, enfim, o já tradicional espetáculo proporcionado pelo vazamento da audiência e - dado o número de manifestantes dispostos a demonstrar seu apoio a Lula - casos de distúrbios da ordem pública e confrontos com a polícia. Como sugerem as declarações do próprio Moro, pouco ou nada além disso.

(“O inimigo eu já conheço” é um verso da canção “Não leve flores”, de Belchior, cantor e compositor que morreu em 30 de abril)