POLÍTICA

O quadro que dói mais

Roberto Lameirinhas
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Roberto Lameirinhas
O quadro que dói mais

Deve ter notado o usuário mais assíduo aqui deste Storia Brasil que há um mês tenho escolhido como título dos meus posts versos de canções imortalizadas por Belchior, o cantor e compositor cearense morto em 30 de abril. Obviamente trata-se de homenagem de fã, que cresceu e passou a adolescência ouvindo não só Belchior, como também aquela que pode ser considerada a mais genial safra de compositores da música popular brasileira - forçada aos subterfúgios poéticos para escapar da censura imposta por uma ditadura que assentou solidamente as bases do regime político corrupto e fisiológico que ameaça hoje nos engolir.

 Mas que relação poderia ter a obra de Belchior, ele mesmo um artista controvertido, intencionalmente “desengajado” e de ações duvidosas no aspecto pessoal - como qualquer ser humano, aliás -, com textos de comentários políticos dirigidos a uma rede social? Nada. E tudo ao mesmo tempo.

  As canções do rapaz latino-americano sem dinheiro no banco não faziam denúncias explícitas dos anos de chumbo como as da geração que lhe antecedeu, mas são ferramentas que demonstram a disposição de uma sociedade que não via à frente outro caminho que não fosse o da extraordinária felicidade coletiva a partir do exato momento que a redemocratização fosse colocada em marcha. Que parecia determinada a não morrer este ano, como morrera no ano passado.

 A obra de Belchior - recheada de referências a Beatles, Rolling Stones, Bob Dylan - era uma espécie de marcador de carbono 14 da vontade de reverter o desespero que era moda em 76. Falava de amor, mas embutia um lirismo rebelde que fatalmente deveria levar à retirada do bode do meio da sala e ao consequente nirvana coletivo ao qual éramos vocacionados.  

 Pois Belchior morreu aos 70 anos, ouvindo música, quase recluso e voluntariamente exilado a mais de 4 mil quilômetros do local onde nasceu. Deve ter constatado nos últimos anos que o desespero de 76 não era exatamente um modismo. E que - como é perversa a juventude de nossos corações - eram falsas as ilusões de que éramos o país do futuro e, como sociedade, um amanhã inexoravelmente brilhante nos esperava. Que ainda somos os mesmo e vivemos como nossos pais.