POLÍTICA

Odebrecht e crise diplomática

Roberto Lameirinhas
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Roberto Lameirinhas
Odebrecht e crise diplomática

Em setembro de 2008, o Brasil registrava a situação diplomática mais tensa com um país do chamado “eixo bolivariano” desde a chegada do Partido dos Trabalhadores ao poder, em 2002. O governo equatoriano de Rafael Correa havia expulsado trabalhadores de um canteiro de obras da Odebrecht, detido diretores da empresa brasileira que estavam em território do Equador e ameaçado não pagar o financiamento de uma obra - pelo BNDES - de US$ 240 milhões.

 Todo o contexto do imbróglio era bizarro. A Odebrecht tinha entregue a principal fase da obra da usina hidrelétrica de San Francisco, que visava a resolver o crônico problema de escassez de energia do país e tornar-se principal trunfo eleitoral de Correa - que poucos dias depois submeteria a referendo um novo projeto de Constituição. Mas às vésperas da consulta popular, um problema no rotor da usina lançou o país num apagão sem precedentes, despertando a fúria do presidente.

 Cheguei ao Equador para a cobertura do referendo na semana da votação e em pleno período de queda de braço entre Correa e a Odebrecht - que atribuía o mau funcionamento da usina ao projeto equatoriano, que não levou em conta a instabilidade do solo vulcânico do local da obra. Os engenheiros da empresa estavam presos e tinham a comunicação com a embaixada brasileira restrita. No calor da campanha eleitoral, o presidente equatoriano qualificava os donos da Odebrecht de “bandidos” e “mafiosos”. Na retórica de Correa não faltaram nem mesmo referências a “ações imperialistas” do Brasil.

 Pelo lado do governo brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva tentava publicamente colocar “panos quentes” na disputa, mas, em Quito, ouvi de vários diplomatas latino-americanos que o Brasil se sentia traído pela retórica de Correa - e, em particular, nem mesmo a mãe do presidente equatoriano era poupada de pesados insultos em Brasília. Ao mesmo tempo, assessores “informais” da Odebrecht caçavam a mim e a outros repórteres brasileiros em Quito para apresentar a versão da empresa sobre o incidente. Em São Paulo, Marcelo Odebrecht em pessoa visitava redações de jornais para falar sobre o caso.

 A Constituição defendida por Correa acabou aprovada no referendo, mas a temperatura diplomática não dava sinais de arrefecimento. Até que uma cúpula previamente marcada de países da Unasul reuniria os presidentes da região em Manaus. O líder equatoriano foi recebido com frieza por Lula, mas, segundo diplomatas de várias nacionalidades que estavam no encontro, coube ao venezuelano Hugo Chávez e ao boliviano Evo Morales a tarefa de “enquadrar” Correa.

 Durante coletiva, Chávez chegou a qualificar a Odebrecht como “empresa modelo para a América Latina”. A construtora brasileira tinha executado, em prazo recorde, a reconstrução de um viaduto da estrada que liga o aeroporto de Maiquetía a Caracas - cujo desmoronamento, meses antes, alimentava grande rejeição ao presidente venezuelano.

 Após retornar do Brasil, Correa convocou a imprensa ao palácio do governo e anunciou ter chegado a um acordo com a Odebrecht, que se comprometera a refazer a obra da usina. A crise, enfim, se atenuava. Só agora, porém, com as delações da Lava Jato, os laços da Odebrecht com vários governos da região se tornaram mais claros.