POLÍTICA

Olho de frente a cara do presente e sei que vou ouvir a mesma história porca

Roberto Lameirinhas
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Roberto Lameirinhas

Perplexidade com as denúncias contra Temer se soma ao embate entre Globo e Folha, cuja razão ainda não está clara  

Olho de frente a cara do presente e sei que vou ouvir a mesma história porca

Passada a surpresa inicial, sobram dúvidas a respeito das circunstâncias que elevam a crise política brasileira aos seus maiores níveis dos últimos meses. É verdade que, ao longo da sequência de denúncias e escândalos que permeiam a história política recente do País, nunca as provas apresentadas foram mais explícitas e irrefutáveis.

  A perplexidade e o clima de “barata voa”, porém, parecem ter se acentuado porque o que se esperava era que as novas denúncias bombásticas e provas irrefutáveis tivessem como alvo o outro lado - com Luiz Inácio Lula da Silva ou Dilma Rousseff. E as controvérsias não se restringiram aos partidos políticos, mortadelas e coxinhas, advogados e promotores. Elas se estenderam até mesmo aos veículos de comunicação tradicionais.

 Uma das principais perguntas ainda não respondidas deste capítulo da crise diz respeito à posição da Rede Globo, em aberta contraposição a continuação de Michel Temer na chefia do governo. A primeira notícia sobre a gravação do diálogo entre Temer e Joesley Batista foi publicada no site do jornal O Globo e amplificada com estardalhaço no Jornal Nacional. A cobertura que seguiu nos veículos das Organizações Globo - incluindo emissoras de rádio da rede CBN, revista Época, portais G1 e Globo.com - esteve sempre muito longe de ser equilibrada. Sobressaem-se as análises enviesadas em favor da renúncia ou destituição de Temer.

 Na outra ponta, posicionaram-se os dois grandes jornais de São Paulo. A Folha chegou a dar em manchete, com base num laudo feito às pressas e de qualidade duvidosa, que a gravação feita por Joesley era “inconclusiva”. Temer aproveitou a manchete para desqualificar a prova contra ele. A Globo, por meio do site de seu jornal e do Fantástico, praticamente ridicularizou o perito contratado pela Folha. O Estadão, menos enfático, também contratou perícia e encontrou problemas no àudio, mas adotou uma posição mais objetiva do ponto de vista político: neste momento, em que pese a gravidade das denúncias, é melhor para a economia do País a manutenção de Temer no Planalto e a retomada do esforço pelas reformas, principalmente as da Previdência e trabalhista.

 A explicação menos fantasiosa seria a de que Globo e jornais paulistas estariam em discordância justamente sobre a condição de Temer de conduzir as reformas: para a Globo, a denúncia viria à tona de todo modo e isso tiraria do governo a capacidade de aprovar sua pauta econômica; para a Folha, a mudança de comando atrasará ainda mais as reformas.

(O título deste post é um verso da canção “Conheço o meu lugar”, de Belchior, que morreu em 30 de abril)