POLÍTICA

'Pobres de direita'... aos montes

Roberto Lameirinhas
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Roberto Lameirinhas

Por Roberto Lameirinhas

'Pobres de direita'... aos montes

Com base em pesquisas realizadas de novembro a janeiro, um estudo da Fundação Perseu Abramo, ligada ao Partido dos Trabalhadores, concluiu nos últimos dias algo que qualquer morador da periferia de São Paulo cansa de saber desde que nasce: o morador dos bairros mais periféricos da capital tem tendência social e economicamente conservadora, considera o Estado pouco eficiente, nutre valores mais próximos aos do liberalismo do que aos do coletivismo socialista e, talvez como razão de tudo isso, mal distingue conceitos políticos como “direita”, “esquerda”, “burguesia” ou “proletariado”.

Não se trata de nenhuma guinada recente na direção do pensamento liberal, mas da constatação de valores arraigados em décadas de abandono do Estado - ao qual se atribui apenas o abuso na cobrança de impostos, com pouca ou nenhuma contrapartida, e os grandes escândalos de corrupção. Códigos morais e éticos próprios, ditados por valores locais estabelecem os limites da liberdade individual e, no embate conceitual entre liberdade e ordem, a ordem prevalece - uma vez que traz consigo a noção de segurança.

 A pesquisa não abrangeu esses pontos, mas qualquer morador pode constatar que a periferia também é  campo mais fértil para o conservadorismo religioso e, consequentemente, de costumes. Em geral, seus moradores reagem mais negativamente aos avanços de agendas de direitos humanos, feministas ou LGBT. Ou seja, é terreno promissor para detentores de discursos politicamente reacionários ou obscurantistas.

 Os bairros periféricos abrigam, sim, um número considerável de bases de organização política, mas a parcela da população efetivamente engajada a elas é ínfima. A preocupação maior dos moradores é com o funcionamento do sistema de transporte e os equipamentos de saúde e educação. Em casos pontuais, episódios de violência policial causam protestos. Mas há pouco discernimento sobre a área de atuação das esferas e níveis de poder - atribuições federais, estaduais ou municipais quase não se distinguem.    

 Essa situação, mostra o estudo da fundação, exacerbou-se nos últimos anos. De acordo com a conclusão da Perseu Abramo, “o padrão de vida na periferia melhorou como resultado direto das políticas dos governos petistas” e isso levou essa população a “se identificar mais com a ideologia liberal, que sobrevaloriza o mercado”.

 Numa entrevista recente à Rádio Atual, o rapper Mano Brown, líder dos Racionais MC’s e considerado um dos mais importantes intérpretes da “consciência coletiva” da periferia, analisou o fato de João Doria ter recebido 48% dos votos no Capão Redondo, zona sul de São Paulo, na eleição para a prefeitura. “Quem votou no Doria, pensa como ele. O cara que mora em uma comunidade e vota em um aristocrata, rico de raiz, que nunca sofreu nada, se sente como o Doria. No governo Lula, essa pessoa comprou um carro, uma moto, um celular caro, agora ela quer trancar tudo com um cadeado e colocar a polícia na porta para defender. Eu converso com as pessoas nas ruas. Tem quem diga que não leva o filho no CEU (Centro Educacional Unificado) porque é onde estão as 'piores crianças'. É a mentalidade elitista do brasileiro."