POLÍTICA

Sem inocentes

Roberto Lameirinhas
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Roberto Lameirinhas

Por Roberto Lameirinhas

Passado o primeiro impacto das imagens do depoimento de Emílio Odebrecht aos investigadores da Operação Lava Jato, há quem defenda a tese de que, sem saída, por mais de três décadas, a empreiteira se viu forçada a ingressar no jogo sujo da corrupção para sobreviver no ambiente contaminado dos negócios entre entidades privadas e o Estado. A ideia é um tanto falaciosa. O tom de indignação do patriarca da construtora está muito mais relacionado à suposta “hipocrisia” dos que agora condenam seus executivos - incluindo seu filho - do que com o ambiente corrupto no qual multiplicou uma das maiores fortunas do País.

Sem inocentes

 A fala de Emílio, na verdade, revela até mesmo uma ponta de orgulho por ter estabelecido as regras deste jogo de propina, que deu a ele e seus pares de outras empreiteiras o mando real e efetivo sobre a agenda política dos três níveis de poder do Estado - local, estadual e federal. Assim, gabou-se de controlar o direcionamento de licitações de obras propostas por políticos sob sua tutela, de impor ações legislativas, de influenciar resultados eleitorais e até mesmo da co-autoria de documentos de intenção doutrinária, como a Carta aos Brasileiros - que teria atenuado o temor do empresariado em relação à chegada de Luiz Inácio Lula da Silva ao Planalto, em 2002.

 Não há corrupto sem corruptor. E depreende-se do depoimento de Emílio Odebrecht que sua empresa - assim como empreiteiras concorrentes e ao mesmo tempo cúmplices de suas ações criminosas - tinha plena noção desse axioma. Na linha “todo homem tem seu preço”, não hesita em criticar até mesmo os veículos de comunicação, aos quais acusa de fazer vista grossa aos muitos casos de propina paga por empreiteira a políticos desde os tempo do regime militar. Claro, não sem antes mencionar a “ajuda” que a Odebrecht deu a muitas empresas de comunicação ao longo das últimas décadas.

 O intrincado esquema para burlar os controles fiscais do Estado e transformar concorrências públicas em jogos de cartas marcadas converteu as finanças públicas em refém de empreiteiras como a Odebrecht e as demais empresas sócias do cartel. Com o perdão pela obviedade e imprecisão, o prejuízo causado à sociedade é incalculável - na medida em que é impossível quantificar o volume de obras e o sobrepreço de cada uma delas executadas nas últimas décadas.

 Mas passou. É leite derramado. Esse prejuízo é irrecuperável - por mais acordos de leniência que se firmem daqui para a frente.  O mais importante, agora, é que a figura do septuagenário que narra as aventuras de seus dias de “capo di tutti capi” não seja romanceada ou tratada pelo “senso comum” como vítima, e não como grande beneficiária da estrutura corrupta que construiu.