POLÍTICA

Sequência de papelões

Roberto Lameirinhas
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Roberto Lameirinhas

Por Roberto Lameirinhas

Prefiro milhares de vezes vender sanduíche natural na praia a assumir a defesa cega de corporações como a BRF ou a JBS. Odeio frases que começam com “quem me conhece sabe”, mas quem me conhece sabe que a confiança na lisura das instituições atuais é próxima de zero, embora tenha particular ojeriza por teorias conspiratórias. Mas, convenhamos, se algum setor sai mais arranhado do que a indústria alimentícia do episódio que se chamou de Operação Carne Fraca, este é o da imprensa livre e independente.

Sequência de papelões

 Há questões fundamentais a serem investigadas pela mídia, que, ao menos no primeiro momento, optou por aceitar bovinamente as alegações de agentes da Polícia Federal - que, aparentemente, nem sequer distinguem de forma adequada ácido ascórbico de ácido sórbico. E, naquele mesmo primeiro momento, ninguém questionou a informação de que a PF acompanhava as irregularidades havia dois anos… Sim, dois anos!!! Supostamente, a Polícia Federal teria permitido que empresas inescrupulosas perpetrassem por dois anos um crime continuado contra a segurança alimentar de 200 milhões de brasileiros porque… Bom, sei lá, por quê.

 Relações entre grandes corporações e agentes de organismos de regulação do Estado nem sempre são sadias e transparentes. Duvidar que boa parte dessas relações esteja corrompida seria de quase absurda ingenuidade.

 Mas, como leitor, fiquei sem saber que efeitos teve por exemplo a distribuição do lote de produtos contaminados por salmonela no interior do Paraná. Houve casos de surtos desta contaminação nestes dois anos? Consumidores chegaram a detectar as eventuais fraudes? Funcionários burocráticos, gerentes, operários destas unidades apontadas pela PF tinham conhecimento das irregularidades? Fiscais sanitários eram subornados não apenas com dinheiro vivo, mas também com peças de carne!? Carne contaminada? Afinal, era papelão na carne ou carne no papelão? Considerando que as empresas envolvidas exportam para quase todos os países do planeta, não soa estranho que nenhum serviço de vigilância sanitária desses importadores tenha detectado essas irregularidades?

 Nenhum editor das redações com estrutura para realizar essas investigações pareceu ter se incomodado com isso. Sem dúvida, é mais fácil acreditar no coelhinho da Páscoa do que na isenção de interesses das autoridades governamentais responsáveis pelo tema, mas em nenhum momento se considerou a possibilidade de a Polícia Federal estar, digamos, superestimando o resultado de suas investigações?

 Para a mídia, aparentemente mais preocupada na apuração de temas de maior interesse de seus proprietários, a situação se complicou ainda mais no domingo, quando Michel Temer levou embaixadores para um convescote numa churrascaria rodízio de Brasília. Há versões conflitantes sobre se o restaurante, caríssimo, serve ou não carne nacional.