POLÍTICA

Silêncio providencial

Roberto Lameirinhas
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Roberto Lameirinhas

Por Roberto Lameirinhas

Silêncio providencial

Praticamente todas as técnicas de comunicação corporativa defendem, em caso de crise, a divulgação para o público - clientes, fornecedores, acionistas, beneficiários e prejudicados - de todos os detalhes sobre o evento causador da turbulência. O princípio dessa ideia é que a exposição amplia e com total transparência dos fatos, ainda que possam ser constrangedores, ajuda a evitar boatos e especulações que possam causar mais danos à marca ou à empresa.

 No caso das instituições políticas, no entanto, a lógica parece ser inversa. Se foi positivo o fato de a presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Carmen Lúcia, ter agido com rapidez para homologar as delações de 77 executivos da construtora Odebrecht no âmbito da Operação Lava Jato, o mundo político respirou aliviado com a decisão seguinte, que determinou o sigilo judicial do conteúdo dos depoimentos.

 Havia um temor generalizado em toda a sociedade de que esses depoimentos ficassem emperrados por um longo período em razão da morte do ministro do STF Teori Zavascki, então relator do processo,  num acidente aéreo do dia 19 de janeiro. A expectativa é a de que os relatos dos negócios escusos entre a empreiteira e agentes públicos impliquem políticos de todos os partidos, incluindo os do agora governante PMDB, do antecessor PT e do majoritariamente opositor, PSDB.

 O sigilo imposto pelo STF deve manter todos os envolvidos em supostas atividades ilícitas no campo das ilações e suposições, sem a confirmação oficial das acusações até que intimações, convocações e eventuais prisões tornem-se públicas.

 Sem a divulgação oficial do conteúdo dos depoimentos, é de se prever também que vazamentos se tornem comuns. O problema, nesses casos, é que os responsáveis por esses vazamentos em geral têm agendas e interesses bastante específicos. E essa seletividade pode pôr em risco a credibilidade de toda a operação, que se pretende a mais importante da história política do País.

 Uma reportagem da Folha de S. Paulo publicada logo após a decisão do STF informou que frequentadores do Palácio do Planalto celebraram o estabelecimento do segredo judicial. Eles temiam que, se o Executivo sofresse pressão popular para demitir funcionários na medida em que fossem citados nos depoimentos, o governo poderia ficar paralisado por um longo período - o que aprofundaria a situação de embaraço político e, consequentemente, a crise econômica.

 O sigilo, acompanhado ou não de eventuais vazamentos, lança todos os eventuais envolvidos numa espécie de limbo acusatório, sem a consistência de confirmações oficiais, ao menos até que a Procuradoria-Geral da República rompa o véu do silêncio e, após a análise das delações, decida o que fazer com os citados.