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Só há uma certeza: vai piorar

Roberto Lameirinhas
Yazar
Roberto Lameirinhas

Por Roberto Lameirinhas

Nada tem sido muito claro no cenário político nacional dos últimos anos, mas a fumaça negra que a delação premiada do ex-vice-presidente de Relações Institucionais da Odebrecht Cláudio Melo Filho lança sobre o futuro de Brasília tem densidade e espessura sem precedente.  Entre os apelidos jocosos e os detalhes assombrosos das relações entre interesses públicos e privados, as revelações dos últimos dias não comprometem só os atuais ocupantes do Planalto, dos edifícios da Esplanada dos Ministérios e das sedes legislativas, mas principalmente embaralham as cartas para a disputa de 2018.

Só há uma certeza: vai piorar

O que mais aterroriza, porém, é que se trata apenas da primeira das 77 delações que executivos da empreiteira devem fazer nos próximos meses aos investigadores da Operação Lava-Jato. Havia meses, assessores, jornalistas e lobistas já especulavam sobre os nomes que surgiriam em meio às delações. 

A presença de Michel Temer entre os supostos beneficiários de subornos pagos pela Odebrecht já vinha sendo mencionada desde os primeiros meses de 2016. O que não se esperava era que a delação viesse por meio de um relato tão minucioso, com o qual Melo Filho descreve, por exemplo, o jantar no Palácio do Jaburu, de 2014, durante o qual foi persuadido pelo então vice-presidente a doar R$ 10 milhões para candidatos do PMDB, do qual Temer era o líder máximo.

O presidente Temer, por meio da assessoria, nega irregularidade e diz que todas as doações estão incluídas nas prestações de conta das respectivas campanhas do PMDB. Mas a questão centrar não é essa - ao menos na visão da Odebrecht e de boa parte da cidadania. 

Declarada ou não, doação de empresa privada a agente público implica contrapartida relacionada a negócios com o poder público. Difícil acreditar que empreiteiras desse porte efetivem doações eleitorais motivadas pelo fervor ideológico - levando-se em conta que o PMDB ou qualquer outro grande partido que atue no Brasil tenha algum. 

Só há uma certeza: vai piorar

Quase ao mesmo tempo em que as delações de Melo Filho vêm à tona, se reforçam os indícios de que outros possíveis candidatos ao Planalto em 2018 estão para engrossar significativamente a lista de envolvidos em doações suspeitas. Pela primeira vez a sombra da ilegalidade ameaça o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, cujo caixa de campanha também teria sido irrigado pela construtora, de acordo com reportagem da Folha de S. Paulo. Alckmin é - ao lado de Aécio Neves e José Serra, ambos também acusados de receber propina - um dos principais nomes do PSDB para a eleição presidencial de 2018.

Com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva convertido em réu em pelo menos quatro investigações de corrupção, praticamente exclui-se da campanha quase todos os nomes mais cotados para o Planalto. Como consequência natural, fica aberto o caminho para aventureiros que sejam identificados com o discurso da negação da política tradicional - uma tendência que se verificou nas eleições municipais de 2016.

O drama político nacional, contudo, pode ganhar proporções ainda mais catastróficas nas próximas semanas, com a homologação da delação premiada do herdeiro da construtora, Marcelo Odebrecht. Há um certo clichê estabelecido nos últimos meses na grande mídia, segundo o qual a expectativa de uma delação de Marcelo Odebrecht estava causando o desabastecimento de calmantes nas drogarias de Brasília. O problema, para quem vive no Brasil, é que essa imagem está longe de ser exagerada.