POLÍTICA

Tá. Tá legal, então...

Roberto Lameirinhas
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Roberto Lameirinhas
Tá. Tá legal, então...

E a gente vai levando a vida enquanto a vida leva a gente. Tanto, por tanto tempo e com tamanha força que vamos nos tornando meio cínicos quando não completamente apáticos. A gente se acostuma. Vai se habituando mesmo aos maiores absurdos, às grandes atrocidades, à tragédia contínua e persistente. Relatam testemunhas que, em plena 2.ª Guerra, nos intervalos dos bombardeios de Dresden, carteiros colocavam a correspondência diante das ruínas dos edifícios atingidos. Cumpriam sua rotina, só isso.

 Há alguns anos no Brasil temos vivido experiência parecida em relação à política que nos atinge, essa nossa Dresden diária e permanente. Mesmo tendo consciência do absurdo que isso representa, nosso senso prático acaba adotando como normal, por exemplo, o fato de o presidente de um tribunal de alta instância atuar na verdade como advogado de defesa do réu - como ocorreu no teatro do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), no julgamento presidido por Gilmar Mendes sobre a possível cassação da chapa Dilma-Temer.

  Note-se: em qualquer julgamento qualquer decisão deve ser considerada normal. O que talvez (como disse, às vezes a gente é cínico) soe estranho tecnicamente é a atuação do magistrado na defesa do réu. Mas, para quem tem familiaridade com os nomes envolvidos, nada do que se passou no tribunal surpreende. Para quem não tem, pouco importa.

 Nos acostumamos com a desfaçatez das justificativas esfarrapadas dos agentes públicos. com o “não me recordo”, “não conheço”, “nunca fui lá”, “nem sabia que ele tinha avião” de cada dia. O suco gástrico corrói um pouco nosso estômago no começo, mas depois a gente se ajeita. Temos mais o que fazer.