VIAGEM

Tensão no deserto de Bin Laden

Roberto Lameirinhas
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Roberto Lameirinhas
Tensão no deserto de Bin Laden

Por Roberto Lameirinhas

Tinha sido uma viagem cansativa para chegar a Islamabad, a capital do Paquistão, e ainda havia um longo caminho até a fronteira com o Afeganistão, onde os EUA tinham iniciado, na véspera, a ofensiva de retaliação aos ataques de 11 de setembro de 2001, que ocorrera havia menos de um mês. Era o começo de uma cobertura que se estenderia pelos 40 dias seguintes e a única certeza que eu tinha era que precisava me aproximar da fronteira afegã no menor tempo possível.

 Por um preço altíssimo consegui uma passagem aérea de Islamabad para Quetta, cidade a cerca de 130 quilômetros da afegã Spin Boldak. O trajeto até Chaman, localidade fronteiriça ainda do lado paquistanês, seria feito de carro. A negociação do transporte foi intermediada por um fixer - um misto de guia e intérprete - que tinha sido recomendado por um colega.

  Um sedan Toyota esperava por mim e pelo fixer no aeroporto. Viajaríamos até Chaman por cerca de duas horas e passaríamos a noite na residência de xeque pashtun - a etnia majoritária tanto no Paquistão quanto no Afeganistão -, que negociaria com seus conhecidos da milícia Taleban minha entrada em território afegão na manhã do dia seguinte. Com a iminência do início dos ataques, consequência da recusa taleban a entregar seu hóspede Osama Bin Laden, quase todas as embaixadas afegãs pelo mundo tinham sido fechadas e eu não tinha um visto para entrar no país legalmente.

 Além do motorista, viajavam conosco um segurança armado e um empregado do xeque, todos conhecidos do meu fixer. Mal o Toyota começou a percorrer a estrada que atravessa o Deserto do Baluquistão, um dos passageiros acendeu um cigarro. Eu tinha parado de fumar cerca de quatro anos antes, mas tolerava sem maior incômodo a fumaça de tabaco. A questão, porém, era que o cheiro não era exatamente de tabaco.

 O baseado de haxixe passava por diversas mãos dentro do carro, incluindo as do motorista, enquanto minha tensão se elevava visivelmente, ao ponto de o fixer perceber e me tranquilizar, argumentando que aquilo era “normal”. Pela minha cabeça, no entanto, passava o roteiro do filme “O Expresso da Meia-Noite”, no qual um turista americano passa o diabo numa prisão turca.

 Eu era o único estrangeiro num carro fedendo a haxixe, num país onde até uma lata de cerveja é proibida, atravessando uma área próxima de um conflito internacional e levando alguns milhares de dólares em espécie e outros tantos em equipamento de comunicação. Bastava que uma autoridade qualquer nos parasse para que aqueles locais desconhecidos me entregassem como traficante de drogas ou espião ocidental - ou as duas coisas juntas.

 Eu ainda estava paralisado pelo medo quando o Toyota passou pelo grande portão da casa do xeque em Chaman. Além de mim, ele hospedava também uma equipe de TV alemã e um repórter americano, para quem contei a história da viagem.

 No meio da conversa, meu colega americano me ofereceu um Marlboro, sem saber de minha condição de ex-fumante. Pensei que depois de toda aquela tensão, um único cigarro não me faria retomar o antigo vício e aceitei a oferta. No dia seguinte, pouco antes de partir para a travessia da fronteira, atrasei o deslocamento de todo o grupo e pedi ao fixer que parasse no mercado para poder comprar dois pacotes de cigarros. Só conseguiria parar de fumar outra vez mais de dez anos depois.