POLÍTICA

Uma nova mudança, em breve

Roberto Lameirinhas
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Roberto Lameirinhas

Trump tropeça no FBI e na comunidade de inteligência, pilares da segurança dos EUA, e alimenta dúvidas sobre sua capacidade de exercer o poder

Uma nova mudança, em breve

É muito cedo ainda para que se sentencie que o governo de Donald Trump esteja destinado à interrupção precoce, como foi o de Richard Nixon e quase foi o do segundo mandato de Bill Clinton. Mas o certo é que não há notícia de algum presidente da história dos EUA que tenha atravessado tantos períodos de turbulência criados por ele mesmo como o atual ocupante da Casa Branca.

 Depois de desafiar e ser derrotado pelo sistema de Justiça no caso da tentativa de proibir a entrada de estrangeiros de países muçulmanos nos EUA e do desgaste na tentativa frustrada de aprovar no Legislativo o projeto de construção de um muro na fronteira com o México, Trump tropeça agora em dois pilares da estrutura de defesa do país: o FBI e a comunidade de inteligência.

 Recapitulando rapidamente: Trump pediu ao diretor do FBI, James Comey, que abandonasse uma investigação sobre o conselheiro de Segurança Nacional, Michael Flynn, acusado de manter laços indevidos com funcionários russos. Com a negativa de Comey, Trump o demitiu. Toda a sequência de fatos poderia levar o presidente à acusação de obstrução da Justiça. Mas ela não parou por aí. Dias depois da demissão de Comey, o presidente recebeu no Salão Oval o chanceler russo, Sergei Lavrov, e, segundo relatos, revelou a ele segredos de inteligência que põem em risco fontes de aliados dos EUA infiltrados em redutos do Estado Islâmico. De acordo com jornais americanos, esses segredos teriam sido repassados por Israel.

 Importante ressaltar que, segundo a lei americana, não há crime na revelação desses dados, uma vez que cabe exatamente ao presidente determinar qual informação de espionagem deve ou não ser mantida sob sigilo. Mas o efeito prático é a perda da confiança dos aliados - o que pode pôr em risco a segurança do país. A reação tanto da oposição democrata quanto de setores do Partido Republicano foi tão forte que a hipótese de impeachment passou de conversas de bastidores para as páginas de editoriais dos jornais.

 “Estamos falando de pessoas que se autodefinem como leais a ele, que o apoiaram em sua campanha e trabalham com ele todos os dias que consideram o presidente como um homem de um vazio intelectual comparável a uma criança, um caso sem esperança, uma ameaça à segurança nacional”, escreveu o colunista conservador do “New York Times” Ross Douthat. Segundo o articulista, ainda que não seja possível acusá-lo de delitos que resultem no impeachment, uma solução apropriada seria removê-lo da Casa Branca pela invocação da 25.ª Emenda - que permite ao gabinete de um presidente declará-lo incapaz de exercer o poder e arcar com as responsabilidades de seu cargo. “Eu gosto de crianças, como gosto de meus filhos”, complementa Douthat. “Mas eles não têm em seu poder os códigos nucleares.”

 (O título deste texto é um verso da canção “Velha roupa colorida”, de Belchior, cantor e compositor que morreu em 30 de abril)