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Big Bang abriu mão da virgindade de Sheldon, mas ganhou necessário fôlego extra

Sheila Vieira
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Sheila Vieira

Nem venha reclamar de spoilers, faz quase três semanas! Se você ainda não assistiu, provavelmente não se importa e não iria assistir mesmo.

Big Bang abriu mão da virgindade de Sheldon, mas ganhou necessário fôlego extra

“The Big Bang Theory” continua sendo o programa mais assistido e seguro para os telespectadores norte-americanos, mas viu seus números de audiência e indicações a prêmios diminuírem consideravelmente nos últimos anos. Não sabemos se esta foi a motivação, mas os criadores decidiram jogar a última grande carta que tinham na manga em dezembro: tiraram a virgindade de Sheldon.

Os fãs mais tradicionais (geralmente rapazes que acham mulheres não-gostosas e relacionamentos coisas horríveis) rejeitaram a ideia assim que os produtores revelaram o fato (um mês antes de o episódio ir ao ar), mas o resultado para o programa foi excelente: quase 25 milhões de americanos assistiram ao episódio, 17 milhões ao vivo e o resto nos sistemas on-demand e de gravações. É a maior audiência de um seriado da temporada até agora.

O episódio, chamado “The Opening Night Excitation”, é um dos melhores e mais maduros dos 194 que a série já produziu. A ideia de conectar a primeira vez de Sheldon e Amy com a estreia do novo Star Wars funcionou perfeitamente. Fez o físico enfrentar um dilema acreditável: assistir ao filme no primeiro dia ou passar o aniversário com a namorada, poucos dias após a retomada do relacionamento.

Na posição dele, imaginando que fosse um novo filme de Harry Potter, eu teria escolhido o filme. Deve ser por isso que estou solteira.

A premissa do episódio também permitiu que a lenda da TV americana Bob Newhart retornasse como o “Obi-Wan Kenobi imaginário”, que dá conselhos a Sheldon, e deu algo relevante para os outros personagens fazerem. Os episódios anteriores da temporada se concentraram excessivamente na tensão entre o nerd e Amy, e deixaram os amigos deles mais como figurantes do que como coadjuvantes.

Depois que Sheldon decidiu abrir mão da estreia de Star Wars e dar “seus genitais de presente de aniversário” (Jim Parsons vendeu muito bem esta piada), ele está totalmente comprometido com sua decisão. Suas inseguranças são apenas sobre sua performance na cama. E este também foi um grande acerto dos roteiristas.

Fazê-lo se arrepender na última hora seria o programa pisando em Amy pela bilionésima vez (são as piores piadas de Big Bang, na minha opinião) e tornaria inútil todo o ‘arco’ da separação e reunião do casal, que demorou intermináveis 10 episódios. Assim como Sheldon, o programa pensou muito antes de dar este passo e não havia motivo para voltar atrás.

Outra bela e adequada surpresa foi Amy hesitar na hora H, ao invés de Sheldon. Retratada como uma mulher desesperada por romantismo e frustrada por não conseguir isso de seu namorado imaturo (zzzzzzz para esse clichê, inclusive), a neurobióloga confessou que estava com medo e não sabia o que fazer. E então temos a mais bela fala já dita no programa:

Snif. Este é meu lado menininha.

Em seguida, temos uma ótima piada com Howard, Raj e Leonard dizendo no cinema as mesmas frases de Amy, admitindo o medo por não terem suas expectativas atendidas com o novo Star Wars. Porém, esta cena também pode ser vista como uma maneira de os produtores expressarem o que eles pensam sobre o grande momento de Sheldon. Wil Wheaton diz aos rapazes que, o filme sendo bom ou não, a vida deles não mudará no dia seguinte. Traduzindo: “fiquem calmos, puristas do Sheldon! Ele e o programa continuarão os mesmos”.

Reencontramos Sheldon e Amy duas horas depois (!!!) deitados sem roupas e de mãos dadas. Ele diz que foi melhor do que ele esperava e que não vê a hora do próximo aniversário dela para eles fazerem isso de novo. Novamente, é uma maneira de tranquilizar quem ficou de luto pela suposta assexualidade de Sheldon, garantindo que ele não virará um tarado da noite para o dia.

Sitcoms têm um formato que não exige arcos de histórias complexos, personagens multifacetados ou até continuidade às vezes. Eles precisam apenas entregar familiaridade. Por isso, momentos como este são mais difíceis de serem acertados, pois precisam balancear as motivações das pessoas com piadas leves e frases tocantes nos momentos adequados. Pelo menos neste episódio, Big Bang não poderia ter feito um trabalho melhor. E, ainda por cima, pode ter reconquistado alguns fãs que já haviam abandonado o barco.