CIDADES

É possível admirar e não gostar do Carnaval ao mesmo tempo

Sheila Vieira
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Sheila Vieira

"Tinha que ser paulixxxta!"

É possível admirar e não gostar do Carnaval ao mesmo tempo

Como jornalista, muitas vezes você encara um conflito interno entre o que você sabe que é certo e o que você sente. Isso aparece nos assuntos que você aborda, qual ângulo você escolhe, qual verbo vai para o título. Acho que venho conseguindo, na medida do possível, saber até onde vai meu gosto pessoal e onde começam os consensos e fatos.

Por exemplo: eu acho o Carnaval um negócio fantástico. Os desfiles das escolas de samba do Rio, que movimentam as comunidades e promovem o samba, os trios elétricos de Salvador tocando axé (meu ritmo ‘brasileiro’ preferido), os blocos de rua em Olinda etc. O Brasil tem que se orgulhar muito de ter uma festa tradicional tão forte e rica.

Mas eu confesso que fico um pouco aliviada quando preciso trabalhar durante o Carnaval (já aconteceu algumas vezes). Há coisas que me irritam um pouco e são extremamente pessoais. Primeiramente, nas cidades tipicamente carnavalescas, você quase só encontra paulistas. Nós invadimos o Brasil por alguns dias. A gente se reconhece em nossa caretice. E vemos a cara de preguiça de cariocas, baianos, pernambucanos e outros para o nosso esforço de ‘pertencer’ à festa deles.

O segundo motivo é extremamente egoísta e um pouco vergonhoso. Por ser uma festa essencialmente de rua (e tem que ser, apesar de camarotes, abadás e afins), o Carnaval envolve muito sol na cara, suor e AGLOMERAÇÕES.

Eu odeio aglomerações. Deve ser trauma de pegar metrô na Sé.

Além de ficar com pressão baixa, minha coluna começa a doer loucamente quando eu fico mais de meia hora em pé (talveeeez porque eu tenho três tipos de desvio na coluna) e eu sou uma pessoa muito fresca com banheiro. Aos 26 anos, ainda não tive coragem de usar um banheiro químico. Ou pago para alguém que mora no local deixar eu usar a privada (método que botei em prática no JUCA 2009) ou seguro por horas até voltar para minha hospedagem (o que faz mal para a bexiga).

Terceiro: eu não bebo muito. Na verdade, eu só comecei a beber um pouco depois da universidade. Não sei o motivo, talvez porque eu tenha medo de perder o controle do que eu estou falando e fazendo. Em festas de rua, quase todo mundo está completamente louco. E não tem problema, cada um tem o direito de beber o que quiser. Mas, quando você é uma das poucas pessoas sóbrias no local, gente bêbada é algo especialmente irritante.

Principalmente homens. Os que puxam braço. Falam merda na sua orelha. Te xingam quando você não responde. Fazem você se sentir vulnerável e insegura.

Mas, olha, você que ama pular Carnaval. Não estou *chovendo no seu desfile*. Que bom que você é alguém desprovido de frescuras. Eu gostaria de ser assim às vezes. 

#carnaval