MULHERES

Nada de abafar o caso! Ex-escravas sexuais coreanas rejeitam acordo com o Japão

Sheila Vieira
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Sheila Vieira

Um acordo de "perdão" que não ouve as vítimas. Faz sentido.

A História que aprendemos na escola sempre ignorou de certa forma a perspectiva feminina dos grandes acontecimentos. Onde elas estavam? O que faziam? O que não podiam fazer? Como eram exploradas? Quando elas não têm voz, suas vivências não são registradas e recontadas para as gerações seguintes. Por isso, devemos escutá-las.

E isso foi exatamente o que os governos da Coreia do Sul e do Japão não fizeram com o caso das senhoras sul-coreanas, atualmente na faixa dos 89 anos, que foram forçadas a fazer sexo (um eufemismo muito usado para estupro) com soldados japoneses durante a Segunda Guerra Mundial. 

Segundo o Guardian, 238 sul-coreanas foram oficialmente reconhecidas como vítimas dos militares japoneses (ou seja, imagine o número real) e 49 delas ainda estão vivas. As mais engajadas na busca por uma indenização são Lee Ok-sun (88) e Kang Il-chul (87), que estão em Tóquio e rejeitaram o acordo feito entre os governos dos dois países asiáticos. 

Shinzo Abe, primeiro-ministro do Japão, ofereceu desculpas públicas "para todas as mulheres que passaram por experiências imensuráveis e dolorosas e sofreram danos físicos e psicológicos incalculáveis como acompanhantes".

Em inglês, a expressão é "comfort women". Mulheres para o conforto. Pois é.

O chefe de Estado japonês também decidiu *doar* (que gentileza!) 1 bilhão de yens (cerca de R$ 34 milhões hoje, já que o real está imprevisível) a um fundo de sobreviventes, com a garantia de que o Japão não fosse legalmente responsabilizado pelas ações de seu comando militar na época. O governo sul-coreano aceitou.

Ou seja, um cala-a-boca. Que as vítimas não aceitaram.

"Este acordo nos fez parecer idiotas. Foi discutido sem nos consultarem. Como eles poderiam ter feito este acordo nos colocando de lado? Estou furiosa", disse Kang. Elas querem um encontro cara a cara com Abe e uma indenização oficial, que não seja chamada de doação. "É como se o governo japonês estivesse esperando que a gente pare de falar e morra", completou Lee.

Essa é uma lição difícil para toda mulher, especialmente as que sofreram qualquer tipo de abuso: falar. Não aceitar que é comum, não admitir que aceitem desculpas em seu nome. Nenhum dinheiro poderá compensar o que elas sofreram, mas a cobertura da mídia do assunto pode pelo menos nos deixar mais alertas para um lado muito importante e ainda pouco explorado: estupro é arma de guerra. Destrói vidas, famílias e consequentemente os núcleos sociais de uma região, quando praticado em massa. E enquanto houver silêncio sobre isso, continuaremos repetindo os mesmos erros.

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