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Defender um estilo de vestimenta ‘modesto’ é slut-shaming?

Sheila Vieira
há 2 anos2 visualizações

A definição (via Wikipedia), caso você não saiba:

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“Slut shaming (ou slut-shaming) é definido como o ato de induzir uma mulher se sentir culpada ou inferior devido a prática de certos comportamentos sexuais que desviam de expectativas ditas tradicionais de seu gênero. Estes comportamentos incluem, dependendo da cultura, ter um grande número de parceiros sexuais, ter relações sexuais fora do casamento, ter relações sexuais casuais, agir ou se vestir de uma maneira que é considerada excessivamente sexual.” 

De onde surgiu esta pergunta? De um artigo que a atriz Mayim Bialik (a Amy, de Big Bang Theory) escreveu se defendendo da acusação de fazer slut-shaming. Ok, está confuso, vou explicar melhor. Bialik é judia, bem religiosa e tradicional e tem algumas regras quando se prepara para eventos de premiações. Aqui está a minha tradução da explicação dela:

“Não uso vestidos sem alças, prefiro cobrir meus braços e não uso minissaias. É minha escolha. Também não acredito em decotes ‘artificiais’ (usar suportes elaborados para fazer meus seios parecem que fazem coisas não-naturais, como ficarem levantados em um vestido em que seios não ficam levantados): o que eles fizerem naturalmente em um vestido será o que vão fazer. Essas são minhas regras para conforto e que acho que me trazem mais dignidade e conforto no tapete vermelho”.

Eu acredito 100% em mulheres fazendo suas próprias escolhas, quaisquer que elas sejam. O problema é que, muitas vezes, a gente se engana justificando um comportamento como ‘escolha’, sendo que ele tem uma carga de expectativas (muitas vezes machistas) por trás. Vejam o próximo trecho do texto dela que eu vou destacar:

“Não acredito que você deve mostrar muita pele para ser aceita como ‘pronta para o tapete vermelho’. Tenho muitos problemas com a minha imagem corporal. Sempre critico muito minha aparência e – como várias mulheres – constantemente me comparo com o que a mídia nos diz que é atraente: geralmente mulheres muito magrinhas que não têm curvas, um tipo de corpo que a maioria das mulheres – especialmente as que tiveram filhos – não têm e nunca terão”.

Ela sabe que, se vestisse algo mais ‘revelador’ com um corpo não-Victoria-Secret, muita gente faria comentários maldosos. Como dizer que isso também não influencia a escolha dela?

Sobre a acusação de slut-shaming, Bialik alega que suas escolhas pessoais não significam que ela automaticamente condene quem prefira outro estilo: “Se eu escolho me vestir de uma certa maneira, não significa que eu acho que quem não se veste como eu são ‘putas’. Mulheres devem poder vestir saias, ou qualquer coisa que queiram, sem serem julgadas como erradas por isso”.

Até aí, eu estava acompanhando. A parte que me deixou um pouco confusa foi a final, na qual ela defende que roupas mais curtas não deveriam despertar mais assédio nas ruas, mas... acabam despertando:

“Os assobios dos homens deveriam determinar minha roupa? Claro que não. A ameaça de abuso deveria mudar meu comportamento? Claro que não? Mas muda. Porque como mulher, eu não me sinto segura sempre. Como mulher, eu nem sempre estou segura”.

Claro, nós nos sentimos inseguras na rua a todo momento. Porém, o tipo de roupa que você usa realmente faz diferença? Se fizesse, acho que quase todas as mulheres sairiam de moletom só para evitar esse tipo de coisa, não é? E finalmente:

“Eu encontro muita força em não deixar meu corpo falar antes do meu cérebro, porque eu vejo o que acontece com a maioria dos homens – e algumas mulheres – quando eu uso um vestido mais curto. É da natureza humana se atrair por pele. Eu só sou uma pessoa mais feliz por colocar barreiras ao redor disso”.

Novamente, uma mulher que se veste mais coberta é sempre vista como mais inteligente pelos outros?

Você provavelmente vai ter que se provar da mesma maneira. Se você é uma mulher que geralmente veste roupas que cobrem mais e um dia aparece com um vestido decotado e "curto", as pessoas vão notar pela diferença. Assim como o inverso. O tipo de objetificação que você vai sofrer pode até ser diferente, mas também existirá.

E o problema é que, quanto mais você tenta se distanciar propositalmente do estereótipo da "menina vaidosa e fútil", mais você o reforça! E isso não é bom para nenhuma das manas, com ou sem decote. Não chega a ser slut-shaming, mas ainda é uma maneira muito binária (não achei palavra melhor) de enxergar a aparência feminina. 

Se quiser ler o artigo dela completo, aqui está: 

A beleza da alma

Pilar Magnavita
há 2 anos3 visualizações

Em um belo dia comum e normal, você está andando na rua a caminho do mercado e, de repente, sente um líquido cair em cima de você. Tudo é tão rápido que não há tempo de entender o que está acontecendo. Em segundos, após entender que alguém derrubou isso (por engano, certamente), você começa a sentir um frio intenso. E o olhar colérico de um homem que segura um recipiente a poucos passos de você. Ele assiste o espetáculo que você está prestes a dar. A pele começa começa a arder insanamente e surge a sensação de fogo. Você está em chamas, sufocado e desesperado. Não faz ideia de que o pesadelo está apenas começando para uma vítima de ataque de ácido. Por fim, você derreteu.

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Homens e mulheres sofrem com esse crime hediondo. São de países asiáticos, Reino Unido (pasmem!), Quênia, África do Sul, Etiópia e outros países africanos. O motivo dos ataques aos homens são motivados por disputa de gangues e, às mulheres, são crimes pelo gênero. Índia e Bangladesh, que possuem um abismo de desigualdade social entre moças e rapazes, têm uma proporção de vítimas mulheres muito maior. Na verdade, são cerca de 60%, de acordo com a Acid Survivors Trust International, sediada em Londres. Estimam que cerca de mil mulheres sofram com essa brutalidade inominável a cada ano, porque não há lei que determine punição aos agressores por esse crime.

Por causa disso, Viva N Diva, uma grife de moda na Índia, fechou contrato com a sobrevivente de um ataque com ácido e ativista Laxmi Saa, para ser o rosto da campanha da nova coleção da marca.

A beleza da alma

A ideia da marca era a mesma de Dove: de que a beleza está além dos atributos físicos. Rupesh Jhawar, um dos fundadores da grife, concebeu a ideia depois de um encontro com Laxmi, em que folheou um calendário com mulheres vítimas de ataque de ácido.

A história de Laxmi é a mesma de todas as guerreiras. Ela tinha 15 anos quando um homem de 32 anos se aproximou dela e jogou ácido sulfúrico no rosto da jovem, porque ela tinha rejeitado a proposta de casamento dele.

A beleza da alma

De fato, Laxmi é uma dessas estrelas que nascem na terra e brilham acima de qualquer intempérie. Ela juntou 27 mil assinaturas e fez o governo indiano reavaliar as normas para o comércio de ácidos e acabou fundando a Chhanv Foundation, ONG que auxilia as vítimas e pressiona a sociedade por mudanças na mentalidade em relação às mulheres. Sua luta pelas vítimas rendeu, em 2014, o prêmio International Women of Courage, entregue pela própria Michelle Obama.

A beleza da alma

Em reportagem da BBC, Jahwar explicou que a primeira visão de Laxmi de perto foi perturbadora e inspiradora, porque o mundo dele na moda era imerso em modelos de corpos perfeitos e pele de cetim. Ele conta ter visto a beleza de uma forma muito diferente, pelo espírito de Laxmi, e buscou capturar esse sentimento sem submeter a imagem da jovem à um esteriótipo de "coitadinha".

Já a modelo disse à BBC que é uma oportunidade para mulheres como ela, que possam ser confiantes e terem coragem apesar de sua aparência. Especialmente, ela conta ter aceitado o convite para enviar uma mensagem clara aos criminosos, de que as mulheres não perdem a coragem mesmo depois de ser atacadas com ácido. Em geral, os algozes utilizam ácido nesse tipo de crime de gênero porque foram rejeitados romanticamente e, no capricho da vaidade magoada, fazem questão de que suas eleitas não sejam de mais ninguém.

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