O segundo sexo
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Se você sentiu falta de feminismo no Globo de Ouro, veja este vídeo

Sheila Vieira
há 2 anos2 visualizações
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Ao contrário de 2015, o Globo de Ouro de 2016 não teve muitas mulheres abordando a questão da diferença salarial entre atores e atrizes ou outros assuntos feministas. Mas não se preocupem: quase tudo que você quer está nesta mesa-redonda da Hollywood Reporter, com ícones do cinema: Helen Mirren, Cate Blanchett, Kate Winslet, Charlotte Rampling e Jane Fonda, além da nova geração representada por Carey Mulligan, Brie Larson e Jennifer Lawrence.

Sim, assim como a mesa dos diretores, infelizmente todo mundo é branco. 

Destaco aqui as frases mais relacionadas a questões de gênero, mas assista ao programa todo, que é ótimo!

Sobre bons papéis para mulheres

Brie Larson: “Comecei a atuar quando tinha sete anos e era sempre ‘errada’. Sempre tinha que me transformar em outra coisa. Eu não era um pacote perfeito, eu não era um clichê. Não era bonita o suficiente para ser a popular, nem feia o suficiente para ser a estranha. Não me encaixava”.

Brie Larson: “Precisamos encontrar os papéis que têm essa complicação. Não a mulher que sempre dá conta de tudo, ou a dona de casa dedicada ou a selvagem que fuma e dorme com todo mundo. Dá para ser mais de uma coisa”.

Jane Fonda: “O que eu fiz quando completei 40 anos foi produzir meus próprios filmes, porque ninguém me oferecia mais nada”.

Helen Mirren: “Sempre há papéis masculinos que queria fazer. Fico muito brava porque vejo tantos papéis que digo ‘esse poderia ser uma mulher, esse também’. Vejo na minha carreira grandes atrizes desaparecerem e atores medíocres continuando. Vocês sabem quem são. E toda essa balela de eles não saberem escrever papéis femininos, que não entendem mulheres. Vocês não precisam entender!”

Cate Blanchett: “Eles acham que têm que escrever com uma sensibilidade feminina. Mas o que é sensibilidade feminina?”

Sobre a diferença salarial

Jennifer Lawrence: “Não é só uma questão em Hollywood. Claro, os homens podem interpretar o protagonista sexy por 20 anos mais que a gente”

Brie Larson: “Mas também é porque são homens decidindo essas coisas”

Cate Blanchett: “Isso acontece em todas as indústrias. Estamos mais na visão do público, mas em qual indústria as mulheres ganham o mesmo que os homens?”

Jennifer Lawrence: “Em todos os campos as mulheres recebem em média 21% do que os homens”

Apresentador: “E o que vocês podem fazer para mudar isso?”

Jennifer Lawrence: “Falar sobre isso, fazer as pessoas saberem disso. Foi a única maneira que encontrei”

Sobre mulheres dirigindo filmes

Kate Winslet: “Acho que tem muito a ver com o fato de muitas de nós termos família. O compromisso de um diretor com um filme é de um ano, às vezes mais”

Jennifer Lawrence: “Posso perguntar porque não tenho filhos, mas qual é a diferença para um diretor que tem família?”

Cate Blanchett: “Acho que ainda há uma expectativa de que alguém mantenha a casa em ordem. Olhe qualquer executivo. Mesmo que as horas sejam flexíveis, elas não são baseadas no horário de buscar na escola”

(...)

Kate Winslet: “Mas o que fazemos em relação a isso?”

Jennifer Lawrence: “Há tantos lados disso e ficamos frustradas. Que as mulheres não ganham o suficiente e os republicanos, presidentes e homens dizem que é porque tiramos licença-maternidade. Queria ouvir as mulheres respondendo que ‘sim, porque somos mães’”

Carey Mulligan: “Estamos perpetuando a raça humana por vocês, de nada (risos)”

Jennifer Lawrence: “É que fisicamente você não pode fazer o que seu marido faz, porque você alimenta sua criança”

Jane Fonda: “Mais mulheres precisam estar no comando dos estúdios”

Apresentador: “Mas elas estão! Há três ou quatro mulheres como chefes...”

Jennifer Lawrence: “Acho que mulheres podem ser tão machistas quanto homens. Mulheres podem ser misóginas também”

Helen Mirren: “A economia precisa mudar”

Jennifer Lawrence: “É que como as pessoas teriam confiança em uma diretora, quando diretoras apenas são 3% do todo? Não vão ter confiança e talvez porque também nós não temos confiança em nós mesmas”

Charlotte Rampling: “Realmente é uma escolha. Mulheres fazem muitos trabalhos na vida e não há tempo para todos eles. Nós sabemos que somos as cuidadoras. Homens são muito bons nisso, mas eles 'têm outras coisas para fazer' e sabemos que somos quem vai manter as três refeições por dia. (A diretora) Liliana Cavani queria mais que tudo trabalhar e dirigir e ela fez isso acontecer. Se uma mulher for determinada, porque nós somos, e se tivermos talento, podemos fazer. Mas terá o momento que vamos querer ser mães e cuidar dos nossos bebês”.

Não concordei com tudo (especialmente na parte de que há mulheres machistas, eu não acredito nisso), mas é muito bacana ver mulheres talentosas e poderosas inspirando suas fãs a pensarem mais em assuntos de gênero. 

Os grilhões dos rótulos

Pilar Magnavita
há 2 anos16 visualizações

Sou branca. Sou uma mulher de 33 anos, branca, de cabelos claros, porque quis dar um tempo das minhas madeixas quase negras. Deixo aos psicólogos e sociólogos analisarem este último fato. Vivo com situação bastante confortável em relação aos meus 190 milhões de compatriotas que caçam o leão de cada dia nas classes C, D e E. O único tipo de discriminação que sofri na vida foi por ser mulher e por estar acima do peso. Doeu. Porque entre o ser e estar há uma tênue divisão. Sou mulher. Estou gordinha. Há 10 anos, porém, estou gordinha. Será que passei a ser assim? Mas e quanto "estar" mulher?

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Os grilhões dos rótulos

As pessoas que "nasceram de uma costela" sabem que "mulher", para quase a totalidade das culturas, é um estado e não uma definição existencial. A criatura pode nascer com o sexo dos anjos, mas se não agir, pensar e lutar como homem, ela passa a ser do "segundo sexo" independentemente das partes que tem. Tome por exemplo sua experiência em grandes empresas: as mulheres que ocupam cargos de chefia são delicadas e usam roupas femininas? Vou arriscar aqui a dizer que não usam, não. Para subir no posto, mulheres têm que abafar sua porção mulher. Vestir os tons escuros, retificar as curvas, matar os cabelos em penteados lânguidos escorridos, tomar para si o uniforme de batalha do mundo corporativo: a testosterona.

Os grilhões dos rótulos
Os grilhões dos rótulos

Isso porque queremos vencer com capacidades intelectuais e espirituais e não com o físico. Este foi, ao longo de milênios, nosso único instrumento de poder nas sociedades e todos esses 10 mil anos de história não se apagam de hora para outra. Pois não se engane: sexo é poder em todos os reinos animais do planeta. E por mais que nos mutilem nas sociedades que não evoluíram, a forma feminina continua a exercer poder sobre o gênero masculino. Isso não foi ruim no passado. Pelo fato de os homens terem se dado melhor no mano-a-mano com mamutes e dentes de sabre, as mulheres tiveram que buscar quem pudesse protegê-las no momento que estivessem frágeis, com bebê no colo. Mas agora que ninguém precisa lutar fisicamente pela sobrevivência (ao menos não na nossa sociedade) a gente precisa continuar assim?

Tome por outro exemplo as heroínas de blockbusters. Rey, de Star Wars. Pode ser? Ela é porreta! Sensacional. Possui uma força, uma garra e determinação que saltam aos olhos. E é uma mulher. É mulher? Porque na linguagem cinematográfica é preciso mostrar as personagens com linguagem que o público entenda. Foça, persistência, espírito de luta... tudo isso só consegue se fazer entender no nosso mundo se for apresentado sob aspecto masculino. Corpos XX não possuem a mesma força que os irmãos XY. Não somos seres para desbancar uma turma de valentões. E, no entanto, quem disse que não somos imbuídas de incomensurável espírito de luta, força e persistência?

A visão obtusa e estreita dos ícones e símbolos de linguagem estão rôtos, obsoletos. Ferdinand Saussure concebeu a dicotomia do signo linguístico tal qual o mundo é: o que não é novo é velho. O que não é bom é ruim. O que é homem é mulher. E, no entanto, dá uma espiada em como tudo isso não se aplica mais? Entre novo e velho há uma infinidade de estados. Entre bom e ruim há inúmeras gradações que mesclam essas duas características. E entre homem e mulher há em cada pessoa porções dos dois gênero, com maior ou menor intensidade. Porque entre o branco e o preto há uma paleta incomensurável de cores, incluindo os tons de cinza.

Estamos no limiar de nova Era em que não se aceita mais rótulos que imponham pessoas a ser e agir conforme o que tem que ser e estar. Aquelas piadinhas (que refletem de verdade um velho pensamento) de que mulheres não foram feitas para um bocado de coisas, tipo "mulher no volante, perigo constante". Aff! Quem pode ainda com isso?

Escravos de símbolos

“Até porque eu não sou preto, né?” (Neymar Santos, 2010).

Nesta entrevista do (talvez único) craque da Seleção Brasileira de futebol, Neymar Santos responde à colunista e grande jornalista do Estadão, Sonia Racy, se ele já havia sofrido racismo no futebol. Porque ele não era "preto". Neymar não estava errado. Raça é um autoconceito, é autodeclaratório. Eu posso achar que meia dúzia de pessoas brancas que conheço são pardas ou morenas, mas se elas assim não pensam então assim não são. Somos aquilo que achamos que somos. É o ponto de partida principal de qualquer e toda identidade.

Como vivemos em sociedade de um baita racismo velado, acreditamos que ser negro, vermelho, amarelo, azul vai depender da situação econômica. Muitas vezes, sim. Mas muitas vezes você pode estar dirigindo um BMW e ainda ser parado pela polícia, como aconteceu com a colega Kamilah Brock, em Nova York, neste ano.

Isso são rótulos. Etiquetas sociais que estampam na gente desde pequenos. Pessoa bem apresentada é branca, loira, de olhos claros. Uma pessoa negra de chinelos não passa a mesma imagem que uma pessoa branca de chinelos. 

Rótulos. Na maioria das vezes os aceitamos sem nem ao menos eles nos representarem.

Mulher que usa rosa é meio burrinha. Mulher que usa roupa curta tá procurando sexo. Negros não são bem apessoados e não servem para atender o público. Sabia que prédios do Leblon não contratam porteiros negros por isso? Conheço duas administrações que só colocam os irmãos de cor na porta da garagem. E isso é AGORA! NESTE século. NESTE tempo. Na verdade, é ali na esquina, amigo! Vai fechar os olhos, amigo?

Sou branca. Sou mulher branca de 33 anos. Eu posso tangirversar sobre racismo, mas não.. não me considero com credenciais suficientes para falar sobre isso.

Sobre esse ícone e o significado de levar esse rótulo, um dos grandes nomes do Boxe, o lutador Muhammad Ali (nascido Cassius Clay) comenta em uma excelente entrevista ao apresentador britânico Michael Parkinson as lutas internas e externas que travou por levar o rótulo "nee-gro" (em ítalico por ser palavra pejorativa na língua inglesa).

Atualmente ouvimos: mas você é o namorado da Jout Jout?

E se o amigo homem branco, louro, de olhos claros pensa que está livre dos tais "rótulos"? Volte na sua infância e lembre de quantas vezes ouviu "homem não chora", "isso é coisa de viado", você é homem, se vire". 

Chega, né?!

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