MULHERES

Quando a ficha caiu: mulheres se unem por experiências, não por características

Sheila Vieira
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Sheila Vieira

Fui obrigada a refletir sobre a tal condição feminina desde muito pequena. Quando eu comecei a perceber que muitos dos meus gostos e costumes não eram os esperados. O álbum de figurinhas que vendia na escola, por exemplo: eu queria o dos meninos, mas como dizer isso para a vendedora sem passar vergonha? Inventei que tinha um irmão. Só gostei de uma boneca que eu tive: ela era grande o suficiente para eu escrever na cara dela.

Quando a ficha caiu: mulheres se unem por experiências, não por características

Na adolescência, as coisas não melhoraram, com a pressão sutil para ser mais vaidosa. “Você tem que se cuidar, Sheila”. Quase sempre a única sem maquiagem, sem vestidos, sem luzes no cabelo, sem brincos, sem esmalte nas unhas. Já na contagem regressiva para os 30, sigo igual. Enquanto eu não sentir uma vontade genuína de mudar, nada muda. E por que eu deveria?

Mas garotas não-vaidosas como eu geralmente passam por uma fase complicada, logo depois da adolescência. A gente encara nosso estilo como uma autoafirmação. “Eu não sou como elas”. Você começa a gritar aos quatro cantos “HEY, EU GOSTO DE FUTEBOL, OK? OLHA SÓ MINHA MOCHILA DO CORINTHIANS” e começa a querer ser a melhor amiga dos meninos. Objetivo de vida: DIFERENTONA.

Alguns anos depois, você percebe (ou deveria perceber) que isso é uma cilada (Bino).

Você pode ser diferente da maioria das garotas que você conhece, mas elas compartilham algo extremamente fundamental com você: experiências. Porque a garotinha que vestia moletom e a que usava um vestido rosa com lacinhos ouviram as mesmas coisas nojentas de caras na rua. Foram seguidas voltando da escola do mesmo jeito. Têm as mesmas histórias doloridas para contar.

“Você parece louca falando assim”, “Calma, não precisa ficar brava”, “Não tinha nada a ver, você imaginou tudo isso”, “Por que você não gritou ou reagiu, sua boba? Se fosse eu, teria feito isso”. Essas frases não veem se o destinatário está usando salto, rímel, All Star ou uma camiseta velha de seriado. São universais, um privilégio (#ironia) de todas as mulheres. Sem esquecer que, para as negras, ainda é preciso lidar com o racismo.

Mas a ficha finalmente caiu: eu precisava aceitar como válidos e importantes os gostos pessoais de todas as garotas, não só os meus. Porque eram escolhas delas e só por isso mereciam respeito. Além disso, compartilhar experiências de coisas que só nós passamos e entendemos tem um poder terapêutico imensurável. Amizade feminina é imprescindível.

Se você ainda vê todas as mulheres ao seu redor como inimigas, tente repensar. Eu ainda me pego caindo em algumas armadilhas. Nós somos tão fortes juntas. TÃO. FUCKING. FORTES. Claro que este é um dia de luta, mas vamos celebrar um pouquinho o momento em que nos libertamos do machismo dentro da gente.

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