TECNOLOGIA

Pare de bloquear as pessoas diferentes de você

Thiago Massari
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Thiago Massari

Estamos em tempos de desfazer amizades. A tecnologia e a alta conectividade possibilitaram que a gente construísse relações com pessoas do outro lado do mundo, mas também nos deram as ferramentas necessárias para superficialidade de todas as nossas outras relações.

Muitas pessoas me questionam como em sendo líder de PR de uma plataforma social, posso ser tão crítico com as novas tecnologias e redes sociais em voga. A resposta é simples: são esses instrumentos quem devem nos servir e não o contrário. Além disso, parte do processo da inovação está em questionar ininterruptamente os sistemas e mecanismos que aí estão.

Pare de bloquear as pessoas diferentes de você

Hoje, estamos a cliques de fazer e desfazer relacionamentos - ou seriam apenas contatos? Fazer é simples e quase imperceptível. Muitas vezes aceita-se alguém que nem sequer sabemos ser em nossa rede de amigos. Desfazer amizades, por outro lado, tem despertado um prazer quase carnal em muita gente. Eu diria que existe toda uma nova classe de pessoas que verdadeiramente encontra sua plena realização em destruir esses frágeis laços que hoje nos unem.

Quem aqui pode dizer que não se sentiu aliviado, orgulhoso e, por que não, feliz, em deixar de ser amigo ou seguidor de alguém nas redes sociais? Quem não teve um momento genuinamente catártico ao descosturar essa fina linha de contato?

A série Black Mirror (Channel 4, 2011) trouxe esses questionamentos e os levou às últimas consequências. Num futuro alternativo, não muito distante, nano chips implantados em nossas retinas e cérebros permitirão que as pessoas efetivamente excluam as outras de sua existência. Com um simples clicar, você poderá bloquear em definitivo quem quer que seja. Uma vez bloqueada, essa pessoa não mais poderá ver ou ouvir você ou qualquer fato relacionado a você — a recíproca é verdadeira.

Pare de bloquear as pessoas diferentes de você

Isso que a mim parece assustador, deve soar deliciosamente profético a muitas pessoas. Vivemos na era da superficialidade em que o curtir — e agora o reagir — é por vezes mais valorizado do que o sentir e o interagir.

As relações descartáveis estão expostas nas prateleiras do nosso mundo virtual. Seja por divergências ideológicas, falta de apego ou por conta de uma relação afetiva mal sucedida, estamos aos poucos nos descartando. Não é preciso mais se esforçar para entender o outro e se fazer entender também. “Sou responsável por aquilo que falo e não pelo que você entende”; essa é a frase que vem sendo compartilhada por aí, cheinha de polegares apontando para cima.

Quando decidimos descartar pessoas, em vez de procurar entendê-las, estamos abrindo mão de elementos imprescindíveis ao convívio social e humano: a empatia e a argumentação. Muitos não investem tempo em tentar explicar e entender o outro. Se você não pensa como eu e temos divergências de visão de mundo, nos excluímos mutuamente. Parece tão mais simples do que convivermos — vivermos juntos.

Estamos aos poucos habitando essas ilhas imaginárias em que todos pensam, sentem e vêem o mundo exatamente como nós. Nossos feeds de notícias, então, magicamente começam a soar sensatos e razoáveis. Começamos a sentir que o mundo — até que enfim — começa a mudar para melhor. Mas é apenas uma miragem. Uma ilusão que criamos para nos auto-satisfazer. Temos visto essas bolhas explodindo na nossa cara o tempo todo. Foi assim com a eleição do Trump, com o nosso cenário político nacional e até com questões sociais como discutir o aborto e a legalização das drogas,

A gente saiu por aí desconstruindo laços e bloqueando relações… Mas as pessoas que excluímos continuam lá. Elas ainda existem, quer a gente aceite isso ou não. Elas ainda pensam igual e provavelmente continuarão assim, pois nenhum de nós se dispôs a mudar isso.

Nas palestras que tenho feito a estudantes de comunicação, falo sobre isso e peço que esses jovens parem de excluir e bloquear pessoas. A comunicação e, portanto as pessoas que escolheram viver dela, estão aqui para gerar diálogos e construir pontes sólidas que conectem pessoas e ideias. Não significa que todos devem pensar igual, mas que todos devem justamente aceitar e respeitar que exista a pluralidade de ideias.

Se nós, os comunicadores por formação e vocação, formos os primeiros a jogar a toalha, qual então será nosso papel no mundo? Evangelizar os convertidos? Me parece absurdamente enfadonho e desnecessário. Nós temos um propósito como pessoas que escolhemos a comunicação e se seguirmos a maré seremos apenas parte do problema. E como diz uma frase que vi outro dia grafitada num muro, “apenas os peixes mortos seguem a corrente”.