POLÍTICA

A caminho do abismo

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A caminho do abismo

Por Roberto Lameirinhas

Caso dê a lógica e o governo não consiga resolver a crise econômica que se aprofunda aceleradamente no País, a estratégia da oposição para a campanha presidencial de 2018 estará bem definida no já no segundo semestre de 2017. A vantagem será dos que se colocarem em favor da reversão de todas as medidas apresentadas hoje pelo Planalto como tábua de salvação para a economia.

Por enquanto, Michel Temer e seus aliados de apelidos exóticos ainda conseguem algum resultado na tentativa de convencer a população de que o corte, na prática, de investimentos em serviços essenciais do Estado por 20 anos vai desaguar na oxigenação do ambiente macroeconômico e, consequentemente, na criação de empregos e ampliação da renda. Na visão de parcela significativa da população, a piora na situação de postos de saúde, hospitais, escolas e universidades públicas - que nunca foi lá grande coisa - é o preço a pagar por anos de governos perdulários e de escoamento de dinheiro público para a corrupção.

A questão é que este é um governo com uma missão: a de desconstruir, em nome de uma discutível liberalização da economia, décadas de regulamentações previdenciárias e trabalhistas. Ao mesmo tempo em que delações premiadas de executivos das grandes empreiteiras continuam a envolver cada vez mais nomes de aliados do Planalto em escândalos de suborno.

A proximidade de Temer com políticos envolvidos até o pescoço com irregularidades e os primeiros esboços de seu projeto de reforma da Previdência já causaram sensível queda no nível de aprovação do presidente. Segundo o Datafolha, sua rejeição chega a 49% dos entrevistados, superando numericamente até mesmo a do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, bombardeado há pelo menos dois anos por baterias de acusações em manchetes de jornais, revistas e noticiários de rádio e TV. O Ibope tem mostrado números parecidos em suas últimas sondagens.

A caminho do abismo

Não é surpreendente. Há uma diferença substancial entre propor à sociedade a redução de já precários serviços de educação e saúde - em nome da recomposição econômica - e convencê-la a aceitar o fato de que seus planos de aposentadoria terão de ser revistos. Ou de que direitos como o de férias de 30 dias, fundo de garantia ou remuneração mínima terão de ser suprimidos para estimular investimentos na geração de empregos.

Uma coisa é análise fria e ponderada da relação entre empregados e empresas, contribuintes e Estado, aposentados e governo. Outra é a identificação de quem vai pagar a conta.

Não é difícil prever que as reformas previdenciária e trabalhistas sofrerão mais resistência do que a proposta que estabeleceu o teto de gastos. E é alta a probabilidade de que, ainda que não seja derrubado, o governo se afunde cada vez mais nas investigações da Lava-Jato. Enfim, dificilmente haverá um quadro de estabilidade capaz de convencer os agentes econômicos a retomar investimentos.

A percepção, inevitavelmente, será a de um governo que reduziu drasticamente conquistas sociais em troca de muito pouco, quase nada, de recuperação da economia.

Apesar do capital político obtido com a estabilização pós-Plano Real, Fernando Henrique Cardoso sofreu com um quadro parecido entre 1998 e 2002. O resultado foi a visceral rejeição ao PSDB nas eleições que consagraram Lula presidente.