POLÍTICA

Falha de segurança

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Falha de segurança

Por Roberto Lameirinhas

França, Bélgica, Suíça, Alemanha, Turquia… O terror do Estado Islâmico, filiados e similares parece inapelavelmente espalhado pelo território europeu. Cada ataque espetacular eleva em alguns graus o sofrimento dos muçulmanos e estrangeiros em geral nos países da Europa.

Com o reforço das fronteiras e da vigilância nos EUA desde os atentados do 11 de Setembro, a proximidade geográfica das bases do terror, a marginalização de comunidades árabes e muçulmanas nos países da Europa e a tradição liberal e laica da maior parte da sociedade europeia explicam o fenômeno.

Especialistas indicam ainda que, durante um tempo considerável, as autoridades do continente ignoraram a ameaça, tratando-a como movimentos locais. Mohamed Bouhlel, motorista do caminhão que causou a morte de 84 pessoas em Nice, na França, em 14 de julho, estava no radar das autoridades francesas havia alguns meses. O mesmo pode-se dizer de Anis Amri, que, num atentado parecido, usou um caminhão para matar 12 pessoas na feira de Natal de Berlim, no dia 19. Ambos eram tunisianos e a autoria dos dois ataques foi reivindicada pelo Estado Islâmico.

Abdelhamid Abaaoud, cidadão belga de origem marroquina considerado o cérebro por trás dos ataques de novembro de 2015 em Paris, que deixaram o saldo de mais de 180 mortos, também foi capaz de agir em nome do Estado Islâmico mesmo depois de ser monitorado por meses pelas autoridades de inteligência e segurança da Bélgica.

Reportagem do jornal americano The New York Times apresentou em agosto uma série de documentos segundo os quais as autoridades europeias desprezaram, no início de 2014, os sinais de que o grupo terrorista pretendia concentrar suas ações de terror no continente. Para essas autoridades, as conspirações lideradas pelos jihadistas eram atos aleatórios ou isolados de gangues locais, cujas conexões com o Estado Islâmico foram descartadas ou minimizadas.

Enquanto isso, no subúrbios e redutos árabes de Paris ou Toulouse, na França, ou no distrito de Molenbeek, perto de Bruxelas, células terroristas importantes treinavam seus soldados e candidatos a mártires em redutos controlados pelo Estado Islâmico na Síria e no Iraque - que os terroristas consideram parte integrante do território onde pretendem estabelecer seu califado.

Com base em transcrições de interrogatórios e relatórios de escuta aos quais teve acesso, o NYT exemplifica sua reportagem com o caso de um recrutador do Estado Islâmico que leva um jovem muçulmano radicado na Bélgica à fronteira da Turquia com a Síria e o despacha para sua missão: escolher um alvo adequado, atirar contra o maior número possível de civis e manter reféns até que a polícia chegasse para convertê-lo num mártir. O ataque, que se realizaria em 2014, só não foi desfechado porque o jovem cometeu alguns erros que denunciaram suas intenções. Ele foi detido, mas seu mentor, não. Esse líder era Abdelhamid Abaaoud, o agente belga que selecionou e treinou os jihadistas dos atentados de novembro de 2015 em Paris - que poderiam, então, ter sido evitados.