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A esfiha e a miséria

Por Roberto Lameirinhas

A esfiha e a miséria
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     Imagem de câmera de segurança

Uma tragédia abalou o domingo de carnaval. Se não uma tragédia nacional, daquelas às quais já quase nos acostumamos nos últimos tempos, ao menos um retrato fiel da nova sociedade do País. João Victor tinha 13 anos e costumava importunar clientes na entrada de um restaurante da rede de fast food Habib’s, na Vila Nova Cachoeirinha, em São Paulo, pedindo a eles que lhes dessem uma moeda ou lhes pagassem uma esfiha. Testemunhas viram funcionários do restaurante agredindo e arrastando João Victor. Minutos depois ele estava morto.

 O caso de João Victor me traz lembranças muito particulares. O local onde ele morreu fica a menos de cem metros de onde meu pai, quase 50 anos atrás, tinha aberto uma oficina de tapeçaria de automóveis que rendia a ele os caraminguás que separavam a história da minha família da realidade daquele entorno - então ainda mais carente.

 O Habib’s fica onde se localizava a antiga várzea do Córrego Cabuçu de Baixo, no final da Avenida Itaberaba, onde inundações frequentemente arrasavam barracos da favela que se instalara ali. Não havia o Terminal Cachoeirinha, para onde convergem hoje moradores do Jardim Rincão, Jardim Princesa, Guarani, Vila Rica, Vila Penteado, Parada de Taipas, Perus, etc. Mas essas concentrações já existiam, na época, como bolsões de miséria e aglomerações urbanas entrecortadas por vielas, sem nenhuma estrutura.

 Cresci jogando futebol em campinhos lamacentos que rodeavam a oficina do Seu Joaquim. Dezenas de Joões Victors frequentavam o local - apareciam pedindo sucata para vender no ferro-velho, uma moeda, um pãozinho. Seus pais, tios, irmãos eram presença constante nos churrasquinhos e reuniões de confraternização que meu pai promovia às vezes. E foi Seu Joaquim que ensinou a mim e a meu irmão que a fome dói, que não se deve menosprezar nenhuma pessoa e a miséria não pode ser subestimada - que ela é resultado de um conjunto de circunstâncias e está sempre à espreita, pronta para vitimar qualquer um.

 Havia dezenas de Joões Victors entre meus colegas de escola - no velho “grupo escolar” Tito Prates. Conheci alguns brilhantes. Outros, acabaram se perdendo nas drogas, no álcool, no crime. A vida fora da redoma dos centros mais urbanizados é assim mesmo. Mas é dessa origem da qual me orgulho e de onde nasceram minha concepção de jornalismo e minha visão de justiça social.  

 O Habib’s se instalou no local depois da canalização do córrego e para explorar a massa de consumidores desse mesmo entorno que nos últimos 15 anos ganhou poder de compra. Mas ainda havia miseráveis lá. Pedintes, flanelinhas, “nóias”, todos os tipos de Joões Victors - repelidos com a costumeira truculência dos saudosos da época em que milícias parapoliciais eram não só toleradas, como também incentivadas. A rede de restaurantes esteve à frente da campanha pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff sob o mote “quero meu País de volta”. Como um grande amigo jornalista lembrou outro dia, queriam o País de volta para isso mesmo.

Os estatutos da suruba

Por Roberto Lameirinhas

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É preciso um grande acordo nacional, com o Supremo, com tudo, pra deixar as coisas bem claras. “Se acabar o foro, é para todo mundo. Suruba é suruba. Aí é todo mundo na suruba, não uma suruba selecionada”, estabelece o senador Romero Jucá (PMDB-RR).

 O digno homem público tem toda a razão. Chega de politicamente correto. A primeira e principal regra da suruba é que suruba não tem regra. Se vale pra um, tem de valer pra todo todo mundo, mais ou menos como acontece com o foro privilegiado.

 E Jucá vai mais longe: jornalista que cobra punição a político corrupto ou que é contrário à manutenção de foro privilegiado a chefes dos poderes do Estado é nazista. “Antes, a turba fazia linchamentos. Hoje quem tenta fazer linchamentos é a imprensa e setores da sociedade.”

 Jucá está indignado com a interpretação maldosa de que conspirou contra a Operação Lava Jato, buscou estratégias para a impunidade dele e de aliados ou que agiu de má-fé para o objetivo de “pôr o Michel” e ajudar a “delimitar tudo onde está”. É um injustiçado que sempre pensou em “estancar a sangria”, mudando os rumos da economia do País.

 “Já mudamos todos os indicadores macroeconômicos do Brasil. Essa era a sangria. Falta mudar os microeconômicos, o desemprego e o endividamento”, disse à “Folha de S. Paulo”, esclarecendo falas anteriores, que sempre podem ser deturpadas pelas “vivandeiras e carpideiras” da imprensa.

 O senador não é homem de se acovardar com as adversidades e seu senso de justiça abomina discriminações. Por isso se indigna tanto com o fato de líderes do Poder Executivo serem protegidos pelo foro privilegiado e os chefes dos demais poderes, não. “Quero dizer aqui com muita tranquilidade aos meus adversários e a quem quer me marcar com uma estrela no peito: eu não vou morrer de véspera, eu não me entrego, eu sei  que eu defendo, eu sei o que eu fiz e sei o que vou fazer”, esclarece.

 E que não passe pela cabeça de ninguém colocar normas na suruba.

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Política, direitos humanos, feminismo, economia, mundo