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A serviço de quem?

Por Roberto Lameirinhas

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Reunião da comissão especial da reforma trabalhista

Ninguém conseguiu entender direito as justificativas do Palácio do Planalto para impedir judicialmente a divulgação da “lista suja” de empresas e pessoas físicas flagradas em operações de combate ao trabalho escravo no Brasil. Aparentemente, nem mesmo o ministro do Tribunal Superior do Trabalho Ives Gandra Martins Filho, que emitiu sentença favorável ao governo na questão. A razão alegada foi “prejuízo à ampla defesa” dos réus, ainda que da lista constasse apenas condenados em última instância, por sentenças das quais já não há como recorrer.

A "lista suja" é considerada pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), organismo das Nações Unidas, como uma medida fundamental na repressão a práticas de escravidão e similares à escravidão. O ministro do Trabalho, Ronaldo Nogueira, empenhou-se pessoalmente no esforço para barrar a divulgação. Por que? Bem, ninguém pediu esse esclarecimento com grande ênfase.

Não é de se estranhar que, no dia seguinte à ação do Planalto para barrar a lista infame, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, tenha voltado suas baterias contra a regulamentação trabalhista. Para Maia, a Consolidação das Leis do Trabalho precisa ser “flexibilizada”, juízes do Trabalho tomam “decisões irresponsáveis” em favor dos trabalhadores e a Justiça do Trabalho nem deveria existir. O mais trágico é que, neste momento de não-pense-em-crise-ponto-trabalhe! não são poucos os trabalhadores que pensam como Nogueira, Gandra ou Maia.

A novilíngua orwelliana que se instalou em Brasília pretende fazer crer que o trabalhador brasileiro é beneficiado por um excesso de privilégios que espolia o pobre empreendedor nacional, que sempre esteve disposto a reduzir seus lucros à margem mínima para poder empregar o maior número possível de cidadãos - esses ingratos que depois vão lhe cobrar judicialmente coisas como salários, horas extras ou descansos semanais, por exemplo. Os defensores desta tese citam exemplos absolutamente assimétricos, de países onde o arcabouço legal de proteção ao trabalhador está consolidado há décadas.

Também não é coincidência que os atuais ocupantes dos poderes de Estado estejam com pressa para aprovar retrocessos sociais como as reformas previdenciária e trabalhista. A janela de oportunidade está se fechando e, ainda que se empenhe em tentar convencer a sociedade de que “virtude é vício”, já não são poucos os que conseguem identificar os reais objetivos dos lobistas que se apoderaram do País.

Há alguns meses, numa viagem ao exterior, um escroque da Confederação Nacional da Indústria defendia num fórum internacional o fim do salário mínimo no Brasil. “A CNI considera o salário mínimo desnecessário”, disse. Alguém retrucou: “A CNI considera desnecessário pagar qualquer salário”. “Exatamente”, concluiu o escroque.

A esfiha e a miséria

Por Roberto Lameirinhas

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     Imagem de câmera de segurança

Uma tragédia abalou o domingo de carnaval. Se não uma tragédia nacional, daquelas às quais já quase nos acostumamos nos últimos tempos, ao menos um retrato fiel da nova sociedade do País. João Victor tinha 13 anos e costumava importunar clientes na entrada de um restaurante da rede de fast food Habib’s, na Vila Nova Cachoeirinha, em São Paulo, pedindo a eles que lhes dessem uma moeda ou lhes pagassem uma esfiha. Testemunhas viram funcionários do restaurante agredindo e arrastando João Victor. Minutos depois ele estava morto.

 O caso de João Victor me traz lembranças muito particulares. O local onde ele morreu fica a menos de cem metros de onde meu pai, quase 50 anos atrás, tinha aberto uma oficina de tapeçaria de automóveis que rendia a ele os caraminguás que separavam a história da minha família da realidade daquele entorno - então ainda mais carente.

 O Habib’s fica onde se localizava a antiga várzea do Córrego Cabuçu de Baixo, no final da Avenida Itaberaba, onde inundações frequentemente arrasavam barracos da favela que se instalara ali. Não havia o Terminal Cachoeirinha, para onde convergem hoje moradores do Jardim Rincão, Jardim Princesa, Guarani, Vila Rica, Vila Penteado, Parada de Taipas, Perus, etc. Mas essas concentrações já existiam, na época, como bolsões de miséria e aglomerações urbanas entrecortadas por vielas, sem nenhuma estrutura.

 Cresci jogando futebol em campinhos lamacentos que rodeavam a oficina do Seu Joaquim. Dezenas de Joões Victors frequentavam o local - apareciam pedindo sucata para vender no ferro-velho, uma moeda, um pãozinho. Seus pais, tios, irmãos eram presença constante nos churrasquinhos e reuniões de confraternização que meu pai promovia às vezes. E foi Seu Joaquim que ensinou a mim e a meu irmão que a fome dói, que não se deve menosprezar nenhuma pessoa e a miséria não pode ser subestimada - que ela é resultado de um conjunto de circunstâncias e está sempre à espreita, pronta para vitimar qualquer um.

 Havia dezenas de Joões Victors entre meus colegas de escola - no velho “grupo escolar” Tito Prates. Conheci alguns brilhantes. Outros, acabaram se perdendo nas drogas, no álcool, no crime. A vida fora da redoma dos centros mais urbanizados é assim mesmo. Mas é dessa origem da qual me orgulho e de onde nasceram minha concepção de jornalismo e minha visão de justiça social.  

 O Habib’s se instalou no local depois da canalização do córrego e para explorar a massa de consumidores desse mesmo entorno que nos últimos 15 anos ganhou poder de compra. Mas ainda havia miseráveis lá. Pedintes, flanelinhas, “nóias”, todos os tipos de Joões Victors - repelidos com a costumeira truculência dos saudosos da época em que milícias parapoliciais eram não só toleradas, como também incentivadas. A rede de restaurantes esteve à frente da campanha pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff sob o mote “quero meu País de volta”. Como um grande amigo jornalista lembrou outro dia, queriam o País de volta para isso mesmo.

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Política, direitos humanos, feminismo, economia, mundo