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As aparências não enganam mais

Por Roberto Lameirinhas

Deputado da bancada ruralista tenta aprovar lei que permite pagamento de trabalhador rural com moradia e alimentação

Por ingenuidade ou excesso de crença na espécie a que pertencem, algumas pessoas - entre as quais me incluo - tendem a acreditar que algumas linhas vermelhas não voltarão a ser ultrapassadas. Por exemplo, há um certo consenso sobre o fato de alguns políticos estão na vida pública para defender mesmo interesses próprios ou dos grupos que representam e há pouca dúvida de que a cara de pau da maior parte deles é capaz de muita coisa, mas o que se acreditava era que eles continuariam se empenhando ao menos em dissimular seus atos.

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As aparências não enganam mais

Ato do Dia do Trablhador no Rio 

No entanto, a frase de um desses célebres representantes do grande poder econômico - “às favas com os escrúpulos” -, de 1969, continua atual. O Congresso discute nestes dias os destaques sobre a reforma trabalhista, vendida pelo atual “governo” como algo “muito favorável” ao trabalhador. O próprio Michel Temer, no dia do Trabalho, dirigiu mensagem aos trabalhadores para tentar convencê-los de que abrir mão de seus direitos vai ajudar a criar mais empregos.

 A tese, defendida por grupos empresariais de diversos setores, é absurdamente frágil. Pois no capítulo sobre o trabalho rural, o projeto do representante da bancada ruralista Nilson Leitão (PSDB-MT) beira o inacreditável.

 Ela permitiria ao empregador rural pagar seus trabalhadores com “remuneração de qualquer espécie”, e não apenas com salário. O lavrador poderia ser pago com “moradia e alimentação”. O texto aumenta para até 12 horas a jornada diária por "motivos de força maior" e faculta ao empregador a substituição do repouso semanal dos funcionários por um contínuo, após até 18 dias de trabalho seguidos. Pelo projeto, também seria autorizada a venda integral das férias dos empregados.

 Na visão dos defensores da reforma trabalhista - e eles se dividem entre empresários passarinhescamente inescrupulosos e trabalhadores idiotizados pelo “senso comum” propagandeado pela mídia -, a proposta apenas reconhece uma situação que já existe no campo. Ocorre que hoje essa situação é irregular e, colocando a vida em risco, promotores e fiscais do Ministério do Trabalho atuam fazendeiros por prática similar à escravidão, como recomenda a Organização Internacional do Trabalho.

 Não que o projeto não faça sentido sob a ótica dos partidos que formam a base do “governo” - segundo os quais a lei trabalhista está ultrapassada porque ela é de 1943. Imagine então, o leitor, a Lei Áurea, que aboliu a escravidão do País e é de 1888.

(“As aparências não enganam mais” é uma frase de “Como Nossos Pais”, de Belchior, cantor e compositor que morreu em 30 de abril)

Sem inocentes

Roberto Lameirinhas
há 6 meses3.7k visualizações

Por Roberto Lameirinhas

Passado o primeiro impacto das imagens do depoimento de Emílio Odebrecht aos investigadores da Operação Lava Jato, há quem defenda a tese de que, sem saída, por mais de três décadas, a empreiteira se viu forçada a ingressar no jogo sujo da corrupção para sobreviver no ambiente contaminado dos negócios entre entidades privadas e o Estado. A ideia é um tanto falaciosa. O tom de indignação do patriarca da construtora está muito mais relacionado à suposta “hipocrisia” dos que agora condenam seus executivos - incluindo seu filho - do que com o ambiente corrupto no qual multiplicou uma das maiores fortunas do País.

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Sem inocentes

 A fala de Emílio, na verdade, revela até mesmo uma ponta de orgulho por ter estabelecido as regras deste jogo de propina, que deu a ele e seus pares de outras empreiteiras o mando real e efetivo sobre a agenda política dos três níveis de poder do Estado - local, estadual e federal. Assim, gabou-se de controlar o direcionamento de licitações de obras propostas por políticos sob sua tutela, de impor ações legislativas, de influenciar resultados eleitorais e até mesmo da co-autoria de documentos de intenção doutrinária, como a Carta aos Brasileiros - que teria atenuado o temor do empresariado em relação à chegada de Luiz Inácio Lula da Silva ao Planalto, em 2002.

 Não há corrupto sem corruptor. E depreende-se do depoimento de Emílio Odebrecht que sua empresa - assim como empreiteiras concorrentes e ao mesmo tempo cúmplices de suas ações criminosas - tinha plena noção desse axioma. Na linha “todo homem tem seu preço”, não hesita em criticar até mesmo os veículos de comunicação, aos quais acusa de fazer vista grossa aos muitos casos de propina paga por empreiteira a políticos desde os tempo do regime militar. Claro, não sem antes mencionar a “ajuda” que a Odebrecht deu a muitas empresas de comunicação ao longo das últimas décadas.

 O intrincado esquema para burlar os controles fiscais do Estado e transformar concorrências públicas em jogos de cartas marcadas converteu as finanças públicas em refém de empreiteiras como a Odebrecht e as demais empresas sócias do cartel. Com o perdão pela obviedade e imprecisão, o prejuízo causado à sociedade é incalculável - na medida em que é impossível quantificar o volume de obras e o sobrepreço de cada uma delas executadas nas últimas décadas.

 Mas passou. É leite derramado. Esse prejuízo é irrecuperável - por mais acordos de leniência que se firmem daqui para a frente.  O mais importante, agora, é que a figura do septuagenário que narra as aventuras de seus dias de “capo di tutti capi” não seja romanceada ou tratada pelo “senso comum” como vítima, e não como grande beneficiária da estrutura corrupta que construiu. 

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Política, direitos humanos, feminismo, economia, mundo