Isso é Brasil
1BB34097-F786-44E7-9A1A-E8A05C0914DB
Burger
Isso é Brasil
1BB34097-F786-44E7-9A1A-E8A05C0914DB
Burger
Isso é Brasil
ic-spinner
Todo mundo tem uma história para contar
Encontre as melhores histórias para ler e autores para seguir. Inspire-se e comece a escrever grandes histórias sozinho(a) ou com seus amigos. Compartilhe e deixe o mundo conhecê-las.

Mário Soares, o prático

Por Roberto Lameirinhas

Mário Soares, o prático
Colaborar com amigos em assuntos que você ama
Pedir coautoria ▸

Em algumas ocasiões, fazemos o que gostamos; noutras, fazemos o que deve ser feito. A morte do político português Mário Soares, no dia 7 de janeiro, aos 92 anos, trouxe à tona a controvérsia em torno de sua personalidade, que se mostrou mais pragmática do que ideológica ao longo do período que se seguiu à Revolução dos Cravos, de abril de 1974, da qual foi um dos principais nomes.

 O regime salazarista, deposto pelo movimento do qual Soares fazia parte, era apontado ora como o responsável pela manutenção de Portugal no atraso tecnológico e social em relação ao restante da Europa Ocidental, ora como o preço a necessário a ser pago para impedir a propagação dos ideais comunistas que se espalhavam pelo continente na década de 20 - na esteira do triunfo da revolução russa, em 1917. A ditadura militar do Estado Novo, que teve entre seus maiores líderes Antonio de Oliveira Salazar, foi imposta em 1926 em grande medida como resposta dos integralistas portugueses ao avanço dos liberais, que passaram a flertar com o comunismo. Antiparlamentar, anti-esquerdista e autocrata, o salazarismo ao longo do tempo aproximou-se de regimes como o franquista espanhol e o fascista italiano.

 Mário Soares entra efetivamente para a política ao aderir, em 1943, ao Movimento Nacional Antifascista - por influência do líder comunista opositor ao Estado Novo, Álvaro Cunhal. Perseguido pela Polícia Internacional e de Defesa do Estado, o organismo de inteligência e repressão salazarista, é exilado em São Tomé e Príncipe e, depois, em 1973, ajuda a fundar o Partido Socialista. Sem Salazar desde 1968, o regime militar, então sob Marcello Caetano, dá seus último suspiro entre os cravos de 1974. Cabe a Soares boa parte da transição e, entre a ortodoxia dos comunistas revolucionários e focos de reação conservadora nos quartéis, converte-se no arquiteto das políticas necessárias para a integração europeia.

 Torna-se primeiro-ministro por dois períodos (1976-1978 e 1983-1985) e presidente por dois mandatos consecutivos, de 1986 a 1996. As regras de austeridade impostas pela Europa integrada a partir de 1992 modernizam Portugal, mas obrigam o governo a fazer concessões que desagradam à esquerda. Apesar de manter-se crítico à adesão automática das doutrinas da social-democracia ao neoliberalismo do Consenso de Washington, Soares havia se convertido, na visão de seus críticos, num traidor das causas que defendera.

 “Os elogios fúnebres não podem reescrever a história”, é o título do editorial publicado pelo jornal digital português O Diário, que se autodescreve como antiimperialista e anticapitalista.

  “Numa vida política tão prolongada e com um trajeto tão contraditório como a de Mário Soares nem todos os aspectos serão negativos. Mas, se se pretender nesta altura fixar o seu lugar na história, há um facto que para o nosso povo e o nosso país é mais relevante do que qualquer outro. Se o 25 de Abril de 1974 constitui o mais importante acontecimento da nossa história até hoje, Mário Soares deve ser recordado como um dos seus mais destacados e encarniçados adversários”, prossegue o texto. “Deve ser recordado como alguém que, desde o primeiro dia, apostou em que a revolução de Abril não superasse os limites de uma revolução burguesa. Em que a conquista da liberdade política não trouxesse consigo as transformações econômicas, sociais e culturais que garantissem que, com a derrubada do regime fascista, os trabalhadores e o povo português viessem a abrir o caminho de uma sociedade não apenas livre da opressão, mas igualmente livre da exploração, da desigualdade, da dependência e do atraso, e os povos das colônias portuguesas conquistassem a efetiva independência nacional (...) Conspirou, aliou-se e foi apoiado pelos mais reacionários setores da direita e do imperialismo. Trabalhou incansavelmente para dividir as forças progressistas civis e militares. Fez suas as palavras de ordem mais reacionárias, foi o porta-voz do mais rasteiro e fanático anticomunismo (...). O seu lugar na História é, no fundamental, o de alguém que combateu tenazmente pela liquidação da esperança de Abril. De alguém cuja ação abriu caminho e deu início às políticas que conduziram Portugal à penosa situação atual. Nenhum elogio fúnebre poderá elidir essa realidade histórica.”

 Para os defensores de Soares, no entanto, ele foi até onde era possível ir num ambiente pós-ditadura permeado pelas promessas de avanço com a integração europeia, os resquícios do salazarismo e o prenúncio da crise do socialismo real no Leste da Europa e na própria União Soviética. Suas políticas, nesse sentido, assentaram as bases de um Portugal que busca alcançar o desenvolvimento de seus parceiros europeus. O certo é que seu estilo pragmático esteve longe de agradar a todos.

 

Um rio de sangue

Por Roberto Lameirinhas

A perspectiva é de que mais sangue deve rolar nos presídios pelo Brasil com a guerra aberta entre o PCC e a agora nacionalmente apresentada Família do Norte (FDN). Não que grande parte da população se importe, mas são fortes os indícios de que a selvageria deve aumentar.

Colaborar com amigos em assuntos que você ama
Pedir coautoria ▸
Um rio de sangue

Política carcerária no Brasil nunca rendeu votos e o “cidadão de bem” do País nunca entendeu direito a diferença entre Justiça e vingança. Em tempos de crise, a violência que já era incontrolável nos presídios tende a se tornar descomunal. O investimento no setor certamente se reduzirá na proporção inversa da demanda dos próximos anos.

O caso da rebelião que deixou quase 60 mortos em Manaus é um bom exemplo, além de ser uma agravante, da deterioração do sistema. Privatizado, o Complexo Penitenciário Anísio Jobim é praticamente um depósito de detentos que “se autogovernam”, segundo relatório de um organismo ligado ao Ministério da Justiça, em meio à quase livre atuação de diferentes facções. Como consequência do motim do ano-novo, pelo menos 112 detentos estão foragidos.

No ano passado, a empresa responsável pela manutenção do presídio recebeu mais de R$ 300 milhões do governo do Estado para manter sob custódia 12 mil detentos nas oito unidades prisionais que mantém no Amazonas. Em 2015, tinha recebido cerca de R$ 200 milhões. Os sócios da concessionária fizeram generosas doações para políticos amazonenses, incluindo o governador José Melo (Pros), que recebeu R$ 300 mil em 2014. O sindicato de agentes penitenciários local, porém, diz que a vigilância é falha e a revista de visitantes é deficiente, a ponto de permitir a entrada de armas, drogas e telefones celulares no presídio. O grau de corrupção entre os vigilantes privados, ainda segundo o sindicato, também é alto.

Após a chacina na qual a FDN decapitou e esquartejou os presos ligados ao PCC, as autoridades deram início ao tradicional jogo de empurra no que diz respeito à responsabilidade. O ministro da Justiça disse que o governo estadual tinha informações sobre um plano de rebelião e fuga por parte da FDN. Depois se desdisse, ao afirmar que não havia fatos que apontassem para a omissão dos funcionários estaduais. A empresa negou falhas no sistema de vigilância e o governo do Estado alegou ter agido para evitar mortes entre agentes penitenciários e outros não detentos. “Não havia santo entre os mortos”, chegou a declarar o governador Melo.

Embora governos estaduais e federal acreditem que possam conter o poder das facções evitando mencionar o nome delas, a capilarização desses grupos é abrangente. Segundo informações de inteligência, a FDN deu início à ação contra o PCC após uma aliança com o Comando Vermelho. A retaliação do PCC, em qualquer presídio do Brasil, é só uma questão de tempo.

Você leu a pasta de história
Story cover
escrita por
Writer avatar
tudoexplicado
Política, direitos humanos, feminismo, economia, mundo