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Mas veio o tempo negro

Retórica predominante de hoje sobre 'comunistas' ,' petralhas' ou 'vagabundos' tem origem bem determinada e muito conhecida 

Mas veio o tempo negro
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Os campos de concentração e de extermínio não surgiram por geração espontânea nos territórios dominados pela Alemanha nazista. Eles foram antecedidos desde os anos que se seguiram ao fim da Primeira Guerra, em 1918, pela série de doutrinas delineada por Adolf Hitler no “Mein Kampf” (Minha Luta, de 1924) que tinha como objetivo demonizar judeus, comunistas e outros grupos que eram responsabilizados por todos os males econômicos e sociais que abalavam a Alemanha do pós-guerra e cuja convivência não era oportuna ou aceitável com os “arianos puros”. A estratégia passava pelo esforço de remover de membros desses grupos toda característica que conferisse a eles qualquer aspecto de humanidade. Era necessário evitar qualquer espécie de empatia com aqueles que deveria ser subjugados.   

 Assim, judeus eram “ratos”, eslavos eram “porcos”, ciganos e homossexuais era “baratas”. Toda a base da propaganda nazista deveria ser a de convencer seus seguidores que o futuro e a pureza dos seres humanos passava pela necessidade de eliminar o que considerava seres inferiores - que comprometiam o futuro de glória destinado à Alemanha. Relatos encontrados em cartas enviadas por soldados alemães ou diário de prisioneiros de guerra nazistas mostraram que eles tinham pouca ou nenhuma crise de consciência ante a “obrigação moral” de livrar o mundo dos indesejáveis.

 O resultado do discurso de ódio se mostrou tão cruel e terrível que ele passou a ser expressamente proibido na maior parte dos países ocidentais, sob a argumentação de que a retórica de discriminação e a incitação à violência contra grupos étnicos, religiosos, políticos ou minoritários não está sob a égide da liberdade de expressão.

 O Brasil tem algumas garantias neste sentido, mas elas são excessivamente vagas e pouco abrangentes. Com a recente polarização política, no entanto, o discurso de ódio passou a ganhar contornos perigosos. O mais conhecido dos haters do País tem mandato de deputado federal e já usou o plenário da Câmara para elogiar torturadores de esquerdistas durante a ditadura militar. Algumas semanas atrás, foi à Hebraica (sim, isso mesmo, Hebraica) do Rio para difundir sua mensagem de desumanização de quilombolas, índios e esquerdistas.

 Seguidores deste mesmo hater chegaram a realizar uma “marcha anti-imigração” que acabou em confronto na Avenida Paulista em São Paulo. Agrediram estrangeiros e refugiados palestinos a quem acusaram de “jogar uma bomba” na manifestação. A polícia foi chamada: prendeu os refugiados. E as coisas vão seguindo por aí. Negros, estrangeiros, homossexuais, feministas, comunistas não são agredidos, perseguidos ou mortos pelo que são, mas porque de alguma forma são “bandidos” ou “vagabundos” ou “petralhas”.

 A ameaça principal é que a divisão que faz o rabo abanar o cachorro não tem origem só nós grupelhos que se mantêm mais ativos na internet e dão apoio ao deputado nazifascista. O discurso de ódio tem contaminado partidos e líderes políticos - como, por exemplo, o prefeito de São Paulo que na busca de votos da extrema direita nunca perde a oportunidade de qualificar qualquer esquerdista de “bandido” ou “vagabundo”. Seus partidários adotam posição bastante semelhante, desprezando o fato de que qualquer cidadão tem direito a enquadrar-se em qualquer ponto do espectro político - desde que não incentive a perseguição dos que pensam diferente deles.

 O discurso hegemônico é o de que todas as mazelas do Brasil emanam de uma única fonte - a esquerda - e essa retórica encontra eco na mídia de massa e em setores do empresariado que buscam tirar vantagem dessa situação. Com isso, as forças de ordem acabam tendo pouca dúvida sobre para qual lado devem pender e legislações mais rígidas contra  a retórica de ódio tendem a permanecer nas gavetas de Brasília. 

(O título deste post é um verso da música "Galos, noites e quintais", do cantor e compositor Belchior, que morreu em 30 de abril) 

As aparências não enganam mais

Por Roberto Lameirinhas

Deputado da bancada ruralista tenta aprovar lei que permite pagamento de trabalhador rural com moradia e alimentação

Por ingenuidade ou excesso de crença na espécie a que pertencem, algumas pessoas - entre as quais me incluo - tendem a acreditar que algumas linhas vermelhas não voltarão a ser ultrapassadas. Por exemplo, há um certo consenso sobre o fato de alguns políticos estão na vida pública para defender mesmo interesses próprios ou dos grupos que representam e há pouca dúvida de que a cara de pau da maior parte deles é capaz de muita coisa, mas o que se acreditava era que eles continuariam se empenhando ao menos em dissimular seus atos.

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As aparências não enganam mais

Ato do Dia do Trablhador no Rio 

No entanto, a frase de um desses célebres representantes do grande poder econômico - “às favas com os escrúpulos” -, de 1969, continua atual. O Congresso discute nestes dias os destaques sobre a reforma trabalhista, vendida pelo atual “governo” como algo “muito favorável” ao trabalhador. O próprio Michel Temer, no dia do Trabalho, dirigiu mensagem aos trabalhadores para tentar convencê-los de que abrir mão de seus direitos vai ajudar a criar mais empregos.

 A tese, defendida por grupos empresariais de diversos setores, é absurdamente frágil. Pois no capítulo sobre o trabalho rural, o projeto do representante da bancada ruralista Nilson Leitão (PSDB-MT) beira o inacreditável.

 Ela permitiria ao empregador rural pagar seus trabalhadores com “remuneração de qualquer espécie”, e não apenas com salário. O lavrador poderia ser pago com “moradia e alimentação”. O texto aumenta para até 12 horas a jornada diária por "motivos de força maior" e faculta ao empregador a substituição do repouso semanal dos funcionários por um contínuo, após até 18 dias de trabalho seguidos. Pelo projeto, também seria autorizada a venda integral das férias dos empregados.

 Na visão dos defensores da reforma trabalhista - e eles se dividem entre empresários passarinhescamente inescrupulosos e trabalhadores idiotizados pelo “senso comum” propagandeado pela mídia -, a proposta apenas reconhece uma situação que já existe no campo. Ocorre que hoje essa situação é irregular e, colocando a vida em risco, promotores e fiscais do Ministério do Trabalho atuam fazendeiros por prática similar à escravidão, como recomenda a Organização Internacional do Trabalho.

 Não que o projeto não faça sentido sob a ótica dos partidos que formam a base do “governo” - segundo os quais a lei trabalhista está ultrapassada porque ela é de 1943. Imagine então, o leitor, a Lei Áurea, que aboliu a escravidão do País e é de 1888.

(“As aparências não enganam mais” é uma frase de “Como Nossos Pais”, de Belchior, cantor e compositor que morreu em 30 de abril)

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Política, direitos humanos, feminismo, economia, mundo