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Não é uma questão ideológica

Por Roberto Lameirinhas

Não é uma questão ideológica
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Num tempo em que se “problematiza” tudo, em que se “empodera” alguns e em que se luta pelo controle da “narrativa” de quase todos os processos que envolvem política pública, eu sei que algumas revelações podem ser frustrantes. Mas lamento e tenho de informar: a questão do limite de velocidade nas Marginais do Tietê e Pinheiros em São Paulo tem pouco de ideológica e muito de lógica.

 Seja você do partido que for, estará sujeito aos princípios da física e da fisiologia. Se estiver em um carro na Marginal e esse veículo se acidentar a 90 quilômetros por hora, você vai se machucar mais do que se estivesse a 70 quilômetros por hora - certamente muito mais do que se estivesse a 50 quilômetros por hora.

 Pode ser que existam razões para se acreditar que o aumento da velocidade deve favorecer uma parcela da população que. durante algum tempo, sentiu-se limitada em sua capacidade de deslocar-se livremente pela cidade. Pode-se argumentar que motoristas de automóveis têm menos culpa pelos acidentes de trânsito nas Marginais do que os motociclistas, envolvidos num número maior de ocorrências de trânsito nessas vias. Pode-se também defender com alguma racionalidade que vias expressas são inadequadas para ciclistas - mais ainda para pedestres, sejam eles ambulantes ou moradores de rua.

 Mas é inegável e indisfarçável - acima de qualquer coloração política - que o número de acidentes e a gravidade deles aumentarão na razão direta da velocidade permitida. Ok, é verdade, incidentes  envolvendo automóveis são um efeito colateral da sociedade moderna, que tem um de seus motores (ops!) na criação e expansão da indústria automobilística.

 E é seu direito considerar que, enfim, a vida é dura mesmo e algumas baixas são aceitáveis em troca do privilégio de se ganhar uns 4 ou 5 minutos num percurso de quase uma hora. Vale até mesmo fazer comparações assimétricas com freeways americanas ou autobahns alemãs - isso talvez até lhe confira um ar cosmopolita, de cidadão do mundo, culto e sabichão, mesmo que nunca tenha nem sequer visto de perto uma freeway ou uma autobahn.

 Ora, as alternativas de transporte coletivo são ruins mesmo. Sempre foram. E nos últimos tempos todos os níveis de governo adotaram políticas que favoreceram o consumo e o uso de automóveis, com subsídios ao financiamento e incentivo à produção de mais e mais carros.  

 Só o que não vale é tergiversar. Não dá pra dizer que haverá menos acidentes do que havia quando o limite impunha uma velocidade menor. Esse tipo de alegação comum nas odiosas caixas de comentário da internet não fará de você um empedernido defensor do liberalismo econômico e da livre iniciativa em luta permanente contra a ameaça comunista que pretende cassar seu direito de usufruir do máximo da potência e da tecnologia embarcada do seu veículo, legítimo troféu conquistado pelo seu mérito.

 No máximo, esse argumento só mostrará o quanto seu egocentrismo o converteu num idiota.

 

   

Da conveniência das tragédias

Por Roberto Lameirinhas

Da conveniência das tragédias
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Teorias conspiratórias são irritantes. Oferecem em geral argumentos simplistas destinados a satisfazer o que se convencionou chamar de senso comum. Acabam caindo no ridículo com o tempo. Sim, o homem foi à Lua, não se encontrou nenhum indício de que a CIA tenha matado JFK e nada indica que Tancredo Neves tenha sido baleado em meio a uma entrevista que concedia à repórter Glória Maria.

 Isto posto, é difícil não relacionar a queda do avião que transportava o ministro do Supremo Tribunal Federal Teori Zavascki à conveniência de seu desaparecimento dias antes da homologação das delações premiadas mais aguardadas da Operação Lava Jato: a dos executivos da Construtora Norberto Odebrecht, incluindo o filho de seu proprietário, Marcelo Odebrecht.

 A mídia já tinha anunciado que as delações citariam integrantes de praticamente todos os partidos do País. De Michel Temer a Aécio Neves, passando por Renan Calheiros e José Serra. De Dilma Rousseff a Luiz Inácio Lula da Silva, incluindo nomes importantes de seus respectivos governos.

 Diferentemente do que se pode depreender no Brasil de hoje, a queda de aviões novos - com manutenção em dia e pilotados por profissionais reconhecidamente experientes - é exceção absoluta, e não regra. O caso da queda de aeronave que matou Zavascki é particularmente perturbador.

 Ele foi precedido pela ação de membros da organização de ultradireita MBL que - inconformados com a decisão de Zavascki de reivindicar para o STF o foro da investigação sobre Lula - divulgou o endereço do ministro e de seus parentes nas redes sociais. O filho do ministro, o advogado Francisco Zavascki, já tinha denunciado ameaças à vida de Teori.

 E, na inacreditável conversa gravada de Romero Jucá com o ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado, Zavascki é mencionado como um homem que “não tem ligações”  - ou seja, que dificilmente seria refém de algum esquema destinado, nas palavras de Machado, de “estancar a sangria” da Lava Jato.

Da conveniência das tragédias

 Não custa ressaltar: como relator do inquérito da Lava Jato no STF, cabia a Zavascki homologar delações e determinar a urgência ou não dos processos que envolviam acusados com foro privilegiado - presidente da República, ministros, senadores e deputados.

 A julgar pelo que a mídia tem informado, Zavascki tinha abandonado o descanso do recesso do Judiciário para analisar as delações dos executivos da Odebrecht, que seriam homologadas entre a última semana de janeiro e a primeira de fevereiro. Retornava a Paraty para retomar o que restava do descanso e voava de carona com o amigo e dono do avião, Carlos Alberto Fernando Filgueiras - dono do grupo empresarial Emiliano e réu em processo por crime ambiental no STF.

 Caberá ao presidente da República - que teria recebido doações da Odebrecht para campanhas eleitorais própria e de aliados - nomear o substituto de Zavascki, que por sua vez, segundo interpretação de juristas, herdará o caso da Lava Jato. Essa nomeação pode ser rápida ou não, levando-se em conta o trâmite da escolha e da sabatina no Senado. De todo modo, o avanço da Lava Jato no STF sofrerá significativo atraso. 

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