Isso é Brasil
1BB34097-F786-44E7-9A1A-E8A05C0914DB
Burger
Isso é Brasil
1BB34097-F786-44E7-9A1A-E8A05C0914DB
Burger
Isso é Brasil
ic-spinner
Todo mundo tem uma história para contar
Encontre as melhores histórias para ler e autores para seguir. Inspire-se e comece a escrever grandes histórias sozinho(a) ou com seus amigos. Compartilhe e deixe o mundo conhecê-las.

O custo do discurso de ódio

O custo do discurso de ódio
Colaborar com amigos em assuntos que você ama
Pedir coautoria ▸

Por Roberto Lameirinhas

Acusado de mais de um caso de agressão a mulheres, herdeiro de um recente clã político fundado por um integrante da bancada da bala que se tornou inelegível após ser condenado por corrupção, o ex-secretário da Juventude Bruno Júlio é daquelas pessoas que gostam de bater no peito para se incluir entre os que se acreditam “cidadãos de bem”.

Acabou demitido do cargo no Executivo após declarar, de forma extemporânea e gratuita, que gostaria que houvesse “uma chacina por semana”, referindo-se às rebeliões carcerárias que deixaram mais de cem mortos no Amazonas e em Roraima nos primeiros dias de 2017.

Durante algum tempo, tentou salvar o emprego, com a justificativa de que suas frase tinham sido retiradas do contexto. Como não conseguiu encontrar nenhum contexto em que declarações dessa ordem se adequassem na boca de um agente público, caiu.

Claro que Bruno Júlio, que foi líder da “juventude do PMDB” de Belo Horizonte, não é um ponto fora da curva no que diz respeito à crise no sistema penitenciários que de tempos em tempo insiste em se tornar visível. O secretário demitido representa com perfeição a boçalidade de seus pares em vários níveis - da caixa de comentários das redes sociais até os gabinetes dos monumentais edifícios da Esplanada dos Ministérios.

Quando se tem deputados que comemoram chacinas em prisões e governadores que declararam que entre os presos mortos - em última análise, sob a custódia de seu Estado - “não havia nenhum santo”, não há mesmo muito a se esperar de uma sociedade que elege essa gente toda. O problema é que está cada vez mais difícil conter a violência ensandecida que arranca cabeças e corações de cadáveres no interior das penitenciárias.

Enquanto o Ministro da Justiça responsabiliza as autoridades estaduais, que por seu lado responsabilizam as vítimas da matança, as facções criminosas se fortalecem no ambiente penitenciário e preparam suas ações além dos muros dos presídios. A disputa pelo lucro de negócios ilícitos vai chegando não tão vagarosamente à periferia de São Paulo e aos morros do Rio.

Ao mesmo tempo em que um ministro que conhece muito bem o problema prefere fingir que não há problema nenhum e adota o discurso do “caso isolado” ou do “acidente pavoroso”. A aposta é que o discurso “bandido bom é bandido morto” do secretário boçal se reverbere na sociedade a ponto de causar danos eleitorais aos que se mostram incapazes de resolver o problema.

O custo, como mostram a Colômbia dos anos 80 e 90 e o México dos últimos dez anos - países onde questões de segurança pública se converteram em pesadelo de segurança nacional -, pode ser alto demais para toda a cidadania, “de bem” ou não.

Mário Soares, o prático

Por Roberto Lameirinhas

Mário Soares, o prático
Colaborar com amigos em assuntos que você ama
Pedir coautoria ▸

Em algumas ocasiões, fazemos o que gostamos; noutras, fazemos o que deve ser feito. A morte do político português Mário Soares, no dia 7 de janeiro, aos 92 anos, trouxe à tona a controvérsia em torno de sua personalidade, que se mostrou mais pragmática do que ideológica ao longo do período que se seguiu à Revolução dos Cravos, de abril de 1974, da qual foi um dos principais nomes.

 O regime salazarista, deposto pelo movimento do qual Soares fazia parte, era apontado ora como o responsável pela manutenção de Portugal no atraso tecnológico e social em relação ao restante da Europa Ocidental, ora como o preço a necessário a ser pago para impedir a propagação dos ideais comunistas que se espalhavam pelo continente na década de 20 - na esteira do triunfo da revolução russa, em 1917. A ditadura militar do Estado Novo, que teve entre seus maiores líderes Antonio de Oliveira Salazar, foi imposta em 1926 em grande medida como resposta dos integralistas portugueses ao avanço dos liberais, que passaram a flertar com o comunismo. Antiparlamentar, anti-esquerdista e autocrata, o salazarismo ao longo do tempo aproximou-se de regimes como o franquista espanhol e o fascista italiano.

 Mário Soares entra efetivamente para a política ao aderir, em 1943, ao Movimento Nacional Antifascista - por influência do líder comunista opositor ao Estado Novo, Álvaro Cunhal. Perseguido pela Polícia Internacional e de Defesa do Estado, o organismo de inteligência e repressão salazarista, é exilado em São Tomé e Príncipe e, depois, em 1973, ajuda a fundar o Partido Socialista. Sem Salazar desde 1968, o regime militar, então sob Marcello Caetano, dá seus último suspiro entre os cravos de 1974. Cabe a Soares boa parte da transição e, entre a ortodoxia dos comunistas revolucionários e focos de reação conservadora nos quartéis, converte-se no arquiteto das políticas necessárias para a integração europeia.

 Torna-se primeiro-ministro por dois períodos (1976-1978 e 1983-1985) e presidente por dois mandatos consecutivos, de 1986 a 1996. As regras de austeridade impostas pela Europa integrada a partir de 1992 modernizam Portugal, mas obrigam o governo a fazer concessões que desagradam à esquerda. Apesar de manter-se crítico à adesão automática das doutrinas da social-democracia ao neoliberalismo do Consenso de Washington, Soares havia se convertido, na visão de seus críticos, num traidor das causas que defendera.

 “Os elogios fúnebres não podem reescrever a história”, é o título do editorial publicado pelo jornal digital português O Diário, que se autodescreve como antiimperialista e anticapitalista.

  “Numa vida política tão prolongada e com um trajeto tão contraditório como a de Mário Soares nem todos os aspectos serão negativos. Mas, se se pretender nesta altura fixar o seu lugar na história, há um facto que para o nosso povo e o nosso país é mais relevante do que qualquer outro. Se o 25 de Abril de 1974 constitui o mais importante acontecimento da nossa história até hoje, Mário Soares deve ser recordado como um dos seus mais destacados e encarniçados adversários”, prossegue o texto. “Deve ser recordado como alguém que, desde o primeiro dia, apostou em que a revolução de Abril não superasse os limites de uma revolução burguesa. Em que a conquista da liberdade política não trouxesse consigo as transformações econômicas, sociais e culturais que garantissem que, com a derrubada do regime fascista, os trabalhadores e o povo português viessem a abrir o caminho de uma sociedade não apenas livre da opressão, mas igualmente livre da exploração, da desigualdade, da dependência e do atraso, e os povos das colônias portuguesas conquistassem a efetiva independência nacional (...) Conspirou, aliou-se e foi apoiado pelos mais reacionários setores da direita e do imperialismo. Trabalhou incansavelmente para dividir as forças progressistas civis e militares. Fez suas as palavras de ordem mais reacionárias, foi o porta-voz do mais rasteiro e fanático anticomunismo (...). O seu lugar na História é, no fundamental, o de alguém que combateu tenazmente pela liquidação da esperança de Abril. De alguém cuja ação abriu caminho e deu início às políticas que conduziram Portugal à penosa situação atual. Nenhum elogio fúnebre poderá elidir essa realidade histórica.”

 Para os defensores de Soares, no entanto, ele foi até onde era possível ir num ambiente pós-ditadura permeado pelas promessas de avanço com a integração europeia, os resquícios do salazarismo e o prenúncio da crise do socialismo real no Leste da Europa e na própria União Soviética. Suas políticas, nesse sentido, assentaram as bases de um Portugal que busca alcançar o desenvolvimento de seus parceiros europeus. O certo é que seu estilo pragmático esteve longe de agradar a todos.

 

Você leu a pasta de história
Story cover
escrita por
Writer avatar
tudoexplicado
Política, direitos humanos, feminismo, economia, mundo