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O inimigo eu já conheço

Roberto Lameirinhas
há 5 meses5.5k visualizações

Sergio Moro vem a público para rejeitar o papel de oponente no primeiro depoimento de Lula em Curitiba

Ainda que com algum atraso, o juiz Sergio Moro decidiu vir a público nesta terça-feira (9) para esclarecer que não deve ser considerado um “oponente” do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na audiência marcada para o dia seguinte em Curitiba. Faz bem em deixar as coisas claras. Até então, parecia confortável no papel de antagonista de Lula ao qual foi alçado principalmente por uma parte da mídia. E juiz que se contrapõe previamente ao réu abre mão de seu papel de magistrado e compromete o processo.

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O inimigo eu já conheço

 “Usando aquelas metáforas futebolísticas: é melhor que seja jogo de torcida única". "Digo isso com tranquilidade porque não sou um dos times em campo, sou um juiz", afirmou numa palestra em Curitiba. Dias antes, tinha pedido a apoiadores da Operação Lava Jato para que não fizessem manifestações no dia do depoimento de Lula para evitar confrontos com militantes petistas. Soou como o pedido de um líder a seus seguidores antes do embate apocalíptico do bem contra o mal propalado nas páginas de jornais e revistas.

 Questionamentos sobre uma suposta parcialidade de Moro são justificáveis. Há vazamentos, decisões de encaminhamento e conduções de interrogatórios que indicam, ao menos, uma certa má vontade com a defesa do petista. Mas as declarações de Moro rejeitando ser parte do processo garantem um mínimo de decoro formal ao julgamento.

 Outro aspecto importante a ser considerado é que este primeiro depoimento de Lula se refere ao caso do tríplex do Guarujá, talvez a acusação mais frágil dos procuradores da Lava Jato contra o ex-presidente. Deve haver, enfim, o já tradicional espetáculo proporcionado pelo vazamento da audiência e - dado o número de manifestantes dispostos a demonstrar seu apoio a Lula - casos de distúrbios da ordem pública e confrontos com a polícia. Como sugerem as declarações do próprio Moro, pouco ou nada além disso.

(“O inimigo eu já conheço” é um verso da canção “Não leve flores”, de Belchior, cantor e compositor que morreu em 30 de abril) 

Mas veio o tempo negro

Retórica predominante de hoje sobre 'comunistas' ,' petralhas' ou 'vagabundos' tem origem bem determinada e muito conhecida 

Mas veio o tempo negro
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Os campos de concentração e de extermínio não surgiram por geração espontânea nos territórios dominados pela Alemanha nazista. Eles foram antecedidos desde os anos que se seguiram ao fim da Primeira Guerra, em 1918, pela série de doutrinas delineada por Adolf Hitler no “Mein Kampf” (Minha Luta, de 1924) que tinha como objetivo demonizar judeus, comunistas e outros grupos que eram responsabilizados por todos os males econômicos e sociais que abalavam a Alemanha do pós-guerra e cuja convivência não era oportuna ou aceitável com os “arianos puros”. A estratégia passava pelo esforço de remover de membros desses grupos toda característica que conferisse a eles qualquer aspecto de humanidade. Era necessário evitar qualquer espécie de empatia com aqueles que deveria ser subjugados.   

 Assim, judeus eram “ratos”, eslavos eram “porcos”, ciganos e homossexuais era “baratas”. Toda a base da propaganda nazista deveria ser a de convencer seus seguidores que o futuro e a pureza dos seres humanos passava pela necessidade de eliminar o que considerava seres inferiores - que comprometiam o futuro de glória destinado à Alemanha. Relatos encontrados em cartas enviadas por soldados alemães ou diário de prisioneiros de guerra nazistas mostraram que eles tinham pouca ou nenhuma crise de consciência ante a “obrigação moral” de livrar o mundo dos indesejáveis.

 O resultado do discurso de ódio se mostrou tão cruel e terrível que ele passou a ser expressamente proibido na maior parte dos países ocidentais, sob a argumentação de que a retórica de discriminação e a incitação à violência contra grupos étnicos, religiosos, políticos ou minoritários não está sob a égide da liberdade de expressão.

 O Brasil tem algumas garantias neste sentido, mas elas são excessivamente vagas e pouco abrangentes. Com a recente polarização política, no entanto, o discurso de ódio passou a ganhar contornos perigosos. O mais conhecido dos haters do País tem mandato de deputado federal e já usou o plenário da Câmara para elogiar torturadores de esquerdistas durante a ditadura militar. Algumas semanas atrás, foi à Hebraica (sim, isso mesmo, Hebraica) do Rio para difundir sua mensagem de desumanização de quilombolas, índios e esquerdistas.

 Seguidores deste mesmo hater chegaram a realizar uma “marcha anti-imigração” que acabou em confronto na Avenida Paulista em São Paulo. Agrediram estrangeiros e refugiados palestinos a quem acusaram de “jogar uma bomba” na manifestação. A polícia foi chamada: prendeu os refugiados. E as coisas vão seguindo por aí. Negros, estrangeiros, homossexuais, feministas, comunistas não são agredidos, perseguidos ou mortos pelo que são, mas porque de alguma forma são “bandidos” ou “vagabundos” ou “petralhas”.

 A ameaça principal é que a divisão que faz o rabo abanar o cachorro não tem origem só nós grupelhos que se mantêm mais ativos na internet e dão apoio ao deputado nazifascista. O discurso de ódio tem contaminado partidos e líderes políticos - como, por exemplo, o prefeito de São Paulo que na busca de votos da extrema direita nunca perde a oportunidade de qualificar qualquer esquerdista de “bandido” ou “vagabundo”. Seus partidários adotam posição bastante semelhante, desprezando o fato de que qualquer cidadão tem direito a enquadrar-se em qualquer ponto do espectro político - desde que não incentive a perseguição dos que pensam diferente deles.

 O discurso hegemônico é o de que todas as mazelas do Brasil emanam de uma única fonte - a esquerda - e essa retórica encontra eco na mídia de massa e em setores do empresariado que buscam tirar vantagem dessa situação. Com isso, as forças de ordem acabam tendo pouca dúvida sobre para qual lado devem pender e legislações mais rígidas contra  a retórica de ódio tendem a permanecer nas gavetas de Brasília. 

(O título deste post é um verso da música "Galos, noites e quintais", do cantor e compositor Belchior, que morreu em 30 de abril) 

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Política, direitos humanos, feminismo, economia, mundo