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Precisamos todos rejuvenescer

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Para as pessoas da minha geração que não se alienaram dos temas políticos, a foto acima é um acinte, um absurdo histórico, algo muito próximo da ofensa pessoal. Ela começou a circular pelas redes sociais após o fim de semana que se seguiu às revelações que aprofundaram a aparentemente interminável crise política do País, tomada de um “protesto” no Moinhos de Vento, bairro de classe média alta de Porto Alegre. Algum comentarista observou que se tratava provavelmente de um fato histórico: a primeira manifestação de rua do planeta eleições indiretas.

 O “movimento” traz embutida a ideia do teorema de Pelé, aquele que conclui que “brasileiro não sabe votar”. Não é só elitista e venial. É racista, pois parte do pressuposto de que voto direto é um risco porque uma parte do País pode não fazer a mesma escolha que uma outra parte. Considera, enfim, que democracia é muito legal, desde que favoreça o grupo a que pertence. Para a maior parte dos que participaram dos movimentos pelas Diretas-Já da década de 80, como eu, essa posição é inaceitável.    

 Ainda é cedo para que se saiba se a crise que se intensificou com a delação premiada dos donos da JBS vai ou não resultar na destituição de Michel Temer. É possível que sim, pelo que se vê no atual cenário político. E é possível, até mesmo muito provável, que, neste caso, a mesma invencível teia de interesses que levou Temer ao Planalto prevaleça sobre a vontade da maioria ver progredir a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que permitiria a realização de eleições diretas agora - algo que inegavelmente colocaria fim à falta de legitimidade do governo que se arrasta desde a saída de Dilma Rousseff da presidência no ano passado.

 Mas o “protesto” de Porto Alegre, porém, considera que mudar a Constituição para aprovar a realização de eleições diretas “violenta a democracia”. O movimento foi promovido por uma das dezenas de legendas de aluguel que se aproveitaram das brechas do sistema partidário brasileiro para criar balcões de negócios, o Partido Social-Liberal (PSL), que mais tarde se associou a movimentos de extrema direita como o MBL - aquele apartidário - e mudou o nome para “Livres”, apostando na falta de memória da população. A intransigência do PSL-Livres na defesa da Constituição, porém, é bastante seletiva. No caso de mudanças da Constituição para a draconiana proposta de reforma da Previdência ou para revogar direitos trabalhistas, a legenda de aluguel é entusiasticamente favorável.

 O grande drama deste desgraçado País é que a posição pela “indiretas-já” de partidecos como este é corroborada até mesmo por jornalistas - quase nunca respeitáveis - que gostam de posar de democratas. “Quem se beneficiaria com eleições diretas agora? Lula, o PT, os acusados da Lava Jato?”, postou em outra rede social um desses “jênios” da imprensa. Tudo bem. Vivemos uma época de pós-verdades na qual assistimos na TV à propaganda política do Partido Progressista, aquele partido do Paulo Maluf e recordista de denúncias na Lava Jato, se apresentando como “o novo PP, diferente de tudo que está aí”.

 Mas é tão difícil perceber que: a) voto direto, unitário e universal é a essência do regime democrático; b) quem se beneficia de eleição direta é sempre o eleitor.

 Se o tal PSL-Livres fundamentar seu argumento contra a eleição direta no princípio de combater toda e qualquer mudança da Constituição, talvez seja merecedor de algum respeito. Caso contrário, fica comprovada a sua vocação elitista, muito comum no período da ditadura militar, de perpetuar a ideia de que cidadão comum não é capaz de escolher seus governantes. E o melhor é deixar essa tarefa para quem realmente tem poder - banqueiros, ruralistas, grandes empresários, grupos de mídia poderosos… enfim, esse caras aí...

Olho de frente a cara do presente e sei que vou ouvir a mesma história porca

Perplexidade com as denúncias contra Temer se soma ao embate entre Globo e Folha, cuja razão ainda não está clara  

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Passada a surpresa inicial, sobram dúvidas a respeito das circunstâncias que elevam a crise política brasileira aos seus maiores níveis dos últimos meses. É verdade que, ao longo da sequência de denúncias e escândalos que permeiam a história política recente do País, nunca as provas apresentadas foram mais explícitas e irrefutáveis.

  A perplexidade e o clima de “barata voa”, porém, parecem ter se acentuado porque o que se esperava era que as novas denúncias bombásticas e provas irrefutáveis tivessem como alvo o outro lado - com Luiz Inácio Lula da Silva ou Dilma Rousseff. E as controvérsias não se restringiram aos partidos políticos, mortadelas e coxinhas, advogados e promotores. Elas se estenderam até mesmo aos veículos de comunicação tradicionais.

 Uma das principais perguntas ainda não respondidas deste capítulo da crise diz respeito à posição da Rede Globo, em aberta contraposição a continuação de Michel Temer na chefia do governo. A primeira notícia sobre a gravação do diálogo entre Temer e Joesley Batista foi publicada no site do jornal O Globo e amplificada com estardalhaço no Jornal Nacional. A cobertura que seguiu nos veículos das Organizações Globo - incluindo emissoras de rádio da rede CBN, revista Época, portais G1 e Globo.com - esteve sempre muito longe de ser equilibrada. Sobressaem-se as análises enviesadas em favor da renúncia ou destituição de Temer.

 Na outra ponta, posicionaram-se os dois grandes jornais de São Paulo. A Folha chegou a dar em manchete, com base num laudo feito às pressas e de qualidade duvidosa, que a gravação feita por Joesley era “inconclusiva”. Temer aproveitou a manchete para desqualificar a prova contra ele. A Globo, por meio do site de seu jornal e do Fantástico, praticamente ridicularizou o perito contratado pela Folha. O Estadão, menos enfático, também contratou perícia e encontrou problemas no àudio, mas adotou uma posição mais objetiva do ponto de vista político: neste momento, em que pese a gravidade das denúncias, é melhor para a economia do País a manutenção de Temer no Planalto e a retomada do esforço pelas reformas, principalmente as da Previdência e trabalhista.

 A explicação menos fantasiosa seria a de que Globo e jornais paulistas estariam em discordância justamente sobre a condição de Temer de conduzir as reformas: para a Globo, a denúncia viria à tona de todo modo e isso tiraria do governo a capacidade de aprovar sua pauta econômica; para a Folha, a mudança de comando atrasará ainda mais as reformas.

(O título deste post é um verso da canção “Conheço o meu lugar”, de Belchior, que morreu em 30 de abril)

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Política, direitos humanos, feminismo, economia, mundo