Isso é Brasil
1BB34097-F786-44E7-9A1A-E8A05C0914DB
Burger
Isso é Brasil
1BB34097-F786-44E7-9A1A-E8A05C0914DB
Burger
Isso é Brasil
ic-spinner
Todo mundo tem uma história para contar
Encontre as melhores histórias para ler e autores para seguir. Inspire-se e comece a escrever grandes histórias sozinho(a) ou com seus amigos. Compartilhe e deixe o mundo conhecê-las.

Roubaram tudo. Até os ossos de Garrincha

 

Colaborar com amigos em assuntos que você ama
Pedir coautoria ▸

Roubaram os ossos de Garrincha. Ou, se não roubaram, negligenciaram, sumiram com eles. O fato é que eles desapareceram do cemitério de Magé, no Rio, onde estavam enterrados.

Roubaram tudo. Até os ossos de Garrincha

 O incidente é a mais perfeita tradução do Brasil de hoje. Acabaram com tudo. Roubaram tudo, até os ossos do Mané.

 Difícil entender o que alguém poderia ganhar violando uma sepultura e tirando dela os restos de um homem que encarnou durante toda a sua vida a ingenuidade, a alegria e uma certa inocência quase infantil do brasileiro mais humilde. No entanto é fácil perceber o quanto o simbolismo é forte: roubaram tudo, até a inocência.

 Ainda que não fosse pela gravidade das revelações sobre nossos costumes políticos, se ainda nos tivesse sobrado algum ânimo - uma última dose de disposição -, o sumiço da ossada de Garrincha seria motivo suficiente para que a gente parasse tudo, em todo o País, do Oiapoque ao Chuí, se armasse de baldes, vassouras e escovões e promovesse a grande e catártica faxina nacional antes de começarmos a fazer qualquer coisa outra vez.

 Mas isso não vai acontecer. Não sabemos que destino teve os ossos, incluindo os das pernas tortas. Só sabemos, resignados, que roubaram tudo. Até os ossos do Mané.

   

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  

O quadro que dói mais

O quadro que dói mais
Colaborar com amigos em assuntos que você ama
Pedir coautoria ▸

Deve ter notado o usuário mais assíduo aqui deste Storia Brasil que há um mês tenho escolhido como título dos meus posts versos de canções imortalizadas por Belchior, o cantor e compositor cearense morto em 30 de abril. Obviamente trata-se de homenagem de fã, que cresceu e passou a adolescência ouvindo não só Belchior, como também aquela que pode ser considerada a mais genial safra de compositores da música popular brasileira - forçada aos subterfúgios poéticos para escapar da censura imposta por uma ditadura que assentou solidamente as bases do regime político corrupto e fisiológico que ameaça hoje nos engolir.

 Mas que relação poderia ter a obra de Belchior, ele mesmo um artista controvertido, intencionalmente “desengajado” e de ações duvidosas no aspecto pessoal - como qualquer ser humano, aliás -, com textos de comentários políticos dirigidos a uma rede social? Nada. E tudo ao mesmo tempo.

  As canções do rapaz latino-americano sem dinheiro no banco não faziam denúncias explícitas dos anos de chumbo como as da geração que lhe antecedeu, mas são ferramentas que demonstram a disposição de uma sociedade que não via à frente outro caminho que não fosse o da extraordinária felicidade coletiva a partir do exato momento que a redemocratização fosse colocada em marcha. Que parecia determinada a não morrer este ano, como morrera no ano passado.

 A obra de Belchior - recheada de referências a Beatles, Rolling Stones, Bob Dylan - era uma espécie de marcador de carbono 14 da vontade de reverter o desespero que era moda em 76. Falava de amor, mas embutia um lirismo rebelde que fatalmente deveria levar à retirada do bode do meio da sala e ao consequente nirvana coletivo ao qual éramos vocacionados.  

 Pois Belchior morreu aos 70 anos, ouvindo música, quase recluso e voluntariamente exilado a mais de 4 mil quilômetros do local onde nasceu. Deve ter constatado nos últimos anos que o desespero de 76 não era exatamente um modismo. E que - como é perversa a juventude de nossos corações - eram falsas as ilusões de que éramos o país do futuro e, como sociedade, um amanhã inexoravelmente brilhante nos esperava. Que ainda somos os mesmo e vivemos como nossos pais.   

Você leu a pasta de história
Story cover
escrita por
Writer avatar
tudoexplicado
Política, direitos humanos, feminismo, economia, mundo