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A verdade como vítima

TudoExplicado
há 10 meses1 visualizações
A verdade como vítima
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Por Roberto Lameirinhas

Jornais adoram histórias de grande impacto emocional e essa tendência ao sensacionalismo se aprofundou com a popularização da internet. Os campeões de audiência na rede usam e abusam do apelo à morbidez, à sexualidade e outras emoções baratas. No final do século passado, grandes publicações passaram a se policiar no sentido de evitar o sensacionalismo na busca de credibilidade e precisão. Era uma forma de se diferenciar dos tabloides popularescos, que batiam recordes de vendas, mas tinham dificuldade na atração de grandes anunciantes.

Na semana passada, uma dessas notícias dramáticas e sensacionais começou a tomar conta dos sites de internet, pouco antes de vazar para páginas de diários considerados sérios. Segundo esses relatos, pais de família da cidade de Aleppo, na Síria, estavam consultando líderes religiosos islâmicos em busca de “autorização” para matar suas filhas como forma de evitar que elas fossem estupradas por soldados do Exército do ditador Bashar Assad, que lutam para retomar a cidade. A notícia era “ilustrada” por mensagens suicidas de mulheres moradoras de Aleppo publicadas em redes sociais.

Aleppo vive seu drama no fogo cruzado entre os homens de Assad, milícias que se opõem a ele e jihadistas do Estado Islâmico pelo menos desde 2012. As batalhas pelo controle da cidade, que já foi a maior da Síria, são sangrentas e as partes envolvidas no conflito - o ditador, os chefes tribais da oposição e os líderes do Estado Islâmico - são realmente capazes de perpetrar atrocidades inimagináveis à população civil. O problema, no caso específico dos estupros e suicídios publicados na semana passada, era que nenhum elemento poderia comprovar a autenticidade dos relatos.

A notícia em questão teve origem numa mensagem postada no Facebook por um homem de origem síria que morava na Grã-Bretanha e fotos e imagens que se replicaram a partir do relato inicial eram na verdade registros antigos da época da guerra do Afeganistão, Iraque e Iêmen.

É atribuída a um ex-governador da Califórnia, Hiram Johnson, que nasceu no fim do século 19, a frase segundo a qual “a primeira vítima da guerra é a verdade”. Nas guerras atuais, repórteres independentes são raros no front. Na verdade, até mesmo soldados são cada vez menos visíveis nas trincheiras - com combates sendo travados por pilotos de drones que movem joysticks a milhares de quilômetros de distância. Nestas circunstâncias, a propaganda - como observou Johnson - acaba ganhando importância semelhante à dos tanques.

Aleppo é um símbolo forte neste contexto, uma vez que revela um novo tabuleiro geopolítico que envolve não só o sangrento regime sírio e sua fragmentada oposição, mas também a Rússia, os EUA e seus aliados europeus e o Estado Islâmico.

Pouco tempo depois dos ataques do 11 de Setembro, um picareta em escala global conseguiu mobilizar a mídia e boa parte da comunidade internacional com a fantasiosa história dos armazéns de armas químicas e biológicas e das bases da rede terrorista Al-Qaeda no território iraquiano, então governado pelo ditador Saddam Hussein. Os relatórios minuciosos do Conselho Nacional Iraquiano, uma ONG de oposição a Saddam fundada e mantida em Londres sob a liderança de Ahmed Chalabi, conferiram uma chancela de legitimidade à ofensiva americana ao Iraque de abril de 2003.

Saddam Hussein certamente seria capaz de usar esse arsenal de armas de destruição maciça contra seus inimigos, caso julgasse necessário. Mas os relatórios de Chalabi se mostraram mais falsos do que cédulas de R$ 300. Assim como os laços entre a rede de Osama bin Laden e o ditador iraquiano. Chalabi também tinha prometido mobilizar 10 mil homens para enfrentar a eventual resistência do Partido Baath, de Saddam, após a invasão americana. Esse reforço nunca chegou para a irritação do então secretário de Defesa dos EUA, Colin Powell, e de parte da mídia mundial, que se descobriu enganada pelo opositor iraquiano.

Um gabinete com a cara de Trump (1)

Por Roberto Lameirinhas

Sutileza nunca foi o forte de Donald Trump. Aliás, está longe de ser errado atribuir ao perfil de viés machista, elitista e xenofóbico a grande quantidade de votos que lhe permitiu conquistar a vitória no Colégio Eleitoral que define o presidente da República dos EUA - apesar de ter obtido uma votação nacional menor do que a da rival democrata, Hillary Clinton, em novembro.

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A escolha do gabinete que toma posse em janeiro parece sepultar as previsões de que o estilo apresentado pelo bilionário se restringiria à campanha eleitoral - e a gravidade do cargo político mais importante do planeta acabaria por moderar gestos e discursos.

Um gabinete com a cara de Trump (1)

A mais polêmica das nomeações de Trump, para o Departamento de Estado - considerado o segundo cargo mais poderoso de Washington -, ocorreu no começo da semana. O CEO da ExxonMobil, Rex Tillerson, visto como um radical de direita até para líderes do grupo ultraconservador Tea Party, foi o escolhido.

Tillerson, como representante da companhia petrolífera, fechou contratos com valores na casa dos bilhões de dólares com o presidente russo, Vladimir Putin, e é tido como um dos americanos mais próximos do nada transparente setor energético de Moscou - marcado, desde o fim da União Soviética, pela influência da então emergente máfia russa, casos de espionagem, assassinatos e sequestros. A proximidade com Putin resultou na concessão ao americano da mais alta comenda que a Rússia pode conceder a um estrangeiro.

Importante lembrar que a indicação de Tillerson se deu em meio a uma onda de suspeitas investigadas por várias agências americanas da ação de hackers russos para influenciar - em favor de Trump - as eleições americanas.

Figura ascendente no Partido Republicano e rival de Trump nas primárias para as eleições de novembro, o senador Marco Rubio não poupou a escolha do presidente eleito. “Ser um ‘amigo de Vladimir (Putin)’ não é um atributo que eu esperava de um secretário de Estado”, postou em sua conta no Twitter.

Fontes próximas a Trump declararam a jornais americanos que a escolha se deu por recomendação da secretária de Estado do governo de George W. Bush, Condoleezza Rice, e do secretário de Defesa de Bush e de Barack Obama, Robert Gates. O problema é que tanto Condoleezza quanto Gates prestam consultoria à ExxonMobil. “Tillerson paga Rice e Gates por ‘consultoria’ e eles, em troca, recomendam-no a Trump. Bem-vindos ao terreno pantanoso, senhoras e senhores”, comentou, em seu site, a revista Mother Jones, especializada em denúncias sobre a influência de corporações sobre o governo americano.

A escolha de Tillerson por Trump ocorreu ainda no calor de protestos da China contra a decisão do presidente eleito de enviar sinais de que poderia reconhecer a independência de Taiwan - tema delicadíssimo na relação com a China, que considera a ilha uma província rebelde. Trump deu de ombros para a reação de Pequim, dando a entender que fará pouco para evitar o confronto diplomático entre as duas potências.

Caso siga à risca a linha traçada por Trump durante a campanha eleitoral, a política externa comandada por Tillerson deve ainda afastar-se da linha do multilateralismo seguida por Obama nos últimos oito anos. Além do polêmico muro que prometeu erguer na fronteira com o México para conter a imigração ilegal, a futura administração americana deve contestar tratados de comércio - como o Nafta, com México e Canadá, e o abrangente Tratado Trans-Pacífico.

Deve ainda adotar posições mais conservadoras em órgãos da ONU e da Otan. E, como pode deixar óbvia a escolha de um homem do petróleo para o comando de sua diplomacia, rever as metas do Acordo de Paris para a redução de emissão de carbono.

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