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Das platitudes de cada dia

Roberto Lameirinhas
há 6 meses135.7k visualizações

Por Roberto Lameirinhas

Certo, certo. Às vezes é difícil mesmo preencher as linhas que faltam para deixar no tamanho aquele texto de jornal ou apresentar alguma consideração para completar aqueles intermináveis segundos de comentários em programas de rádio e TV. Mas o volume de platitudes pronunciadas no Brasil e fora dele pelos chamados “analistas internacionais” se ampliou de forma dramática nos últimos dias, com o ataque de mísseis dos EUA a uma base das forças pró-governo da Síria.

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Das platitudes de cada dia

Base síria atacada pelos EUA em imagem do Departamento de Defesa 

Não é culpa apenas dos acadêmicos e dos “jornalistas especializados”. Leitores, ouvintes e espectadores já não se satisfazem somente com os fatos e anseiam pelo “jogar para a frente”, pelo “o que virá depois”, pelos “cenários possíveis”. E aí vem a enxurrada de “é um ataque de consequências imprevisíveis” e “só o tempo dirá quem ganha e quem perde”. Li outro dia a conclusão de que “a Síria é a Síria e a Coreia do Norte é a Coreia do Norte”. 

 Ok, amigo, isso eu já sabia. Exceto por algumas coisas - como o aumento do meu imposto a pagar e a virada do tempo quando chego à praia -, o futuro tem mesmo essa tendência a ser incerto.

 E não há modelos - históricos, matemáticos ou astrofísicos - que possam ser aplicados de forma a produzir uma sequência lógica de eventos. Aí surgem as “revelações” por parte dos “especialistas”, principalmente os que povoam os programas jornalísticos da TV americana: “(Bashar) Assad pertence à seita alauita do Islã”; “Rússia e Síria são aliados históricos”; “Israel acompanha com preocupação a escalada da tensão”. Há uma tentativa de convencer o interlocutor de que ter conhecimento dessas informações confere erudição incontestável do analista - que o torna algo que uma amiga minha chama de “especialista nesses paranauê aí”. Mas são fatos que se constituem no contexto do evento, e não fenômenos capazes de alterar suas consequências.    

 Fiquemos no exemplo citado de intervenções americanas. É lugar comum dizer que a ação liderada pelos EUA no Afeganistão “criou um vácuo de poder” após a queda do regime do Taleban, o que teria aberto uma luta sangrenta entre os comandantes mujahedin locais. Mas o fim do reinado do Taleban não criou nada: as estimadas 1.500 facções que historicamente disputam o poder no país - inclusive durante a era do Taleban - seguem fazendo isso. Dizer que haveria luta pelo domínio do território não era uma previsão, era apenas a constatação da continuidade de uma situação de séculos. É algo que em jornalismo se convencionou chamar de “notícia”, de “factual”, não de análise.

 No caso Síria-Assad/EUA-Trump/Rússia-Putin, o tom dos “analistas” ganhou certa gravidade, como se realmente Washington e Moscou estivessem dispostos a lançar mão de seus códigos nucleares para assegurar a manutenção de suas respectivas influências na região do Eufrates.

Trump e o xadrez sírio

Por Roberto Lameirinhas

Donald Trump faz o mais ousado movimento no tabuleiro do xadrez sírio - e provavelmente a ação de maior aprovação dentro e fora dos EUA desde que chegou ao poder em janeiro - ao lançar a série de ataques com mísseis Tomahawk contra bases militares das forças leais ao ditador Bashar Assad. A ordem de ataque é surpreendente, sobretudo, por duas razões: 1. Envolve mais profundamente os militares americanos num atoleiro que pode se mostrar ainda mais pantanoso do que os do Afeganistão, Iraque, Líbia e Iêmen, apesar do discurso publicamente contrário a intervenções armadas unilaterais de alto custo para Washington; 2. A medida desafia frontalmente a Rússia de Vladimir Putin - supostamente aliado externo preferencial de Trump -, que ajuda Assad a combater opositores de seu regime sob o pretexto de enfrentar terroristas do Estado Islâmico.

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Trump e o xadrez sírio

 Enquetes informais das redes nacionais de TV dos EUA, como a ABC e a NBC, normalmente acusadas por Trump de espalhar “notícias falsas” para causar danos à imagem dele, porém, mostraram já na quinta-feira (6) à noite amplo apoio popular à decisão do presidente. Pesaram para isso as chocantes imagens dos dois dias anteriores de crianças mortas por ataque com gás sarin a Idlib, provavelmente lançado pelas forças de Assad.

 A ordem de Trump coincide ainda com outro evento simbolicamente importante da ainda incipiente agenda de política externa do presidente bilionário. Os ataques tiveram início no momento em que Trump recebia a visita do presidente da China, Xi Jinping.

 Desde a campanha eleitoral do ano passado, o republicano ameaça dar início a uma guerra comercial contra Pequim, que exporta para os EUA um volume três vezes maior do que importa - uma situação que, na visão do líder americano, debilita a competitividade da indústria americana. Trump também pressiona a abertamente a China para que convença a Coreia do Norte a conter seu programa nuclear, potencial ameaça para a segurança de Washington.

 A questão central, no entanto, é que a situação política síria hoje é muito mais imprevisível do que eram, na época em que foram alvos de bombardeios americanos, o Afeganistão ou o Iraque. No país estão em luta uma oposição a Assad totalmente heterogênea, que inclui alauítas apoiados por xiitas e milícias armadas sunitas, combatentes do Estado Islâmico que pretendem incorporar o território sírio ao califado que pretendem restaurar e milicianos e soldados regulares pró-Assad.

 Além disso, há a interferência de potências estrangeiras, como Rússia e Turquia, e o drama crescente de refugiados que se aventuram em jornadas letais na direção da Europa Ocidental. Em caso de queda do regime, não há nenhuma certeza sobre qual facção ocupará o vácuo do poder num território às portas do continente europeu - num momento em que a vizinha Turquia está longe de viver seu período de maior estabilidade política - e com fronteira com países-chave do Oriente Médio, como Israel, Iraque e Líbano. 

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Política, direitos humanos, feminismo, economia, mundo