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Fatos alternativos

Por Roberto Lameirinhas

Depois da “pós-verdade”, surge o “fato alternativo”. Mais do que simples eufemismos acadêmicos, os novos conceitos se destinam mesmo a dar verniz de realidade ao que normalmente se consideraria pura mentira. A era de Donald Trump na presidência dos Estados Unidos se inaugura com base nesses alicerces falaciosos.

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O termo em inglês “alternative facts” fez sua estreia em rede nacional de TV nos EUA quando uma assessora de Trump, Kellyanne Conway, defendeu seu colega, o secretário de imprensa da Casa Branca, Sean Spicer, durante uma entrevista no programa “Meet the Press”, da emissora NBC. Spicer no dia da posse de Trump, tinha acusado a “mídia do establishment” de Washington de minimizar o público que compareceu à capital americana para a cerimônia de transmissão de cargo. Para Spicer, imagens que comparavam a presença de público na posse de Obama em 2009 com a de Trump eram produto da má vontade de jornalistas e meios de comunicação com o republicano.

Fatos alternativos

A comparação que irritou Donald Trump

Na TV, confrontada com fotos das duas cerimônias, Kellyanne não fez concessões à realidade óbvia. Disse que as declarações de Spicer não eram falsas, mas sim se baseavam em “fatos alternativos”, alegando que a audiência pela internet da posse de Trump era a maior da História. O fato não é só “alternativo” como, com a tecnologia atual, impossível de ser comprovado. Era uma convicção.

Bem, à posse de Trump se seguiram maciças manifestações de mulheres em protesto contra posições e declarações do presidente recém-empossado. Coube ao próprio bilionário, já investido do cargo, responder pelo Twitter.

Dizia que tinha vencido a eleição - no Colégio Eleitoral - por diferença avassaladora e só não teve mais votos populares (Hillary Clinton obteve quase 3 milhões de votos a mais do que Trump na eleição nacional) porque sua adversária foi beneficiada pela presença de eleitores ilegais. Uma declaração clássica de “fato alternativo”. A eleição indireta de Trump não teve nada de massacre - foi decidida por um punhado de votos em Estados-chave e com grande número de delegados no Colégio Eleitoral, como Flórida e Michigan, e não se comprovou legalmente a afirmação de que votos ilegais tivessem favorecido Hillary.

Com o apoio da mais hidrofóbica extrema direita dos EUA - que inclui de membros da organização racista Ku Klux Klan a fundamentalistas cristãos -, Trump inaugurou sua administração levando adiante sua cruzada contra a universalização da assistência de saúde implementada por Barack Obama, negando os efeitos do aquecimento global e reforçando o nacionalismo e o protecionismo americanos com a retirada do país de acordos de comércio internacionais. Os argumentos, com base nos “fatos alternativos” e na “pós-verdade”, são que as medidas contrárias ao livre-mercado farão os “EUA fortes de novo”. Não levam em consideração a realidade de que o país mais rico e mais poderoso do planeta nunca deixou essa posição.

Venezuela bipolar

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Por Roberto Lameirinhas

Poucos anos atrás, quando Hugo Chávez ainda mandava e desmandava no país vizinho, o jornalista Teodoro Petkof, um dos mais respeitados analistas políticos venezuelanos me disse em entrevista que “a Venezuela não é uma ditadura, mas também não é uma democracia”. Na época, por volta de 2010, o país ainda vivia a inércia da prosperidade causada pela alta do preço internacional do petróleo, que injetou pelo menos US$ 1 trilhão na economia venezuelana num período de mais ou menos dez anos.

Hoje, sem a liderança política de Chávez e atravessando o miserê causado por um modelo econômico totalmente dependente de um mercado petrolífero em baixa, o conceito que melhor descreve a situação política venezuelana ainda não é nem democracia nem ditadura, mas uma bagunça institucional generalizada, da qual governo e oposição tentam tirar proveito - à custa da população cada vez mais empobrecida e desabastecida.

O cenário de confusão institucional não é tão recente. A Constituição de 1999, referendada num período em que Chávez mantinha alta popularidade, não coíbe a interferência de um poder do Estado no outro e dá margem a casuísmos em decorrência de interpretações por um tribunal supremo - hoje totalmente controlado pelos chavistas.

Ao longo do período que se seguiu à chegada de Hugo Chávez ao poder, em 1998, o país já foi palco de inúmeros episódios grotescos, que inclui sabotagens econômicas, manipulações dos meios de comunicação, cinismo político de parte a parte, animosidade com vizinhos e uma tentativa frustrada de golpe de Estado, em 2002. Mas o clima se tornou quase insustentável a partir da morte do “comandante” e a chegada ao poder de Nicolás Maduro, em 2013.

Ao contemplar os números atuais de inflação anual superior a 1.000% (não há divulgação de cifras oficiais) e escassez de produtos, muitos analistas tendem a considerar que o trabalho da oposição é melhor do que o do governo. Mas foi justamente a atuação desastrosa dos líderes políticos que hoje fazem oposição ao chavismo que permitiu a ascensão de Chávez, principalmente entre os anos 80 e 90 - quando simplesmente ignorou a chegada em massa de miseráveis de todo o interior na direção da capital, Caracas.

Nas últimas semanas, a oposição - que tem maioria no Legislativo - decidiu que poderia declarar o “abandono de cargo” de Maduro, simplesmente porque entendiam que ele não cumpriu, no governo, as promessas que fez na campanha de 2013 de pôr fim à crise econômica e de falta de alimentos. O tribunal constitucional, obviamente, rejeitou a tese de que o não cumprimento de promessas de campanha justificaria a destituição do presidente. Ao mesmo tempo, a corte desconheceu a autoridade da Assembleia Nacional sobre qualquer tema, em razão de os deputados terem dado posse a três parlamentares cuja eleição tinha sido impugnada pela Justiça Eleitoral.

Também em desafio à Constituição, Maduro fez seu discurso anual de “memoria y cuenta” - uma espécie de Estado da União - diretamente ao Judiciário, e não ao Legislativo.

Isso tudo em meio ao processo de substituição das notas do bolívar - a moeda nacional -, iniciado no fim de 2016 como consequência da inflação galopante. Por pelo menos três vezes, Maduro prorrogou a vigência da validade das cédulas de 100 bolívares (as maiores, até dezembro), que valiam menos de US$ 0,10 no câmbio paralelo, em razão do atraso na entrega das novas notas, de até 20.000 bolívares. O bolívar se desvalorizou tanto que os comerciantes já não contavam as cédulas por unidade, mas sim por peso.

“É serio: não entendemos mais nada”, questiona o site satírico venezuelano El Chiguire Bipolar. “Maduro é ou não é presidente? E as notas (de bolívar)? Valem ou não valem.”

Enquanto não se sabe quem ganhará a queda de braço entre governo e oposição, o certo é que os perdedores do processo estão nas filas de mercados e farmácias de Caracas atrás de produtos e medicamentos caros e escassos.

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Política, direitos humanos, feminismo, economia, mundo