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Trump e o xadrez sírio

Por Roberto Lameirinhas

Donald Trump faz o mais ousado movimento no tabuleiro do xadrez sírio - e provavelmente a ação de maior aprovação dentro e fora dos EUA desde que chegou ao poder em janeiro - ao lançar a série de ataques com mísseis Tomahawk contra bases militares das forças leais ao ditador Bashar Assad. A ordem de ataque é surpreendente, sobretudo, por duas razões: 1. Envolve mais profundamente os militares americanos num atoleiro que pode se mostrar ainda mais pantanoso do que os do Afeganistão, Iraque, Líbia e Iêmen, apesar do discurso publicamente contrário a intervenções armadas unilaterais de alto custo para Washington; 2. A medida desafia frontalmente a Rússia de Vladimir Putin - supostamente aliado externo preferencial de Trump -, que ajuda Assad a combater opositores de seu regime sob o pretexto de enfrentar terroristas do Estado Islâmico.

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Trump e o xadrez sírio

 Enquetes informais das redes nacionais de TV dos EUA, como a ABC e a NBC, normalmente acusadas por Trump de espalhar “notícias falsas” para causar danos à imagem dele, porém, mostraram já na quinta-feira (6) à noite amplo apoio popular à decisão do presidente. Pesaram para isso as chocantes imagens dos dois dias anteriores de crianças mortas por ataque com gás sarin a Idlib, provavelmente lançado pelas forças de Assad.

 A ordem de Trump coincide ainda com outro evento simbolicamente importante da ainda incipiente agenda de política externa do presidente bilionário. Os ataques tiveram início no momento em que Trump recebia a visita do presidente da China, Xi Jinping.

 Desde a campanha eleitoral do ano passado, o republicano ameaça dar início a uma guerra comercial contra Pequim, que exporta para os EUA um volume três vezes maior do que importa - uma situação que, na visão do líder americano, debilita a competitividade da indústria americana. Trump também pressiona a abertamente a China para que convença a Coreia do Norte a conter seu programa nuclear, potencial ameaça para a segurança de Washington.

 A questão central, no entanto, é que a situação política síria hoje é muito mais imprevisível do que eram, na época em que foram alvos de bombardeios americanos, o Afeganistão ou o Iraque. No país estão em luta uma oposição a Assad totalmente heterogênea, que inclui alauítas apoiados por xiitas e milícias armadas sunitas, combatentes do Estado Islâmico que pretendem incorporar o território sírio ao califado que pretendem restaurar e milicianos e soldados regulares pró-Assad.

 Além disso, há a interferência de potências estrangeiras, como Rússia e Turquia, e o drama crescente de refugiados que se aventuram em jornadas letais na direção da Europa Ocidental. Em caso de queda do regime, não há nenhuma certeza sobre qual facção ocupará o vácuo do poder num território às portas do continente europeu - num momento em que a vizinha Turquia está longe de viver seu período de maior estabilidade política - e com fronteira com países-chave do Oriente Médio, como Israel, Iraque e Líbano. 

De “golpe” em “golpe”

De “golpe” em “golpe”
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Por Roberto Lameirinhas

George Orwell dizia que os vencedores sempre tinham a prerrogativa de perpetuar sua versão da história. Há quem rejeite a afirmação - e aforismo generalistas são mesmo para que sejam postos em dúvida. Mas três episódios ocorridos nos últimos dias em três países sul-americanos diferentes têm sido relatados sob óticas distintas, dependendo da fonte. Como os vencedores desses processos ainda não estão completamente definidos, é prudente duvidar de todas as versões e de todas as histórias.

 O primeiro caso ocorreu na Venezuela, onde o Tribunal Supremo de Justiça (TSJ) suspendeu os poderes da Assembleia Nacional - a câmara única do Legislativo do país, dominado pela oposição antichavista. Levando-se em conta que o TSJ, corte máxima da Venezuela, é completamente subserviente ao Executivo, a maior parte dos analistas consultados pela mídia ocidental qualificou a ação de “golpe”. E golpe é mesmo a designação que se dá à ação de um poder que se sobrepõe a outro, ainda que sob alegações frágeis como desobediência de ordem judicial ou… sei lá… outra alegação frágil qualquer.

 Verdade também que não faltam golpistas na Venezuela. Falta sabonete, arroz, açúcar, leite, papel higiênico, mas golpista não falta. Mas é bom ponderar que nem todos eles estão no Palácio Miraflores. Por exemplo, os mesmos deputados cassados dias atrás buscavam, no começo do ano, meios para votar a destituição de Nicolás Maduro em razão de um “abandono de cargo” que nunca existiu. E boa parte da oposição venezuelana está no nível “ministério do Temer” na escala de apreço pela ética política e democracia. Muitos deles exerciam posições de poder antes da eleição de Hugo Chávez, em 1998, quando os venezuelanos sofriam com problemas muito parecidos com os que sofrem hoje: escassez, fome, miséria, hiperinflação, desemprego e abusos de direitos humanos.

 Mas Maduro recuou e a Assembleia voltou a funcionar. De repente, as atenções da mídia do continente se voltaram para as possíveis sanções da Organização dos Estados Americanos (OEA) - cuja importância é normalmente ridicularizada por essa mesma mídia - contra a Venezuela. As ações da OEA ficaram na base do “manifesta preocupação” e “faz enérgica chamada ao diálogo”, e a vida seguiu.

 O segundo caso, no Paraguai, foi mais confuso. Inicialmente, uma multidão de vândalos do estilo “black blocs” tinha ateado fogo no Senado para impedir a tramitação de uma proposta que permitiria ao presidente Horacio Cartes candidatar-se à reeleição. Pouco tempo depois, soube-se que o ex-presidente Fernando Lugo, deposto em 2012, também apoiava a proposta de reeleição. Aí, os vândalos se converteram em “cidadãos indignados” que impediram um “golpe” contra a Constituição paraguaia.

 No terceiro caso, Lenín Moreno, candidato apoiado pelo presidente Rafael Correa, venceu o segundo turno da eleição presidencial de domingo no Equador, derrotando por margem estreita um banqueiro de retórica política ainda mais estreita. Na interpretação de uma emissora brasileira, porém, o triunfo de Moreno se deveu a uma “fraude eleitoral”. Quem tinha acompanhado o processo no Equador por meio de TVs de outros países imaginava uma grande revelação do repórter enviado a Quito para, enfim, desmascarar a roubalheira dos bolivarianos liderados por Correa. Mas o intrépido jornalista cobria a eleição equatoriana de Washington e a “evidência” da “fraude” era que uma das pesquisas de boca de urna tinha previsto a vitória do banqueiro por dois pontos porcentuais de diferença. Convenientemente, claro, ele omitiu que outras duas bocas de urna previam o triunfo de Moreno.  

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Política, direitos humanos, feminismo, economia, mundo