Mapa Mundi
1BB34097-F786-44E7-9A1A-E8A05C0914DB
Burger
Mapa Mundi
1BB34097-F786-44E7-9A1A-E8A05C0914DB
Burger
Mapa Mundi
ic-spinner
Todo mundo tem uma história para contar
Encontre as melhores histórias para ler e autores para seguir. Inspire-se e comece a escrever grandes histórias sozinho(a) ou com seus amigos. Compartilhe e deixe o mundo conhecê-las.

Venezuela bipolar

Venezuela bipolar
Colaborar com amigos em assuntos que você ama
Pedir coautoria ▸

Por Roberto Lameirinhas

Poucos anos atrás, quando Hugo Chávez ainda mandava e desmandava no país vizinho, o jornalista Teodoro Petkof, um dos mais respeitados analistas políticos venezuelanos me disse em entrevista que “a Venezuela não é uma ditadura, mas também não é uma democracia”. Na época, por volta de 2010, o país ainda vivia a inércia da prosperidade causada pela alta do preço internacional do petróleo, que injetou pelo menos US$ 1 trilhão na economia venezuelana num período de mais ou menos dez anos.

Hoje, sem a liderança política de Chávez e atravessando o miserê causado por um modelo econômico totalmente dependente de um mercado petrolífero em baixa, o conceito que melhor descreve a situação política venezuelana ainda não é nem democracia nem ditadura, mas uma bagunça institucional generalizada, da qual governo e oposição tentam tirar proveito - à custa da população cada vez mais empobrecida e desabastecida.

O cenário de confusão institucional não é tão recente. A Constituição de 1999, referendada num período em que Chávez mantinha alta popularidade, não coíbe a interferência de um poder do Estado no outro e dá margem a casuísmos em decorrência de interpretações por um tribunal supremo - hoje totalmente controlado pelos chavistas.

Ao longo do período que se seguiu à chegada de Hugo Chávez ao poder, em 1998, o país já foi palco de inúmeros episódios grotescos, que inclui sabotagens econômicas, manipulações dos meios de comunicação, cinismo político de parte a parte, animosidade com vizinhos e uma tentativa frustrada de golpe de Estado, em 2002. Mas o clima se tornou quase insustentável a partir da morte do “comandante” e a chegada ao poder de Nicolás Maduro, em 2013.

Ao contemplar os números atuais de inflação anual superior a 1.000% (não há divulgação de cifras oficiais) e escassez de produtos, muitos analistas tendem a considerar que o trabalho da oposição é melhor do que o do governo. Mas foi justamente a atuação desastrosa dos líderes políticos que hoje fazem oposição ao chavismo que permitiu a ascensão de Chávez, principalmente entre os anos 80 e 90 - quando simplesmente ignorou a chegada em massa de miseráveis de todo o interior na direção da capital, Caracas.

Nas últimas semanas, a oposição - que tem maioria no Legislativo - decidiu que poderia declarar o “abandono de cargo” de Maduro, simplesmente porque entendiam que ele não cumpriu, no governo, as promessas que fez na campanha de 2013 de pôr fim à crise econômica e de falta de alimentos. O tribunal constitucional, obviamente, rejeitou a tese de que o não cumprimento de promessas de campanha justificaria a destituição do presidente. Ao mesmo tempo, a corte desconheceu a autoridade da Assembleia Nacional sobre qualquer tema, em razão de os deputados terem dado posse a três parlamentares cuja eleição tinha sido impugnada pela Justiça Eleitoral.

Também em desafio à Constituição, Maduro fez seu discurso anual de “memoria y cuenta” - uma espécie de Estado da União - diretamente ao Judiciário, e não ao Legislativo.

Isso tudo em meio ao processo de substituição das notas do bolívar - a moeda nacional -, iniciado no fim de 2016 como consequência da inflação galopante. Por pelo menos três vezes, Maduro prorrogou a vigência da validade das cédulas de 100 bolívares (as maiores, até dezembro), que valiam menos de US$ 0,10 no câmbio paralelo, em razão do atraso na entrega das novas notas, de até 20.000 bolívares. O bolívar se desvalorizou tanto que os comerciantes já não contavam as cédulas por unidade, mas sim por peso.

“É serio: não entendemos mais nada”, questiona o site satírico venezuelano El Chiguire Bipolar. “Maduro é ou não é presidente? E as notas (de bolívar)? Valem ou não valem.”

Enquanto não se sabe quem ganhará a queda de braço entre governo e oposição, o certo é que os perdedores do processo estão nas filas de mercados e farmácias de Caracas atrás de produtos e medicamentos caros e escassos.

O correto e o politicamente correto

TudoExplicado
há 9 meses3 visualizações
O correto e o politicamente correto
Colaborar com amigos em assuntos que você ama
Pedir coautoria ▸

Trump: "Eu, francamente, não tenho tempo para ser politicamente correto" 

Por Roberto Lameirinhas

Às vezes o que se chama hoje de “politicamente correto” nada mais é do que o próprio termo indica: a atitude menos ofensiva a se adotar diante de situações que envolvem crenças religiosas, raça, gênero, questões ambientais, relações internacionais e um sem número de outros elementos intrínsecos de sociedades que se pretendem diversas e democratas. A reação ao exagero na aplicação do conceito pode ser legítima na medida em que ela impõe travas na amplitude do debate, mas a oposição radical a ele quase sempre deságua no discurso de ódio.

Conceitos acadêmicos tendem a sofrer distorções já no ambiente de estudos em que são criados. Ao Brasil, chegam trucidados.

Enquanto a “correção política” reconhece, por exemplo, no movimento feminista o mérito dos poucos avanços conquistados pelas mulheres nas últimas décadas, seus opositores atribuem às “feminazis” - termo cunhado em programas radiofônicos de comentários chulos dos EUA - a atual “opressão aos homens” brasileiros.

Assim como processos lentos e insuficientes de ação afirmativa em relação aos negros são tomados pelos combatentes do “politicamente correto” no Brasil como atos de “racismo reverso”, uma tese tão esdrúxula que não é levada a sério nem mesmo entre integrantes de grupos supremacistas brancos americanos.

Na esteira da oposição ferrenha à tese da correção política surgem as críticas aos “direitos humanos” - sem que se leve em conta o avanço civilizatório de sua instituição - e a ascendência de líderes protofascistas que fazem apologia à tortura e à discriminação. Em tempos de criminalidade alta e educação baixa, no âmbito interno, e onda de terror e xenofobia, no externo, a retórica da revolta com o politicamente correto é fácil e seu simplismo se dissemina rapidamente pela internet.

Fora do Brasil não é diferente. Na Europa, a reação ao politicamente correto tem mostrado sua força em países como França, Grã-Bretanha, Itália e Alemanha - onde a ultradireita vai crescendo na medida em que o tempo vai apagando da memória o terror do nazifascismo. Nos EUA, Donald Trump surgiu como o campeão no combate ao politicamente correto e, com sua campanha contra chineses, mexicanos e muçulmanos, acabou eleito presidente.

“Eu me recuso a ser politicamente correto”, disse Trump ao anunciar que expulsaria todos os muçulmanos dos EUA após um cidadão de origem afegã ter aberto fogo numa boate gay da Flórida, matando 49 pessoas - acusando Barack Obama e Hillary Clinton de terem colocado a correção política acima das necessidades de segurança do país ao ter aberto as portas a refugiados estrangeiros.

A maior parte dos americanos nunca tinham ouvido o termo “politicamente correto” antes de 1990, quando o New York Times publicou um artigo sobre o tema, assinado pelo repórter Richard Bernstein sobre a restrição do debate nas universidades do país com o aumento da pressão pelo conformismo e o discurso uniformizado da “ideologia não oficial da academia”. A direita política rapidamente instrumentalizou a tese, opondo-se à “forças poderosas que se esforçam para suprimir verdades inconvenientes da linguagem política” - como analisa artigo recente publicado pelo jornal britânico The Guardian. Não demorou para que insultos chulos das ruas surgissem na mídia conservadora: “Vadia”, “cadela”, “porco”, “veado”, etc.

No Brasil, o discurso anti-esquerdista e a situação política interna acrescentaram os termos “comuna” e “petralha” à lista de insultos. Em nome do combate ao politicamente correto, não faltou nem mesmo quem defendesse o assassino que divulgou um manifesto de misoginia antes de matar a ex-mulher, o filho de 8 anos e outras dez pessoas da mesma família numa festa de fim de ano em Campinas (SP) - sob o argumento de que ele vinha sendo “oprimido” pelo “sistema de justiça feminista”. Nem quem atacasse a vítima do espancamento de dois jovens violentos que tentaram bater em dois homossexuais numa estação de metrô de São Paulo no dia de Natal. E nem se considera aqui as comemorações públicas das mortes em chacinas de presídios.

Você leu a pasta de história
Story cover
escrita por
Writer avatar
tudoexplicado
Política, direitos humanos, feminismo, economia, mundo