POLÍTICA

Memória envergonhada

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Por Roberto Lameirinhas

Negra, de formação humanística impecável, que saiu da academia muito antes da adoção de política de cotas, Marlene Simões de Paula não é o tipo de pessoa que pode ser acusada daquilo que setores da sociedade brasileira - intoxicados pela política partidária - passaram a qualificar de “mimimi” nos últimos anos. Há décadas, foi minha chefe no Arquivo do Estadão, onde era uma das mais respeitadas profissionais. Nesta semana, Marlene postou no Facebook um desabafo em forma de lamento: “Isso não pode estar acontecendo no meu País.”

A notícia que indignou Marlene dizia respeito à Fazenda Santa Eufrásia, em Vassouras, no Estado do RJ, que recebe visitas diárias de turistas - recebidos pelos atuais proprietários usando roupas do período escravagista e servidos por negros vestidos como escravos. A Santa Eufrásia foi fundada em 1830 e seus donos, à época, ganharam notoriedade pela forma cruel com que tratavam os escravos que trabalhavam na lavoura.

Memória envergonhada

A fazenda escravocrata (Foto: Igor Alecsander/The Intercept)

A fazenda foi tombada pelo Iphan do Rio e o projeto de restauração para uso comercial por parte dos atuais proprietários - herdeiros de um coronel que comprou a Santa Eufrásia após a abolição da escravatura - foi aprovado em 2013. Mas o que causa mais perplexidade não só a Marlene como a outros cidadãos é que o local não é visto como uma lembrança sórdida de um período trágico da história do Brasil. Ao contrário, é celebrado nostalgicamente como símbolo de uma elite agrária que se orgulhava de prosperar à custa do sofrimento alheio.

Preservar ícones da tragédia humana é relativamente comum em todo o mundo, mas quase sempre a intenção de seus mantenedores é a de manter a memória para evitar a repetição da história. A cada ano, milhares de pessoas passam sob o pórtico com a inscrição “O trabalho liberta” de Auschwitz, na Polônia. Mas, por respeito à memória das vítimas, seria impensável uma encenação sobre o que ocorria ali no período nazista como ocorre na Santa Eufrásia.

Os donos da fazenda insistem na tese de que não há racismo na encenação. Pela reportagem publicada no site The Intercept, ficam a um passo da velha argumentação de que os negros locais devem agradecer pelo trabalho que a encenação gera. Enfim, não haveria razão para queixas - para “mimimi”.

Na década de 30, Sérgio Buarque de Holanda criticava em seu “Raízes do Brasil” a “cordialidade brasileira” que fundamenta e mascara situações racistas não só dos herdeiros da Santa Eufrásia. como também dos visitantes que se dispõem a pagar entre R$ 45 e R$ 65 para serem servidos pelos “escravos” - os proprietários preferem usar um eufemismo: “mucamas”.

Darcy Ribeiro gostava de exemplificar a situação do negro no País relatando um diálogo do pintor e crítico de arte Tomás Santa Rosa com um jovem, também negro, que se queixava das imensas barreiras que dificultavam a ascensão social dos negros. Santa Rosa ouviu a queixa com atenção e respondeu, comovido: “Compreendo perfeitamente seu caso, meu amigo. Eu também já fui negro.”