Nota de rodapé
1BB34097-F786-44E7-9A1A-E8A05C0914DB
Burger
Nota de rodapé
1BB34097-F786-44E7-9A1A-E8A05C0914DB
Burger
Nota de rodapé
ic-spinner
Todo mundo tem uma história para contar
Encontre as melhores histórias para ler e autores para seguir. Inspire-se e comece a escrever grandes histórias sozinho(a) ou com seus amigos. Compartilhe e deixe o mundo conhecê-las.

Na terra do pai do Estado Islâmico

Por Roberto Lameirinhas

Na terra do pai do Estado Islâmico
Colaborar com amigos em assuntos que você ama
Pedir coautoria ▸

Era janeiro de 2015 e a coalizão liderada pelos EUA já dominava o território iraquiano havia quase dois anos. O Iraque realizaria, poucos dias depois, as primeiras eleições legislativas em décadas sem que estivesse sob o domínio de Saddam Hussein e seu Partido Baath. Partimos, então, eu e o premiadíssimo repórter fotográfico Juca Varella na direção de Bagdá para cobrir o processo pelo “Estadão”. Antes, porém, havia uma escala de alguns poucos dias em Amã, capital da Jordânia, de onde partiria o voo da Royal Jordanian para o Iraque.

 A parada em Amã era necessária para que pegássemos os vistos de entrada no Iraque e para que fizéssemos uma rápida incursão à Zarqa, cidade natal do sanguinário líder radical islâmico Abu Musab al-Zarqawi - chefe do grupo Al-Qaeda da Mesopotâmia e do Levante, que nada mais era do que o embrião do Estado Islâmico.

 Zarqawi chamava a atenção por sua biografia, uma das mais curiosas entre os líderes de facções que espalhavam o terror na região naqueles dias. Ele havia aderido ao Islã radical depois da falência de seu estabelecimento em Zarqa, uma video-locadora. Não deixava de ser interessante a trajetória do fracassado microempresário que alugava fitas K7 até a liderança de uma milícia de inspiração religiosa que punia até com a morte quem promovesse qualquer reprodução da imagem humana - em filmes, fotos, pinturas ou esculturas.

 Zarqa fica a cerca de 30 quilômetros de Amã e Juca conhecia um motorista - vamos chamá-lo pelo nome fictício de Mohamed - que se dispunha a nos levar até lá. Juca tinha conhecido o motorista numa viagem anterior o que nos dava alguma segurança para a viagem.

 Na manhã em que partiríamos para Zarqa, porém, Mohamed apresentou-se no hotel receoso. Queria que desistíssemos da viagem alegando que ela seria muito arriscada. Obviamente, não desistimos. Falando algo parecido com inglês, Mohamed chorou - literalmente - a viagem toda. Dizia que o local estava cheio de agentes da polícia secreta, que ele poderia sofrer consequências depois que fôssemos embora, que poderia ser confundido com um terrorista, que tinha não sei quantos filhos pequenos, etc.

 Nos comprometemos a fazer a apuração no local o mais rápido possível. Na cidade de Zarqawi, conversamos com algumas pessoas que também não queriam falar a respeito do líder jihadista e ficamos sabendo que o edifício onde funcionava a locadora já não existia. Terminada a difícil apuração, retornamos ao carro onde Mohamed seguia chorando.

 E chorando continuou até o retorno a Amã. Mas agora o motivo não era mais o temor da inteligência jordaniana. “Tanto trabalho e o dono da companhia (de táxi) vai ficar com praticamente todo o valor que vocês me pagaram”, queixava-se. Lamentava-se tanto que várias vezes interrompia minha conversa com Juca a respeito da logística do trabalho. Ao chegar ao hotel, pensamos em dar US$ 10 a mais para ele, mas o choro só acabou quando o valor da gorjeta chegou ao US$ 20.

  

Tensão no deserto de Bin Laden

Tensão no deserto de Bin Laden
Colaborar com amigos em assuntos que você ama
Pedir coautoria ▸

Por Roberto Lameirinhas

Tinha sido uma viagem cansativa para chegar a Islamabad, a capital do Paquistão, e ainda havia um longo caminho até a fronteira com o Afeganistão, onde os EUA tinham iniciado, na véspera, a ofensiva de retaliação aos ataques de 11 de setembro de 2001, que ocorrera havia menos de um mês. Era o começo de uma cobertura que se estenderia pelos 40 dias seguintes e a única certeza que eu tinha era que precisava me aproximar da fronteira afegã no menor tempo possível.

 Por um preço altíssimo consegui uma passagem aérea de Islamabad para Quetta, cidade a cerca de 130 quilômetros da afegã Spin Boldak. O trajeto até Chaman, localidade fronteiriça ainda do lado paquistanês, seria feito de carro. A negociação do transporte foi intermediada por um fixer - um misto de guia e intérprete - que tinha sido recomendado por um colega.

  Um sedan Toyota esperava por mim e pelo fixer no aeroporto. Viajaríamos até Chaman por cerca de duas horas e passaríamos a noite na residência de xeque pashtun - a etnia majoritária tanto no Paquistão quanto no Afeganistão -, que negociaria com seus conhecidos da milícia Taleban minha entrada em território afegão na manhã do dia seguinte. Com a iminência do início dos ataques, consequência da recusa taleban a entregar seu hóspede Osama Bin Laden, quase todas as embaixadas afegãs pelo mundo tinham sido fechadas e eu não tinha um visto para entrar no país legalmente.

 Além do motorista, viajavam conosco um segurança armado e um empregado do xeque, todos conhecidos do meu fixer. Mal o Toyota começou a percorrer a estrada que atravessa o Deserto do Baluquistão, um dos passageiros acendeu um cigarro. Eu tinha parado de fumar cerca de quatro anos antes, mas tolerava sem maior incômodo a fumaça de tabaco. A questão, porém, era que o cheiro não era exatamente de tabaco.

 O baseado de haxixe passava por diversas mãos dentro do carro, incluindo as do motorista, enquanto minha tensão se elevava visivelmente, ao ponto de o fixer perceber e me tranquilizar, argumentando que aquilo era “normal”. Pela minha cabeça, no entanto, passava o roteiro do filme “O Expresso da Meia-Noite”, no qual um turista americano passa o diabo numa prisão turca.

 Eu era o único estrangeiro num carro fedendo a haxixe, num país onde até uma lata de cerveja é proibida, atravessando uma área próxima de um conflito internacional e levando alguns milhares de dólares em espécie e outros tantos em equipamento de comunicação. Bastava que uma autoridade qualquer nos parasse para que aqueles locais desconhecidos me entregassem como traficante de drogas ou espião ocidental - ou as duas coisas juntas.

 Eu ainda estava paralisado pelo medo quando o Toyota passou pelo grande portão da casa do xeque em Chaman. Além de mim, ele hospedava também uma equipe de TV alemã e um repórter americano, para quem contei a história da viagem.

 No meio da conversa, meu colega americano me ofereceu um Marlboro, sem saber de minha condição de ex-fumante. Pensei que depois de toda aquela tensão, um único cigarro não me faria retomar o antigo vício e aceitei a oferta. No dia seguinte, pouco antes de partir para a travessia da fronteira, atrasei o deslocamento de todo o grupo e pedi ao fixer que parasse no mercado para poder comprar dois pacotes de cigarros. Só conseguiria parar de fumar outra vez mais de dez anos depois. 

Você leu a pasta de história
Story cover
escrita por