POLÍTICA

O custo do discurso de ódio

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O custo do discurso de ódio

Por Roberto Lameirinhas

Acusado de mais de um caso de agressão a mulheres, herdeiro de um recente clã político fundado por um integrante da bancada da bala que se tornou inelegível após ser condenado por corrupção, o ex-secretário da Juventude Bruno Júlio é daquelas pessoas que gostam de bater no peito para se incluir entre os que se acreditam “cidadãos de bem”.

Acabou demitido do cargo no Executivo após declarar, de forma extemporânea e gratuita, que gostaria que houvesse “uma chacina por semana”, referindo-se às rebeliões carcerárias que deixaram mais de cem mortos no Amazonas e em Roraima nos primeiros dias de 2017.

Durante algum tempo, tentou salvar o emprego, com a justificativa de que suas frase tinham sido retiradas do contexto. Como não conseguiu encontrar nenhum contexto em que declarações dessa ordem se adequassem na boca de um agente público, caiu.

Claro que Bruno Júlio, que foi líder da “juventude do PMDB” de Belo Horizonte, não é um ponto fora da curva no que diz respeito à crise no sistema penitenciários que de tempos em tempo insiste em se tornar visível. O secretário demitido representa com perfeição a boçalidade de seus pares em vários níveis - da caixa de comentários das redes sociais até os gabinetes dos monumentais edifícios da Esplanada dos Ministérios.

Quando se tem deputados que comemoram chacinas em prisões e governadores que declararam que entre os presos mortos - em última análise, sob a custódia de seu Estado - “não havia nenhum santo”, não há mesmo muito a se esperar de uma sociedade que elege essa gente toda. O problema é que está cada vez mais difícil conter a violência ensandecida que arranca cabeças e corações de cadáveres no interior das penitenciárias.

Enquanto o Ministro da Justiça responsabiliza as autoridades estaduais, que por seu lado responsabilizam as vítimas da matança, as facções criminosas se fortalecem no ambiente penitenciário e preparam suas ações além dos muros dos presídios. A disputa pelo lucro de negócios ilícitos vai chegando não tão vagarosamente à periferia de São Paulo e aos morros do Rio.

Ao mesmo tempo em que um ministro que conhece muito bem o problema prefere fingir que não há problema nenhum e adota o discurso do “caso isolado” ou do “acidente pavoroso”. A aposta é que o discurso “bandido bom é bandido morto” do secretário boçal se reverbere na sociedade a ponto de causar danos eleitorais aos que se mostram incapazes de resolver o problema.

O custo, como mostram a Colômbia dos anos 80 e 90 e o México dos últimos dez anos - países onde questões de segurança pública se converteram em pesadelo de segurança nacional -, pode ser alto demais para toda a cidadania, “de bem” ou não.