POLÍTICA

Um rio de sangue

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Por Roberto Lameirinhas

A perspectiva é de que mais sangue deve rolar nos presídios pelo Brasil com a guerra aberta entre o PCC e a agora nacionalmente apresentada Família do Norte (FDN). Não que grande parte da população se importe, mas são fortes os indícios de que a selvageria deve aumentar.

Um rio de sangue

Política carcerária no Brasil nunca rendeu votos e o “cidadão de bem” do País nunca entendeu direito a diferença entre Justiça e vingança. Em tempos de crise, a violência que já era incontrolável nos presídios tende a se tornar descomunal. O investimento no setor certamente se reduzirá na proporção inversa da demanda dos próximos anos.

O caso da rebelião que deixou quase 60 mortos em Manaus é um bom exemplo, além de ser uma agravante, da deterioração do sistema. Privatizado, o Complexo Penitenciário Anísio Jobim é praticamente um depósito de detentos que “se autogovernam”, segundo relatório de um organismo ligado ao Ministério da Justiça, em meio à quase livre atuação de diferentes facções. Como consequência do motim do ano-novo, pelo menos 112 detentos estão foragidos.

No ano passado, a empresa responsável pela manutenção do presídio recebeu mais de R$ 300 milhões do governo do Estado para manter sob custódia 12 mil detentos nas oito unidades prisionais que mantém no Amazonas. Em 2015, tinha recebido cerca de R$ 200 milhões. Os sócios da concessionária fizeram generosas doações para políticos amazonenses, incluindo o governador José Melo (Pros), que recebeu R$ 300 mil em 2014. O sindicato de agentes penitenciários local, porém, diz que a vigilância é falha e a revista de visitantes é deficiente, a ponto de permitir a entrada de armas, drogas e telefones celulares no presídio. O grau de corrupção entre os vigilantes privados, ainda segundo o sindicato, também é alto.

Após a chacina na qual a FDN decapitou e esquartejou os presos ligados ao PCC, as autoridades deram início ao tradicional jogo de empurra no que diz respeito à responsabilidade. O ministro da Justiça disse que o governo estadual tinha informações sobre um plano de rebelião e fuga por parte da FDN. Depois se desdisse, ao afirmar que não havia fatos que apontassem para a omissão dos funcionários estaduais. A empresa negou falhas no sistema de vigilância e o governo do Estado alegou ter agido para evitar mortes entre agentes penitenciários e outros não detentos. “Não havia santo entre os mortos”, chegou a declarar o governador Melo.

Embora governos estaduais e federal acreditem que possam conter o poder das facções evitando mencionar o nome delas, a capilarização desses grupos é abrangente. Segundo informações de inteligência, a FDN deu início à ação contra o PCC após uma aliança com o Comando Vermelho. A retaliação do PCC, em qualquer presídio do Brasil, é só uma questão de tempo.