CURIOSIDADES

A influência das Grandes Guerras na Arte.

Victor  Zequi
Автор
Victor Zequi

Uma reflexão acerca da influência das Grandes Guerras no cenário artístico mundial e brasileiro.

(título original: A Arte Imita a Vida? artigo de capa publicado  na revista Cognito em julho de 2016, que pode ser lida na íntegra aqui: Cognito )

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A influência das Grandes Guerras na Arte.

Involuntariamente, a primeira imagem que nos vem à cabeça quando falamos em guerra é a de destruição, caos, ruína. As duas Grandes Guerras foram acontecimentos chocantes que marcaram o século passado de maneira histórica, e representaram épocas de terror. O que pouca gente sabe (ou então nunca parou pra notar), é que esses conflitos não influenciaram só a política e as relações sociais contemporâneas, mas também contribuíram para a mudança de rumo que os meios artísticos e culturais tomaram daí em diante.

Até o início dos conflitos, existia um certo consenso global de que a Europa, principalmente devido ao seu passado vanguardista e revolucionário, era quem definia o que era e o que não era considerado ‘’arte’’. A indústria cultural (se é que já se podia usar este termo) girava em torno do continente europeu, que ainda exercia grande influência sobre os países da américa, que colonizados no passado. Entretanto, no final da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos consagraram-se como o país mais beneficiado do conflito, expandindo de maneira drástica o seu poder econômico, o que resultou no desenvolvimento intenso do capitalismo.

A partir daí, o continente americano passou a ter um poder cultural muito maior, e que em pouco tempo se expandiu para o mundo inteiro. A Crise dell’arte comme scienza europea, como é chamado esse acontecimento, é auto-explicativa: a velha unanimidade da arte como exclusividade europeia já não era mais válida. A Guerra Fria já acontecia, e na bipolarização mundial que envolvia o confronto entre o capitalismo e socialismo, expandiu-se frenéticamente a publicidade e propaganda nos Estados Unidos, o que provocou um ‘’renascimento’’ da indústria cultural, e que acabou influenciando todo o mundo, e foi o que abriu as portas para o que viria a ser um processo de definição de identidade de muitos países da América Latina, inclusive o Brasil.

Muitos desses países ainda carregavam os arcaísmos decorrentes da era colonial: arquitetura, trajes, pintura e até mesmo a literatura eram muito semelhantes ao que havia sido ‘’importado’’ da Europa, pelos colonizadores. O pós Segunda Guerra é o que irá definir uma nova imagem da América Latina, que vai se transformar em um continente criador de sua própria cultura, inspirado no modelo norte-americano. No Brasil, é exatamente nessa época, a partir dos anos 50, que a modernidade de raíz brasileira se efetiva.

A industrialização do país deixa para trás a identidade de um país secular rural e possibilita a transição para um país urbanizado. São Paulo assume o papel de cidade em desenvolvimento crescente e veloz, que atrai uma grande mão de obra interna, e transforma-se no ícone de metrópole industrial da América Latina. Embora a cidade já tivesse manifestado uma primeira formulação do modernismo em 1922, com a Semana da Arte Moderna, é apenas nos anos 50 que o Brasil começa a se inserir no panorama artístico global. Com a criação da Bienal de São Paulo, em 1951, que no mesmo ano premiou o artista suíço Max Bill por sua obra geométrica e abstrata, as tendências construtivistas ganharam reconhecimento em solo brasileiro. Em São Paulo, o concretismo paulista foi o que precedeu uma primeira organização de uma arte abstrata construtiva em solo brasileiro. Em solo carioca, o Grupo Frente ganhou força e destaque.

No Rio de Janeiro, o processo foi parecido. Ao fim dos conflitos, a cidade passa a se desenvolver em torno de um espaço de experimentação artística intenso e com um conceito inédito e autêntico: o de uma América jovem , intensa e dinâmica. Isso transforma a então capital do país na primeira metrópole tropical da América Latina com uma influência cultural grande. O Rio se reinventou e tornou-se uma cidade de convivência praiana que contagiou toda a população. Aos poucos, os cariocas foram deixando de lado as lãs e tecidos de seda trazidos pelos colonizadores, para dar lugar ao clássico algodão e linho, tão populares hoje. O mar, que para os europeus sempre fora um obstáculo, torna-se espaço público de lazer desfrutado pelos cidadãos, e a bossa-nova toma conta da cena musical fluminense. Tudo isso faz parte do processo de concretização e criação de uma identidade própria da cidade que estimulou as demais localidades do país a criarem asas.

Uma das principais fontes de expressão da arte brasileira durante esse período, foi a arquitetura. Todo esse reaproveitamento do espaço urbano requiriu uma revitalização das cidades e, aproveitando-se da influência do concretismo e construtivismo, o Brasil se destacou mundialmente por sua nova face arquitetônica, deixando pra trás a tradicional influência europeia. O fim dos conflitos mundiais foi de extrema importância para a efetivação desse movimento que evidenciou a modernização urbana, isso porque o pós guerra abriu espaço para grandes debates que botavam a questão democrática no centro, e muitas das novas construções foram projetadas com isso em mente.

A influência das Grandes Guerras na Arte.

No Rio de Janeiro, a criação do Museu de Arte Moderna foi motivada pela necessidade de um museu que tivesse como tarefa primordial, a educação das massas, e que pudesse, além de expôr as novas linguagens de arte que surgiram no pós guerra, especialmente as abstratas, fazer funcionar também uma escola que pudesse conscientizar a população e conseguisse se relacionar com os cidadãos, para que o estudo acerca da arte deixasse de ser tratado de forma burocrática e acessível à todos. Toda a cidade se desenvolveu ao redor do ideal de uma capital de grande capacidade econômica e laboriosa, mas que ao mesmo tempo possibilitasse um cenário de descontração e vanguarda cultural. Como classificou Lucio Costa em sua obra Registro de uma vivência: ‘’Cidade planejada para o trabalho ordenado e eficiente, mas ao mesmo tempo cidade viva e aprazível, própria ao devaneio e à especulação intelectual, capaz de tornar-se, com o tempo, além de centro de governo e administração, um foco de cultura dos mais lúcidos e sensíveis do país’’.

A própria construção de Brasília, para sediar a nova capital do país, só se deu devido às ideias botadas em cheque durante esse período no Rio. Novas concepções, projetos e tendências possibilitaram o surgimento de uma nova pauta em relação à convivência política no país, e que levou o majestoso arquiteto Oscar Niemeyer, escolhido pelo então presidente Juscelino Kubitschek, a abrir, em 1957, um concurso público para o plano piloto de construção da cidade (aonde foi vencedor o projeto apresentado por Lucio Costa).

Em São Paulo, o concretismo inspirou a criação de diversas obras arquitetônicas invejáveis e revolucionárias, dentre as quais se destaca a vida e obra da arquiteta ítalo-brasileira Lina Bo Bardi. A construção do MASP (Museu de Arte de São Paulo) foi pensada visando também a democratização do ambiente público. A tarefa do arquiteto em um país novo é justamente a de criar uma identidade autêntica e inovadora, que possa fazer parte do cotidiano de seus cidadãos. Mais uma vez, isso sofreu intensa influência do período de pós guerra. O vão cujo qual o museu se impõe robustamente foi a maneira encontrada pela artista de viabilizar uma convivência pública, e uma praça para o debate de ideias. O vão do MASP é quase sempre ponto de partida de manifestações políticas e sociais, e concentra diversas expressões e performances de ativistas e artistas o tempo todo, em meio ao caos urbano. Além disso, o museu foi o primeiro do país a acolher as tendências artísticas que surgiram após a Segunda Guerra Mundial, e hoje possui a coleção de arte ocidental mais importante e abrangente da América Latina.

Esse ideal foi essencial para a continuidade e expansão dos movimentos culturais no país, mas principalmente no próprio cenário paulistano. Em 1982 a mesma Lina Bo Bardi inaugurou o SESC Pompeia, centro de divulgação e ensino cultural, também com forte influência concretista, que contou com a apresentação de bandas da cena musical punk paulistana, como Ratos de Porão, Cólera e Inocentes.

Hoje em dia a cidade ainda carrega essa influência no meio artístico, como foi o caso do festival do Mês da Cultura Independente, realizado em setembro de 2015, que promoveu os mais diversos projetos artísticos e integrou-os à cidade, lotando o Vale do Anhangabaú. No Rio de Janeiro, o projeto Estação da Música, em 2014, levou diversas bandas a se apresentarem nas estações de metrô, mais uma vez evidenciando a preocupação com a democratização do espaço urbano.

Uma indagação que constantemente assola o universo artístico é a dúvida: A arte imita a vida? Ou é a vida que imita a arte? A resposta está na própria pergunta, e não elege vencedoras: a arte faz parte da vida, e a vida faz parte da arte. Uma não respira sem a outra, e se a arte como a conhecemos e estudamos hoje, mudou devido aos conflitos que presenciamos, só a fez para poder mudar o mundo que ronda. E esse mundo, que hoje é colorido de um jeito, já não é mais colorido como um dia fora. E o futuro só virá, não sabemos quando, para poder então dar continuidade a esse ciclo e manter a arte viva e respirando, para que essa volte a revolucioná-lo.

A influência das Grandes Guerras na Arte.

A arte é a aprendiz do passado, concretizadora do presente e eterna lapidadora do futuro.