ARTES

A Resistência - Julián Fuks // Análise Semiótica

Victor  Zequi
Author
Victor Zequi

Para a disciplina de Semiótica da ESPM. Só contextualizando, mesmo. Cof cof*

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 Em algum instante, no meio do processo de reintegração do hábito de leitura em minha rotina (em parte, motivada pela ilusão de que um redator publicitário teria a liberdade de usar e abusar da literatura em seus Jobs), desenvolvi um hábito masoquista de marcar os livros com orelhas e rabiscos imprecisos. Masoquista; pois entre a lista de três coisas que sempre causaram uma certa repugnância em minha mãe, vigoravam: heavy metal, cigarro e orelha em livros (por incrível que pareça, erva-doce e Kid Abelha estão no outro top 3, coisas de grande afinidade). Cresci então associando orelhas em livros e cadernos a algum tipo de blasfêmia – e a semiótica já começa aqui. Tentei usar post-its para marcar as páginas e periféricos do tipo, mas o esforço era muito grande e eu gastava mais tempo tentando descobrir qual era o lado que tinha cola, do que efetivamente lendo o livro. Acabei sucumbindo às orelhas, e embora me causem pontadas de dor, resolvem o problema muito mais rápido.

 Pouco tempo atrás, pedi emprestado a um amigo o livro A Resistência de Julián Fuks. O enredo me chamou a atenção e ademais, era preciso redigir uma resenha crítica e fazer uma análise semiótica de seu conteúdo. Tudo conspirava a favor da leitura, e encontrando meu amigo (que por algum motivo trajava uma saia escocesa às 14h no metrô Vila Mariana), fui advertido:

— Olha, vê se me devolve essa p*rra aê! Porque eu ainda quero ler.

 E por que estou contando essa história? Ora, pois assim que cheguei em casa, comecei a folhear as páginas. Já havia decidido: “vou me organizar grifando todas as partes do livro em que me saltarem as discussões realizadas em sala de aula”. Entretanto, o livro não era de minha propriedade, e julgava antiético marcá-lo todo sem o consentimento de seu dono. Confesso que logo de cara, comecei a realizar algumas marquinhas discretas a lápis, e até a espalhar, sabiamente, algumas pequenas orelhas, com a justificativa de que apagaria e desdobraria tudo depois. Esse era meu primeiro argumento.

 Mas hoje após a aula, farei o favor de passar na livraria mais próxima e comprar um exemplar intacto do livro para entregá-lo a meu amigo de saia. Isso porque seu (ex)exemplar original está agora deitado em minha cama com dezenas de orelhas e linhas grifadas que atropelam as palavras. Devorei-o em um dia, e ao mesmo tempo em que seria um insulto devolvê-lo dessa maneira a seu dono original, gostaria de guardá-lo em minha modesta biblioteca.

 Pois bem. Iniciemos propriamente a resenha justificando o motivo de todo esse alvoroço. Acontece que o livro de memórias de Julian Fuks é uma imensa miríade de semiótica. Em todas as páginas, a batalha que o autor trava com suas lembranças vem acompanhada de uma luta maçante com a linguagem para tentar atribuir significados a sentimentos que o próprio autor às vezes até desconhece, ou só pode imaginar. De certa forma, é o que acontece em quase todo livro, mas neste diário-romance essa batalha é explicitada por Julián. Aliás, já no primeiro parágrafo isso é evidenciado quando protesta contra a “categorização” que a frase “meu irmão é adotado” evoca em seu irmão, que antes de signo é, nas palavras do autor: “algo, e esse algo é o que tantos tentam enxergar nele, esse algo são as marcas que insistimos em procurar, contra a vontade, em seus traços, em seus gestos, em seus atos.” Depois, conclui: “Meu irmão é adotado, mas não quero reforçar o estigma que a palavra evoca, o estigma que é a própria palavra convertida em caráter”. No capítulo 3 relembra uma vez em que disse à sua prima que seu irmão era adotado (tinha então 5 anos); e então discorre sobre como seus pais teriam dito a seu irmão, uma criança, que era de fato, adotado: “Como transmitir a importância daquele fato, com a seriedade que o assunto exige, sem lhe atribuir um peso desnecessário, sem transformá-lo num fardo que o menino jamais poderá carregar?”. Tudo isso corresponde à construção que existe em torno do fenômeno da adoção, feita complicada pelos adultos e talvez irrelevante aos olhos inocentes de uma criança.

 Ao longo do livro, o autor colocará em jogo sua credibilidade de colocar em palavras tudo o que aconteceu efetivamente. O capítulo 7 é especialmente determinante nisso.

 “Isso não é uma história, isso é história.

Isso é história e, no entanto, quase tudo o que tenho ao meu dispor é a memória, noções fugazes de dias tão remotos , impressões anteriores à consciência e à linguagem (primeiridade), resquícios indigentes que eu insisto em malversar em palavras (síntese). “

 O autor descreve o processo de elaboração de sentido, e ao mesmo tempo em que o faz, critica a si mesmo por “corromper” a realidade por meio da linguagem. “sei bem que nenhum livro jamais poderá contemplar ser humano nenhum, jamais constituirá em papel e tinta sua existência feita de sangue e carne. Mas o que digo aqui é algo mais grave, não é um formalismo literário: falei do temor de perder meu irmão e sinto que o perco a cada frase.”

 O processo narrativo, apesar de constituir o livro inteiro como uma história, também surge nas intervenções do autor. Ele atribui inclusive o processo narrativo a algo que pode interferir na real compreensão de uma história e até torná-la mais confusa, ou tornar real o irreal. Usa como exemplo a forma como sua mãe conta a história de sua família, e que até hoje gera dúvidas em sua cabeça.

 Quando relata um dia em que chutou a porta de vidro da varanda do quarto de seu irmão, sentimos um pouco o impacto que sentira o autor; que revela não se lembrar da imagem da porta se despedaçando, mas a memória de outro sentido do corpo ainda permanece viva: “do ruído não me esqueço, o ruído não me escapa (...)”. Novamente o primeiro impacto que permanece mais quente em sua memória que a cena em si ou o entendimento dela.

 O sonho é também utilizado na narrativa como forma de estabelecer analogias e metáforas. Em algum momento em um de seus sonhos diz: “nos punhos que eu cerrava com força, eu percebia a dimensão de minha raiva.” Associa os punhos cerrados à fúria – Mais à frente, no capítulo 44, recontará uma história evidenciando agora as lágrimas que caíam durante a cena que descreve, pois o choro a ressignifica totalmente. – No sonho, conecta a cama feita do irmão à sua morte. Conexões aparentemente sem lógica que fazem sentido em algum plano da mente quando estamos a sonhar. O sonho é mesmo, afinal, algo pouco racional mas que ao mesmo tempo evoca questionamentos, conclusões e até mesmo pode acessar partes sensoriais do corpo. Agora escrevendo esta resenha – não sei se por ironia de estar escrevendo sobre o livro – me vem à cabeça uma vez em que sonhei bater com o cotovelo num móvel amarelo de sala. Devia ter algo em torno de meus 7 anos. Tentava pegar um brinquedo que estava no chão, atrás do móvel. Bati o cotovelo com força contra a quina de madeira e a dor que sofri fora terrível. Dor essa que inclusive me despertou, e acordei com o braço ainda dolorido. É comum que personagens de sonhos – obviamente criados por nossa cabeça – nos digam coisas que jamais pensamos, ou elaboramos racionalmente. Tudo pois existe uma sopa de informação em áreas não acessadas da mente.

 É muito interessante também a forma como o autor retrata o silêncio em diversas partes do livro, atribuindo ao completo silêncio, o silêncio pela ausência – que contrapõe ao silêncio proposital, já classificando diversos tipos de silêncio – um novo significado. Algo que pode dizer mais que palavras, que pode provocar sentimentos mais intensos que o ruído. Fala sobre o silêncio das fotografias, que nos leva a mentir. Concluir coisas irreais, provocar sentimentos falsos. Aliás, na página 114, evidencia que nem sempre são as palavras que ficam na mente mas a sensação de escutá-las, numa conclusão que consegue sintetizar bem a interpretação dos signos:

 “Foi então que meu irmão se pronunciou como jamais imaginaríamos. Não lembro as palavras que ele disse, palavras menos importantes do que o efeito que produziram”.

 O resto é história e cabe ao leitor descobri-la. O drama familiar – muito bem desenvolvido – é apenas um pretexto para retratar uma época brutal na América Latina, em que a resistência não era apena uma questão de honra, mas de sobrevivência. Todo o caos político e social reflete no cerne da família, nas mais variadas questões, na necessidade de se precisar ter alguém em quem se segurar quando as pernas cambalearem. A Resistência é um livro extremamente envolvedor, e não pude deixar de sentir uma vontade extrema de voltar para as ruas quadriculadas de Buenos Aires e visitar a esquina de Junín y Peña, no bairro da Recoleta (procuro-a no Google Maps e lamento não tê-la cruzado por duas quadras de distância – enquanto percorria a Av. General Las Heras em direção ao que eu pensava ser o cemitério da Recoleta, mas revelou-se sendo a praça Vicénte Lopez). As memórias do livro são fortemente melancólicas e nos tocam a alma. Trazem lembranças nostálgicas; lamentações furiosas; indagações infelizes, sobre uma época em que não se podia sentar à uma mesa e jantar com seus amigos. Traz ainda um questionamento enorme em torno da família: o que faz uma família, família, afinal? O livro nos faz repensar os laços familiares, às vezes frouxos, às vezes sufocantes; a eterna resistência que travamos com nossos entes queridos, ora junto a eles, ora contra, e como mais tarde fica evidente no diário, a que travamos com nós mesmos, muito maior do que qualquer outra. Foi o que fez Julián Fuks nestas 139 páginas – e não há nada mais semiótico que isso.