Através da janela
1BB34097-F786-44E7-9A1A-E8A05C0914DB
Burger
Através da janela
1BB34097-F786-44E7-9A1A-E8A05C0914DB
Burger
Através da janela
ic-spinner
Todo mundo tem uma história para contar
Encontre as melhores histórias para ler e autores para seguir. Inspire-se e comece a escrever grandes histórias sozinho(a) ou com seus amigos. Compartilhe e deixe o mundo conhecê-las.

A influência das Grandes Guerras na Arte.

Victor  Zequi
há 8 meses3 visualizações

Uma reflexão acerca da influência das Grandes Guerras no cenário artístico mundial e brasileiro.

Colaborar com amigos em assuntos que você ama
Pedir coautoria ▸

(título original: A Arte Imita a Vida? artigo de capa publicado  na revista Cognito em julho de 2016, que pode ser lida na íntegra aqui: Cognito )

---

A influência das Grandes Guerras na Arte.

Involuntariamente, a primeira imagem que nos vem à cabeça quando falamos em guerra é a de destruição, caos, ruína. As duas Grandes Guerras foram acontecimentos chocantes que marcaram o século passado de maneira histórica, e representaram épocas de terror. O que pouca gente sabe (ou então nunca parou pra notar), é que esses conflitos não influenciaram só a política e as relações sociais contemporâneas, mas também contribuíram para a mudança de rumo que os meios artísticos e culturais tomaram daí em diante.

Até o início dos conflitos, existia um certo consenso global de que a Europa, principalmente devido ao seu passado vanguardista e revolucionário, era quem definia o que era e o que não era considerado ‘’arte’’. A indústria cultural (se é que já se podia usar este termo) girava em torno do continente europeu, que ainda exercia grande influência sobre os países da américa, que colonizados no passado. Entretanto, no final da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos consagraram-se como o país mais beneficiado do conflito, expandindo de maneira drástica o seu poder econômico, o que resultou no desenvolvimento intenso do capitalismo.

A partir daí, o continente americano passou a ter um poder cultural muito maior, e que em pouco tempo se expandiu para o mundo inteiro. A Crise dell’arte comme scienza europea, como é chamado esse acontecimento, é auto-explicativa: a velha unanimidade da arte como exclusividade europeia já não era mais válida. A Guerra Fria já acontecia, e na bipolarização mundial que envolvia o confronto entre o capitalismo e socialismo, expandiu-se frenéticamente a publicidade e propaganda nos Estados Unidos, o que provocou um ‘’renascimento’’ da indústria cultural, e que acabou influenciando todo o mundo, e foi o que abriu as portas para o que viria a ser um processo de definição de identidade de muitos países da América Latina, inclusive o Brasil.

Muitos desses países ainda carregavam os arcaísmos decorrentes da era colonial: arquitetura, trajes, pintura e até mesmo a literatura eram muito semelhantes ao que havia sido ‘’importado’’ da Europa, pelos colonizadores. O pós Segunda Guerra é o que irá definir uma nova imagem da América Latina, que vai se transformar em um continente criador de sua própria cultura, inspirado no modelo norte-americano. No Brasil, é exatamente nessa época, a partir dos anos 50, que a modernidade de raíz brasileira se efetiva.

A industrialização do país deixa para trás a identidade de um país secular rural e possibilita a transição para um país urbanizado. São Paulo assume o papel de cidade em desenvolvimento crescente e veloz, que atrai uma grande mão de obra interna, e transforma-se no ícone de metrópole industrial da América Latina. Embora a cidade já tivesse manifestado uma primeira formulação do modernismo em 1922, com a Semana da Arte Moderna, é apenas nos anos 50 que o Brasil começa a se inserir no panorama artístico global. Com a criação da Bienal de São Paulo, em 1951, que no mesmo ano premiou o artista suíço Max Bill por sua obra geométrica e abstrata, as tendências construtivistas ganharam reconhecimento em solo brasileiro. Em São Paulo, o concretismo paulista foi o que precedeu uma primeira organização de uma arte abstrata construtiva em solo brasileiro. Em solo carioca, o Grupo Frente ganhou força e destaque.

No Rio de Janeiro, o processo foi parecido. Ao fim dos conflitos, a cidade passa a se desenvolver em torno de um espaço de experimentação artística intenso e com um conceito inédito e autêntico: o de uma América jovem , intensa e dinâmica. Isso transforma a então capital do país na primeira metrópole tropical da América Latina com uma influência cultural grande. O Rio se reinventou e tornou-se uma cidade de convivência praiana que contagiou toda a população. Aos poucos, os cariocas foram deixando de lado as lãs e tecidos de seda trazidos pelos colonizadores, para dar lugar ao clássico algodão e linho, tão populares hoje. O mar, que para os europeus sempre fora um obstáculo, torna-se espaço público de lazer desfrutado pelos cidadãos, e a bossa-nova toma conta da cena musical fluminense. Tudo isso faz parte do processo de concretização e criação de uma identidade própria da cidade que estimulou as demais localidades do país a criarem asas.

Uma das principais fontes de expressão da arte brasileira durante esse período, foi a arquitetura. Todo esse reaproveitamento do espaço urbano requiriu uma revitalização das cidades e, aproveitando-se da influência do concretismo e construtivismo, o Brasil se destacou mundialmente por sua nova face arquitetônica, deixando pra trás a tradicional influência europeia. O fim dos conflitos mundiais foi de extrema importância para a efetivação desse movimento que evidenciou a modernização urbana, isso porque o pós guerra abriu espaço para grandes debates que botavam a questão democrática no centro, e muitas das novas construções foram projetadas com isso em mente.

A influência das Grandes Guerras na Arte.

No Rio de Janeiro, a criação do Museu de Arte Moderna foi motivada pela necessidade de um museu que tivesse como tarefa primordial, a educação das massas, e que pudesse, além de expôr as novas linguagens de arte que surgiram no pós guerra, especialmente as abstratas, fazer funcionar também uma escola que pudesse conscientizar a população e conseguisse se relacionar com os cidadãos, para que o estudo acerca da arte deixasse de ser tratado de forma burocrática e acessível à todos. Toda a cidade se desenvolveu ao redor do ideal de uma capital de grande capacidade econômica e laboriosa, mas que ao mesmo tempo possibilitasse um cenário de descontração e vanguarda cultural. Como classificou Lucio Costa em sua obra Registro de uma vivência: ‘’Cidade planejada para o trabalho ordenado e eficiente, mas ao mesmo tempo cidade viva e aprazível, própria ao devaneio e à especulação intelectual, capaz de tornar-se, com o tempo, além de centro de governo e administração, um foco de cultura dos mais lúcidos e sensíveis do país’’.

A própria construção de Brasília, para sediar a nova capital do país, só se deu devido às ideias botadas em cheque durante esse período no Rio. Novas concepções, projetos e tendências possibilitaram o surgimento de uma nova pauta em relação à convivência política no país, e que levou o majestoso arquiteto Oscar Niemeyer, escolhido pelo então presidente Juscelino Kubitschek, a abrir, em 1957, um concurso público para o plano piloto de construção da cidade (aonde foi vencedor o projeto apresentado por Lucio Costa).

Em São Paulo, o concretismo inspirou a criação de diversas obras arquitetônicas invejáveis e revolucionárias, dentre as quais se destaca a vida e obra da arquiteta ítalo-brasileira Lina Bo Bardi. A construção do MASP (Museu de Arte de São Paulo) foi pensada visando também a democratização do ambiente público. A tarefa do arquiteto em um país novo é justamente a de criar uma identidade autêntica e inovadora, que possa fazer parte do cotidiano de seus cidadãos. Mais uma vez, isso sofreu intensa influência do período de pós guerra. O vão cujo qual o museu se impõe robustamente foi a maneira encontrada pela artista de viabilizar uma convivência pública, e uma praça para o debate de ideias. O vão do MASP é quase sempre ponto de partida de manifestações políticas e sociais, e concentra diversas expressões e performances de ativistas e artistas o tempo todo, em meio ao caos urbano. Além disso, o museu foi o primeiro do país a acolher as tendências artísticas que surgiram após a Segunda Guerra Mundial, e hoje possui a coleção de arte ocidental mais importante e abrangente da América Latina.

Esse ideal foi essencial para a continuidade e expansão dos movimentos culturais no país, mas principalmente no próprio cenário paulistano. Em 1982 a mesma Lina Bo Bardi inaugurou o SESC Pompeia, centro de divulgação e ensino cultural, também com forte influência concretista, que contou com a apresentação de bandas da cena musical punk paulistana, como Ratos de Porão, Cólera e Inocentes.

Hoje em dia a cidade ainda carrega essa influência no meio artístico, como foi o caso do festival do Mês da Cultura Independente, realizado em setembro de 2015, que promoveu os mais diversos projetos artísticos e integrou-os à cidade, lotando o Vale do Anhangabaú. No Rio de Janeiro, o projeto Estação da Música, em 2014, levou diversas bandas a se apresentarem nas estações de metrô, mais uma vez evidenciando a preocupação com a democratização do espaço urbano.

Uma indagação que constantemente assola o universo artístico é a dúvida: A arte imita a vida? Ou é a vida que imita a arte? A resposta está na própria pergunta, e não elege vencedoras: a arte faz parte da vida, e a vida faz parte da arte. Uma não respira sem a outra, e se a arte como a conhecemos e estudamos hoje, mudou devido aos conflitos que presenciamos, só a fez para poder mudar o mundo que ronda. E esse mundo, que hoje é colorido de um jeito, já não é mais colorido como um dia fora. E o futuro só virá, não sabemos quando, para poder então dar continuidade a esse ciclo e manter a arte viva e respirando, para que essa volte a revolucioná-lo.

A influência das Grandes Guerras na Arte.

A arte é a aprendiz do passado, concretizadora do presente e eterna lapidadora do futuro.

A Poesia de Marise Hansen

Victor  Zequi
há 8 meses6 visualizações

(artigo publicado na revista Cognito em julho de 2016, que pode ser lida na íntegra aqui: Cognito)

Colaborar com amigos em assuntos que você ama
Pedir coautoria ▸

---

“Não dá pra ignorar a poesia da Marise, cheia de belos achados”. É assim que o músico, compositor e artista visual Arnaldo Antunes abre a contracapa do livro Porta-retratos (Ateliê Editorial/2015), estreia da escritora e professora de literatura do Colégio Bandeirantes, Marise Hansen, que reúne uma série de poemas (de redondilhas a poemas concretos), escritos ao longo de sua jornada. Lançado em dezembro de 2015, Porta-retratos já teve sua primeira edição esgotada nas prateleiras da editora. Quando a Cognito procurou uma entrevista exclusiva com a autora, já sabia o que esperar: uma conversa extremamente agradável e enriquecedora. A autenticidade da obra de Marise reflete em seu jeito de ser, criar e se expressar. Ainda assim, a poeta nos surpreendeu com a lucidez e clareza de todas as suas respostas. Marise carrega a poesia em sua fala, e sua vida e arte confundem-se em uma solução homogênea, mas extremamente verdadeira. A entrevista, realizada em uma das salas da escola em que leciona a educadora, deu um novo aspecto à conversa, que foi algo além do que já esperávamos: uma aula.

Boa leitura!

A Poesia de Marise Hansen

Cognito: Marise, primeiramente, um feliz dia das mães para você, que além de poeta é mãe. Você lançou recentemente seu primeiro livro de poesias, Porta-retratos (Atêlie Editorial – São Paulo 2015). Queria que você contasse um pouco sobre como foi sua experiência durante o processo até finalmente publicá-lo. Quanto tempo levou, quais foram suas motivações, inspirações, obstáculos, enfim, o que você considerar importante falar.

Marise Hansen: Bom. Poesia eu escrevo faz bastante tempo, desde a adolescência. Sempre foi algo que esteve muito em mim. Aí veio o fim da faculdade, comecei a trabalhar...

C: Você fez letras.

MH: Fiz letras. Na USP (FFLCH).

C: E desde sempre você soube que queria letras?

MH: Desde sempre eu quis dar aula! Minha mãe foi professora, recebi muita influência por parte da minha família. Minha brincadeira preferida era dar aula. E aí na faculdade, como eu estudei poesia em inglês, tinha que escrever poesia, ou texto livre, não lembro agora, na língua inglesa, eu escolhi fazer em inglês. E foi bacana, um pessoal leu, gostou. Mas daí depois veio o trabalho, comecei a trabalhar aqui, – aponta para o chão do Colégio Bandeirantes – vieram os filhos. Acabei focando mais no trabalho e a produção ficava em segundo plano.

C: Seus filhos estão com 13 e 15, não?

MH: Sim, o André (15) e o Pedro (13), que inclusive estudam aqui no colégio.

Então eu tive esse período de formação, que foi muito importante. Pra escrever não tem jeito. Tem que ler. Além de escrever tem que ler muito, pra expandir o seu repertório, e dar aula foi muito legal nesse aspecto, porque você tem que se atualizar toda hora. Se você vai dar aula sobre o poeta X, não bastar conhecer só poeta X. Tem que conhecer X, Y e Z. Quem influenciou quem, tem que dar exemplos... Mesmo que você não queira, tem que saber de tudo. Mas eu sempre gostei de ler poesia. E aí que acabei eventualmente retornando com a criação, bem freneticamente. E depois de um tempo você acaba tendo um volume de texto, conteúdo, e quando se dá conta você pensa: ”Pô, eu tenho um livro... isso aqui dá um livro”. E aí como eu tenho alguns poemas, e o primeiro até, que tem a imagem poética do porta-retratos... eu gosto muito de fotografia, gosto muito da imagem, e muita coisa que escrevo é inspirado pela fotografia, eu gosto muito do instante... Poesia é isso né? Você, de alguma maneira, flagrar um instante que por algum motivo você vai achar poético. Uma cena, uma reação, uma pessoa, um diálogo... Como se fosse uma foto. E eu gosto muito, também gosto muito do porta- retratos (objeto). Eu faço alguns caseiros. A foto do porta-retratos, na primeira página do livro, foi um que eu fiz. Fiz a moldura com colagens e está lá em casa. Adoro.

C: E que foto está nele?

MH: É uma foto minha com o André e o Pedro lá em Codisburgo, onde nasceu João Guimarães Rosa, que é o escritor que inspirou o doutorado que estou fazendo hoje. A princípio o nome do livro seria Inverso, In(verso), até para brincar com essa questão do invertido e também com a de “adentrar” o verso. Mas depois eu percebi a forte ligação com as fotos, e esse poema que eu gosto muito, muito mesmo tem tudo a ver. Aí gostei desse nome. Eu percebi que dava pra separar os poemas em categorias, e então vieram as “sessões” do livro, que remetem ao porta- retratos: a Escolha (da foto), a Moldura, o Instante, Retratos e a Paisagem. E então alguns amigos poetas ficaram entusiasmados, o Frederico Barbosa gostou, disse que ia me ajudar a publicar, o Arnaldo Antunes, que é um poeta que admiro muito, se dispôs a ler e me falou mais ou menos o que ele escreveu na quarta capa. O Ricardo Aleixo também, que foi quem fez a apresentação... então essas pessoas foram me dando segurança, e eu acabei indo atrás da Ateliê pra publicar, já tinha publicado um prefácio de um romance do Eça de Queiroz com eles. E aí publiquei. E continuo escrevendo, essa fase do livro é até uma fase anterior da que eu estou agora, mas gosto de tudo que está aqui, não renego nenhum poema não (risos). Mas acho até que já tenho material para um segundo livro...

C: Íamos perguntar isso, até achei que poderia ser muita pressão, mas pelo jeito, não mesmo. Marise, tem algum poema que você tem um carinho mais especial? Sabemos que é uma pergunta difícil de ser respondida.

MH: Acho que é esse daqui, que eu coloquei em primeiro lugar (Mise en Abyme I. Escolha) – aponta para o livro – fui eu mesma que escrevi, mas sempre que leio eu me emociono. Porque remete muito a essa coisa da escolha né... a dois – de um endereço, de um nome, a três – de outro nome, até a sós, porque tem um momento que é você com você né...

C: Vários, por sinal.

MH: Vários, aliás (risos). Exato. Então vai desde escolha de um perfume, pra sair, até a de um Deus, de um rumo, de um ato, e também das fotos do porta-retratos, que é algo que eu faço bastante. Também gosto bastante do poema “Peixe”, o Arnaldo Antunes gosta bastante do “Peixe” também. Ele é sobre ser gauche, sabe? Me identifico muito.

C: Gostaríamos de saber quais foram suas principais influências e como elas afetaram o seu fazer-artístico?

MH: Dos brasileiros... eu acho que todo mundo é influência de todo mundo na verdade né? Acho que o (Manuel) Bandeira tem essa questão do instante poético, do flagrante, o ritmo, porque é o jeito como você conta que faz toda a diferença. Às vezes só de você trocar a ordem das palavras ou mudar uma palavra já muda tudo. E isso do poema ser um artefato a ser construído é algo que me agrada muito. É do João Cabral de Melo Neto. Esse rigor na estrutura, sem ser um parnasiano, porque mesmo que o poema seja livre, não dá pra fazer um texto “desossado”, que não leva a lugar nenhum, nesse aspecto a poesia concreta me influenciou muito (o livro de Marise conta também com alguns poemas concretos), porque ela explora tudo isso: o som, a estrutura, o visual, as letras têm um corpo poético, porque tudo tem uma “fagulha” de poesia. Do Drummond, claro, esse jeito... do desajuste, sabe? Porque, bom... não vem que não tem. Poeta tem que ter esse olhar desajustado, não um “desajustado social”, não é isso, mas tem que ver tudo diferente, se não, não é poesia, não tem jeito. Essa coisa do perplexo. Acho que tenho, por causa dele, esse olhar permanentemente perplexo. E finalmente, um poeta dos meus favoritos, que é o João Cabral de Melo Neto, que é o poeta da disciplina. Então aprendi muita estrutura com ele, e ritmo com o Bandeira, até porque eu tive a segurança de me chamar de “poeta” quando senti firmeza no que diz respeito ao ritmo, e hoje é fácil pra mim escrever um verso e pensar “Opa, aqui não tá legal”. Poesia não é só juntar imagens, criar metáforas, ter um bom repertório lexical... é tudo isso e mais a questão do ritmo, de juntar tudo, poesia é o ritmo, porque é o jeito como você conta que faz toda a diferença. Às vezes só de você trocar a ordem das palavras ou mudar uma palavra já muda tudo. E isso do poema ser um artefato a ser construído é algo que me agrada muito. É do João Cabral de Melo Neto. Esse rigor na estrutura, sem ser um parnasiano, porque mesmo que o poema seja livre, não dá pra fazer um texto “desossado”, que não leva a lugar nenhum, nesse aspecto a poesia concreta me influenciou muito (o livro de Marise conta também com alguns poemas concretos), porque ela explora tudo isso: o som, a estrutura, o visual, as letras têm um corpo. E da poesia inglesa tem também o Shakespare, que tem aquele brilho intelectual incrível, assim como Camões, e o John Donne, do barroco, até cheguei a escrever algumas traduções dele e quero publicar. É um escritor também do conceito, do raciocínio.

C: Você mencionou um possível segundo livro. Como está essa ideia? Já em prática ou apenas no mundo onírico?

MH: Bom, material eu já tenho, e são poemas mais puxados pra questão emocional da experiência. Só não tenho ainda a ideia da concepção, de como esse livro vai sair, e agora estou numa parte difícil do meu doutorado, então acho que vai ficar para o ano que vem.

C: Conte-nos sobre o doutorado.

MH: Estou trabalhando a relação com os escritos do João Guimarães Rosa com a revista Senhor, que é uma revista muito assimilada com a Pif Paf, o Millôr colaborou na Senhor, é uma revista dos anos JK, que pra você ter uma ideia reuniu Clarice, Drummond, Glauber Rocha. Era uma revista muito refinada em termos de cultura, e ela durou pouco, de 59 a 64, quando veio o golpe, inclusive vou abordar isso no doutorado, e acabou faltando verba e a revista acabou. O Rosa publicou 7 novelas lá... 7 contos ou novelas, e a Senhor marcou o fim de uma era né, veja bem: Bossa-nova, cinema novo, um Brasil novo, moderno. E o fim disso com o regime militar.

C: Como é que você vê a poesia na contemporaneidade? Isso é, atualmente vivemos na era da informação, e em meio a essa freneticidade de conteúdo raramente paramos para ler algo com verdadeira calma e compreensão, “viajamos” nas palavras, refletimos… Você acha que isso ameaça os escritores, mais precisamente os poetas, de alguma forma? Ou se isso ajuda na divulgação e facilita a visibilidade? O que você acha que deve ser feito para manter a poesia, digamos assim, “viva”?

MH: Eu acho muito legal a descrição que você começou a dar sobre a era da informação, as redes sociais, os compartilhamentos, porque isso é exatamente o oposto da poesia. É tudo muito superficial, tudo muito rápido, instantâneo e a poesia te chama para o contrário. É tudo muito aprofundado, não adianta ler rápido, exige tempo, e por isso penso que a literatura deveria ter muito mais penetração nas escolas. Agora sim, as redes sociais dão sim uma visibilidade e também uma resposta muito grande para qualquer artista, que pode publicar independentemente um texto e mostrar para o mundo todo, tanto é que hoje em dia muitos poetas têm muito material publicado online, eu por exemplo sempre procuro publicar nos meus perfis, inclusive coisas que estão dentro do livro.

C: Talvez as pessoas comprem os livros hoje para dar um suporte ao artista como quem diz “gosto do seu trabalho, e mesmo que eu possa acompanhar grande parte dele gratuitamente online, vou comprar o livro para ajudar a manter ele acontecendo, e ainda terei isso registrado de maneira física”, o que é bem legal, e diferente.

MH: É isso mesmo.

C: Você estava falando da educação. Falta mesmo literatura nas escolas? Como é a relação dos alunos com a literatura? Tem muita gente querendo escrever? Bastante gente talentosa?

MH: Acho que falta sim mais literatura e poesia nas escolas, principalmente na rede pública. Aqui no Bandeirantes, por ser um colégio particular, tem um bom espaço para o ensino, uma grade boa, professores excelentes, então é uma realidade diferente. Agora na rede pública, não adiante chegar e dar a mesma aula que a gente dá aqui, porque não bate. Não é a mesma linguagem, a deficiência é muito mais grave, muito aluno que não consegue ler, e não quer ler, por exemplo, um Camões. Mas a poesia, principalmente nessa fase da adolescência é muito importante porque conscientiza, influencia demais. Mas tem que ser interessante. Existem projetos incríveis que acontecem na periferia, como a Cooperifa, que levam a poesia para esses lugares, poesia da rua. Tem muita ligação com o rap, o hip-hop, arte urbana. O Renan Inquérito publicou um livro chamado Poesia Pra Encher A Laje (LiteraRUA/2016) que como o próprio título sugere, é uma poesia muito ligada por exemplo, à oralidade. E é muito bom, você fica impressionado. Já trabalhei dando aula na rede pública, mas foi muito difícil, tem criança ali com todo o tipo de problema, às vezes aluno que nem tem o que comer. Pretendo, no entanto, trabalhar com algum projeto relacionado à educação pública mais pra frente, até porque eu estudei em escola pública e bom, tenho muita vontade de fazer algo por isso, de educação relacionada à poesia. Quanto aos alunos, vejo que tem sim muita gente interessada, o que falta muitas vezes é um incentivo, uma porta de entrada pra quem ainda não se deu ao trabalho de ver se gosta ou não. E isso é normal, ainda é cedo. Você perguntou se tem gente talentosa, e eu digo que muitas vezes a gente só descobre isso depois, quando a pessoa sai da escola, começa a se revelar, a se interessar por tal coisa, e que faz bem. É uma caixinha de surpresas. Teve um aluno meu que era de exatas. Se formou e foi fazer um “mochilão” pelo mundo, e ele escreve cada texto dos lugares... coisas incríveis, dava pra fazer um livro. E na escola muitas vezes você não consegue ver isso. Mas sempre tem um ou outro ali que você vê, tem sim um jeito com as palavras.

C: Por fim, quais são os escritores e poetas que você mais admira na atualidade? Vale citar seus amigos mais próximos, livros que mais gostou de ler, obras que você está esperando sair...

MH :Ultimamente eu tenho lido relativamente pouca prosa, estou lendo bastante o que foi incluído na lista da Fuvest, o romance Mayombe do Pepetela que é um escritor angolano, também tem o Mia Couto, e eu achei muito legal essa incorporação da literatura africana no vestibular. Agora, poesia contemporânea eu acompanho muito. Então tem muitos poetas... o Ricardo Aleixo, uma também mineira que se chama Ana Martins Marques, a Alice Ruiz, que foi casada com o Paulo Leminski, no nosso sarau aqui no Bandeirantes queremos homenageá-la esse ano. Então é isso... nós temos escritores muito bons, poetas contemporâneos fantásticos e isso é ótimo. E que continue assim (risos).

A Poesia de Marise Hansen
Você leu a pasta de história
Story cover
escrita por
Writer avatar
zequi
Não escrevo por dinheiro, mas bem que poderia...